Maçonaria e Inquisição

“Este caminho [de provação] passa por cárceres
que parecem túmulos de cheiro nauseabundo,
pelas câmaras de tortura da Inquisição,
leva aos horrendos cadafalsos, à forca, às fogueiras dos autos de fé,
às galés e ao desterro nalguma ilha do diabo…” (1)

A história da Maçonaria é feita de dores e horrores. Em Portugal, a primeira loja maçónica especulativa foi fundada em Lisboa pelo empresário católico inglês William Dugood, cerca do ano 1728. Sete anos volvidos, em 17 de Abril de 1735, foi a mesma regularizada – com carta constitutiva do Grão-Mestre inglês Lord Weymouth – pelo capitão escocês, presbiteriano, George Gordon (2), registando-se com o nº 135 (mais tarde, foi substituído pelo nº 120). Gordon chegara a Lisboa nesse ano, integrando uma importante frota naval britânica; o peso da influência civilizacional dos ingleses fazia-se sentir notadamente desde a assinatura do Tratado de Methuen (3).

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1 Desabafo ou reflexão de pesar, reproduzido num artigo de Carlos Theodor, em “Der Zirked”, ano 43, número 8, Viena, 1912, e em “Latomia”, tomo 8, 1846.
2 George Gordon, matemático, autor da secção matemática do Dictionarium Brittannicum de Bailey, de 1730. Nesta cerimónia estiveram presentes numerosos oficiais da marinha inglesa.
3 Tratado comercial anglo-português firmado em 1703, e determinando as trocas comerciais de ambos os países: o comércio ultramarino dos vinhos portugueses em troca dos têxteis ingleses, e, em termos civilizacionais, constantes fluxos migratórios, intensos contactos navais e importantes relações diplomáticas. Uma colónia de 1000 habitantes ingleses se estabeleceu, então, em Lisboa, conferindo lugar proeminente à influência cultural inglesa (que até então pertencera à França) junto da sociedade portuguesa, e neste contexto, consolidando o caminho para uma supremacia da Maçonaria especulativa inglesa na Europa continental, assente principalmente em território português.

Esta loja – designada pelos maçons católicos irlandeses como a loja dos Mercadores Hereges – era essencialmente composta de empresários ingleses anglicanos e escoceses presbiterianos, e sobreviveu até ao terramoto de 1755.

Em 1733 fundou-se uma segunda loja em Lisboa, denominada Casa Real dos Pedreiros-Livres da Lusitânia. Esta era predominantemente integrada por clérigos regulares dominicanos, militares e empresários católicos irlandeses, e nela se veio a filiar o engenheiro, arquitecto e militar húngaro Carlos Mardel (4), planificador urbanístico da Lisboa pós-terramoto. Em 1738, ao ser promulgada a bula condenatória de Clemente XII, a loja dissolveu-se, mas alguns dos obreiros não acataram a decisão papal, ingressando na outra loja.
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(4) Mardel foi um dos principais responsáveis pela construção do Aqueduto das Águas Livres, tendo desenhado a Mãe d’Água e um arco triunfal, o Arco das Amoreiras, para festejar a chegada das águas. Da sua autoria são também o Chafariz da Esperança e o do Rato. O Palácio do Marquês de Pombal, antiga residência de Sebastião José de Carvalho e Mello, um solar do século XVIII localizado em Oeiras, é também obra sua, bem como a Capela do Solar, dedicada a Nossa Senhora das Mercês (também em Oeiras). Em 1747, Mardel foi nomeado para o cargo de arquitecto dos Paços reais, e das Ordens militares. Foi um dos principais arquitectos da reconstrução de Lisboa, juntamente com Eugénio dos Santos, após o Terramoto de 1755. Deixou a sua marca no tipo de telhados que desenhou, caracterizados por telha de canudo com beirais, de origem alemã. Construiu, ainda, o Palácio da Inquisição no Rossio.

A terceira loja estabelecida em Lisboa conheceu destino mais trágico: fundou-a, em 1741, o lapidário de diamantes e calvinista suíço John (Jean, ou Johann) Coustos, nascido na Suíça mas naturalizado inglês. Esteve activa dois anos, nela ingressando cerca de trinta estrangeiros residentes em Portugal. Na maioria eram franceses mas também havia alguns ingleses, um belga, um holandês e um italiano. Esta loja integrava um quadro muito diversificado quanto às origens e orientações religiosas dos seus membros, nomeadamente: Coustos, o Venerável, era protestante, sendo os restantes predominantemente católicos. À semelhança da Maçonaria inglesa da época de Anderson (5), a loja de Lisboa dirigida por Coustos só admitia três graus: Aprendiz, Companheiro e Mestre.
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(5) … a assim chamada “Maçonaria Moderna”, constituída de racionalistas e livres-pensadores, por oposição à “Maçonaria Antiga”, de pendor fortemente católico – sendo as duas Grandes Lojas concomitantes e estando ambas sediadas em Londres. A partir de 1751 (data oficial do nascimento da Grande Loja chamada dos Antigos) as duas Grandes Lojas irão digladiar-se tenazmente. Esta situação perdurou por mais de cinquenta anos, até 1813, quando se reúnem novamente as duas Grandes Lojas, sendo o Duque de Sussex o Grão-Mestre dos “Modernos”, e o seu irmão, o Duque de Kent, o Grão-Mestre dos “Antigos”. Esta reunificação e concórdia foi oficialmente celebrada no 27 de Dezembro de 1813, data que assinala o nascimento da actual Grande Loja Unida de Inglaterra.

A aparente paz de que todas as três então gozavam, durou pouco tempo mais. O derramamento de sangue não se fazia esperar…

Os episódios da Sangria

Na sua excelente obra Die Freimaurer (Os Pedreiros-Livres), Eugen Lennhoff relata os acontecimentos trágicos ocorridos em Lisboa, por via das perseguições inquisitoriais, como se segue:

“Bonnet de Meautry, um frade dominicano da Provença, confessor do embaixador francês e um fanático caçador de hereges (que modestamente a si próprio chamava carnassier de Nôtre-Seigneur), denunciou 17 irmãos maçons, por ‘conspiração e heresia’, ao Grande Inquisidor D. Pedro da Silveira, e exigiu a perseguição e castigo exemplar dos ‘Pedreiros-livres’.

D. João V, tomado de loucura religiosa, deu o seu aval ao processo e, sem a anuência das Cortes, promulgou uma lei retroactiva segundo a qual se condenaria à morte, sem apelo, a qualquer que se comprovasse ser maçon. Tão logo foi publicado este édito, no dia 8 de Março de 1743 a loja ‘Virtude’ foi invadida, atacada e desmantelada por polícias e mosqueteiros.

Três membros da loja, os aristocratas Damião de Andrade e Manuel de Revelhos, e o irmão de serviço Cristóvão Diogo, muçulmano baptizado, subiram ao patíbulo depois de terem passado por terríveis tormentos, que não lograram arrancar dos seus lábios os nomes dos seus pares. Não obstante, a guarda encontrou a pista de três estrangeiros: os joalheiros franceses Jean Thomas Braslé e Jacques Mouton, e o lapidário de diamantes e joalheiro de camafeus suíço Johann Coustos, de Berna, denunciados como maçons pela mulher de um rival no ofício da joalharia.

Os três detidos foram espancados na via pública e, cobertos de sangue, foram conduzidos ao Palácio da Inquisição, à presença do Grande Inquisidor, Cardeal da Cunha. Ali, e num período de três meses, foram por nove vezes submetidos à ‘tortura do cavalo’, até se lhes desconjuntarem braços e pernas, e presos por correntes de ferro, foram atrozmente queimados no peito e nas axilas, com tochas ardentes impregnadas de pez. Os médicos apenas lhes tratavam sumariamente as chagas, para logo serem de novo martirizados, sem conseguirem arrancar-lhes ‘segredo’ algum.

Thomas Braslé morreu no decurso destas atrocidades no mesmo dia em que os irmãos portugueses foram, também eles, conduzidos ao patíbulo. Coustos foi arrastado, no meio dos apupos da chusma popular, ao auto de fé que se organizou na igreja de São Domingos, para ali escutar a sentença em presença do Rei e de toda a Corte. Foi condenado a quatro anos nos calabouços e excomungado pela Igreja; mas, no ano seguinte, a instâncias do embaixador de Inglaterra [este, mediando os apelos do próprio rei Jorge II de Inglaterra junto do rei D. João V de Portugal], foi libertado e, juntamente com Mouton, levado para bordo do navio holandês ‘Damietta’, seguindo depois para Londres (6). Outros irmãos, o pintor Macedo e o advogado judeu Jorge da Silveira, sofreram a pena do fogo naquele mesmo auto de fé, por ambos pertencerem à Maçonaria.
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(6) Coustos veio a publicar um relatório autobiográfico sobre a sua prisão e torturas em Lisboa.

O antigo Palácio da Inquisição, ou Palácio dos Estaus, era um grande edifício público situado no topo norte da Praça do Rossio de Lisboa. O Palácio foi mandado construir em 1449 pelo regente D. Pedro, como paço para albergar visitantes ilustres. Foi depois a sede da Inquisição, sendo então oficialmente designado por Casa de Despacho da Santa Inquisição. O Palácio dos Estaus ardeu em 1836, tendo no seu lugar sido construído o Teatro D. Maria II, inaugurado em 1846.

Fluxos e refluxos na liberdade da Maçonaria em Portugal
Depois da morte de D. João V, em 1750, sucedeu-lhe no trono o seu filho D. José I. A mãe deste, D. Mariana de Áustria, recomendou-lhe, então, para Primeiro Ministro o então embaixador português na corte de Viena – D. Sebastião José de Carvalho e Mello. Sebastião José, anteriormente à sua estada em Viena, fora iniciado numa loja de Londres (7) pelo Grão-Mestre de Inglaterra, o príncipe Frederick Lewis, de Gales.
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(7) Segundo outras fontes, a sua iniciação não terá acontecido em Londres e, sim, em Viena, em 1745.

Estando em Viena, D. Sebastião José assistira repetidas vezes às reuniões da loja ‘Os Três Cânones’ (8). Como chefe do Governo desenvolveu uma acção extraordinária. Publicou um édito de tolerância, dotou o país de uma constituição liberal baseada na inglesa, criou indústrias novas e um extenso sistema de canalizações, edificou portos marítimos de vulto, aboliu a Inquisição, a tortura e os privilégios de classe, e converteu Portugal, que se encontrava num estado de desordem e miséria decadente, num país bastante próspero. O Rei, reconhecido, outorgou-lhe o título de marquês de Pombal, cujo nome ainda ressoa honrosamente na história de Portugal.
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(8) Loja fundada em 1741 (outras fontes referem 1739), pelo bispo de Breslau, e à qual pertencia o imperador Francisco I e muitas outras figuras ilustres da época. A Loja viu suspensa a sua actividade a 7 de Março de 1743, quando a imperatriz Maria Teresa, mulher de Francisco I mas uma implacável inimiga da Maçonaria, mandou invadir e encerrar a loja, e deter todos os presentes. Os detidos recuperaram a liberdade a pedido do imperador consorte, oferecendo-se este como fiador do comportamento dos maçons e declarando-se disposto a rebater quanto se dissesse contra eles. Posteriormente, a Loja veio a reassumir os trabalhos.

É manifesto que Pombal favoreceu a renovação da Maçonaria em Portugal. Na metrópole e nas colónias fundaram-se lojas que primeiramente se empenharam em formar grandes bibliotecas públicas e estabelecer importantes instituições de beneficência. Quando o terramoto do 1º de Novembro de 1755, seguido por um maremoto, destruiu dois terços de Lisboa, matando 30.000 pessoas, os maçons portugueses granjearam a gratidão da nação inteira pelo extraordinário auxílio que prestaram aos afectados.

A morte de D. José, contudo, veio sentenciar a obra de Pombal. A rainha D. Maria I, filha do monarca, apesar da magnitude das reformas pombalinas, entregou-se aos seus inimigos figadais, os aristocratas e os clérigos, e em primeira linha aos jesuítas, que haviam sido expulsos do país em 1759. No culminar de um grotesco processo, Pombal foi condenado à morte mas logo depois indultado, amnistiado e, na idade de 78 anos, forçado a abandonar Lisboa.

De quanto acirrado ódio lhe votavam os padres, se pode depreender do sermão que, sobre a notícia da sua morte, proferiu o barnabita P. Alexander, da corte de Viena: ‘O bem conhecido ladrão de igrejas, o Senhor Pombal, morreu por fim. E depois de ter recebido neste mundo o merecido castigo, por ordem do Céu poderá reunir-se agora aos seus nefandos irmãos Lutero, Calvino e demais filhos do diabo, para fartar o seu insaciável estômago na enorme caldeira do inferno’. Estas palavras levaram o imperador José II de Áustria a formular este comentário: ‘Um homem verdadeiramente feliz, este Pombal, porquanto os seus inimigos mortais lhe desejam post mortem companhia tão excelente!’.

D. Maria reintroduziu a lei do seu avô contra os ‘Pedreiros-Livres’, iniciando um novo triste período para a Maçonaria portuguesa. Os homens mais eminentes do país tiveram de fugir para livrar-se à Inquisição” (9) …
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9 Eugen Lennhoff, Die Freimaurer, Phaidon-Verlag, Wien, 1932; tradução inglesa, The Freemasons, Methuen & Co, London, 1934

Isabel Nunes Governo
Vice-Presidente do CLUC

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