Substância

“A existência da matéria, então, é um facto; a existência de movimento é outro facto, e a auto-existência ou eternidade e indestrutibilidade deles constitui um terceiro facto (…). O Movimento É Eterno porque o Espírito é eterno”.
Cartas dos Mahatmas para A. P. Sinnett

“A concepção de matéria e espírito como total e eternamente diferentes jamais poderia haver entrado na minha cabeça (…) porque uma das doutrinas elementares e fundamentais do Ocultismo diz que os dois são um, e são diferentes apenas nas suas manifestações, e só nas percepções limitadas do mundo dos sentidos. (…) as nossas doutrinas mostram apenas um princípio na Natureza – espírito-matéria ou matéria-espírito, sendo o terceiro o Absoluto último ou a quintessência dos dois – se posso ter a permissão de usar um termo erróneo neste caso – perdendo-se além da vista e das percepções espirituais até mesmo dos ‘Deuses’ ou Espíritos Planetários”.
Idem

“Uma substância nunca existe sem uma qualidade, e é somente pelo acto de percepção que esta substância que serve de base aos corpos, e que é capaz de qualidade, é descoberta como matéria”.
Orígenes, Antenicene Fathers, Vol. IV – Fathers of the Third Century, pág. 379

Remissão
Nos nºs 15 e 16 desta revista Biosofia, na secção “Entre o Céu e a Terra”, publicámos dois artigos, acerca da Matéria, em que escrevemos muito do que caberia agora exprimir. Naturalmente, não vamos repetir grande parte do que então afirmámos; no entanto, por considerarmos importante o que se escreveu, recomendamos vivamente a leitura desses textos (1). Recomendamos igualmente os artigos Hilozoísmo e Maya desta mesma série “Esoterismo de A a Z” (2).

Tudo tem Substância
O Ocultismo afirma que tudo quanto existe no Cosmos é substantivo, ou seja, tem substância. Esta afirmação, axial em todo o Sistema Esotérico, está repleta de implicações da maior importância. Uma delas, é que essa substancialidade é uma base e garantia de cientificidade. Porque tudo tem substância, tudo pode ser objecto de ciência (ciência integral, holística), isto é, de conhecimento seguro e comprovável, ainda que não exclusivamente (nem sequer principalmente) com os métodos, os instrumentos e os axiomas das ciências físicas e ditas experimentais do presente. Por exemplo, as almas têm substância. Não são imateriais – excepto no sentido em que não têm matéria física –, sem o que seriam um nada. Por conseguinte, é possível conhecer e estudar a sua fisiologia, os seus movimentos, as suas construções, a sua saúde e os seus padecimentos, os seus progressos e as suas degradações, os caminhos que percorre, os ciclos da sua existência. E a especulação ou a fantasia por que alguns tenham (tenhamos) enveredado ou caído erroneamente neste ou naquele aspecto, bem como o facto de por vezes se terem entendido mal os Cientistas Perfeitos da Espiritualidade – os Mestres de Sabedoria e Compaixão – não provam mais do que os erros, fantasias e especulações equivocadas de respeitáveis cientistas, investigadores e estudiosos da Física, da Química, da Biologia, ou de qualquer outra área científica.

A Natureza tem horror ao Vácuo
Outra implicação incontornável é que não existe no Universo tal coisa como o vazio ou o vácuo – que mais não pode ser do que um nome para aquilo que, embora existindo, se desconhece. É um velho axioma oculto: “A Natureza tem horror ao vácuo”. Tudo o que é, tem substância; o que se move e actua, tem substância; aquilo em que se move e actua, tem substância. Newton estava certo quando afirmava: “Ele [Deus] é omnipresente não apenas virtualmente mas também substancialmente; porquanto a acção requer substância. Nele todas as coisas estão contidas e se movem…” (3), desde, claro, que despersonalizemos toda a noção de Deus e o identifiquemos mais propriamente com o Espaço ou o Pai Aether ou, então, com a noção de Spinoza “Um ser absolutamente infinito, isto é, uma substância constituída por uma infinidade de atributos, cada um dos quais exprimindo uma essência eterna e infinita” (4). E, naturalmente, estamos aqui fora dos enredos limitativos da ciência contemporânea. À observação “mas esses [os que subscrevemos] são conceitos ultrapassados do século XVIII”, responderemos cortesmente: não tem nada a ver com as vossas evoluções terminológicas, que não são o centro, nem o alfa, nem o ómega do mundo e do conhecimento, mas apenas uma via, conquanto digna e respeitável. O ponto em discussão está para além disso e unicamente pode ser entendido numa perspectiva global e intuitiva.

Ser, Consciência, Substância
A omnipresença de Substância, afirmada pelo Ocultismo, é ao fim e ao cabo uma questão ontológica, de Ser. Não há vazio de Ser – ou, como afirmava Parménides, “O Ser é, e não pode deixar de Ser”. Na verdade, o Ser é, sempre, Vida (Imanifestada ou Manifestada), Substância (Imanifestada ou Manifestada) e Consciência (Imanifestada ou Manifestada) – a grande Tri-Unidade.

O Espírito Puro, como a Consciência Absoluta, é uma mera abstracção, sendo em si mesmo inefável e não susceptível de ser vivenciada para/ por nós, seres individuais (embora partícipes do Uno), logo relativos na sua existência; só enquanto substancializado, se nos pode oferecer ao entendimento. Sendo potencialmente tudo, é actualmente coisa nenhuma em particular, excepto se com uma base substancial, que lhe sirva de veículo de manifestação. De resto, o acto (relativo-relacional) de entendimento não é do Espírito ou da Consciência Absoluta (5 )mas, sim, das Almas, que dão forma à Substância, e chegam a permitir o desenvolvimento da inteligência individualizada e auto-consciente.

Níveis de Substancialidade
A Substância Imanifestada – númeno (6) e raiz de toda a Matéria – é a do pré-cosmos, do caos primordial – e a do que está para além de todos os Cosmos relativos, existentes no espaço e no tempo, de todos os Universos organizados. É a verdadeira Virgem Mãe (o protótipo de que são expressão simbólica todas as mães-virgens de Deuses Solares e Salvadores do Mundo, incluindo Maria relativamente a Jesus (7), a raiz da Substância ainda por fecundar, por activar, diferenciar e organizar. Os Vedantinos designam-na por Mûlaprakriti “[que] é tão eterna, infinita e imutável como o Absoluto, do qual é apenas um aspecto”, “[que] não é matéria, mas ‘substância’ que dá origem à matéria (…) A ‘Matéria Raiz’ é, portanto, a origem dos planos objectivos da Natureza” (8).

Esses planos objectivos da Natureza, de que falaremos mais adiante, são o desdobramento de Pradhana, a Matéria Cósmica Primordial. Prakriti (9) ou Pradhana, contraparte de Brahman (o Uno Manifestado), no momentum do Primeiro Logos (o Logos Imanifestado), é o ponto laya do Cosmos, ou seja, o ponto-momento neutro, de onde tudo se desdobrará, ao quebrar-se o equilíbrio dos três Gunas (10) ou atributos da Matéria: Sattva (harmonia), Rajas (actividade) e Tamas (inércia). Svabhâvat (11) é o Ser-Substância no ponto da Existência Universal que se designa por Segundo Logos (o Logos Semi-Manifestado), o Espírito/ Matéria, a Âdi-Buddhi (12), o Alaya (13), o Nous (14) Cósmico. No momento do Terceiro Logos, estabelece-se mais definidamente a Dualidade, Mahat (Ideação Cósmica) – Prakriti. Prakriti, a natureza feminina, é o pólo negativo, receptivo da vida una universal, na sua manifestação dual; etimologicamente, é “o que tem o principal papel na criação”, visto que Pra significa principal e Kriti “criação” (15).

Os “planos objectivos da Natureza”, ou seja, os grandes desdobramentos, as grandes diferenciações da Substância-Raiz, são sete, e apresentamos em seguida algumas das designações possíveis, começando do Mundo mais subtil, mais espiritualizado, para os Planos de sucessiva complexidade, peso, ou densidade:

Brahman / Pradhana / Âdi-Prakriti
Alaya / Mahâ-Buddhi / Anima Mundi / Svabhâvat
Mental Cósmico / Mahat (16) / Purusha-Prakriti manifestados e diferenciados
Kâma (17) / Desejo Cósmico / Fohat (18)
Jîva Cósmico (19) / Vitalidade / Fonte Elemental (20)
Plano Astral / Luz Astral / Plano Modelar (21)
Plano Físico / Plano Terminal de todos os anteriores

Esta tabela justifica alguns comentários. A enumeração que aqui fazemos, por exemplo, quando nos referimos a Fohat ou à Vitalidade, poderá estranhar a alguns. Não devemos, contudo, ter dos Planos a ideia de blocos formais estanques e/ ou demasiado semelhantes ao Plano ou Mundo Físico mas, sim, de modos de manifestação da Vida, de animação da matéria. Subscrevemos inteiramente estas palavras: “Matéria, no sentido científico, é a percepção resultante dos nossos sentidos físicos sobre o plano físico de Prakriti. Para tentar conceber a matéria num sentido geral, a mente deve ser liberta das noções familiares de extensão espacial física, de resistência, massa, carga, etc. – propriedades peculiares ao plano físico de consciência mas que nós estamos prontos a transferir inconscientemente para as nossas noções de outros tipos de matéria” (22.)

Pode afirmar-se que há uma correspondência entre o primeiro Plano – o mais elevado – e o Primeiro Logos, entre o segundo Plano e o Segundo Logos, entre o terceiro Plano e o Terceiro Logos. O Terceiro Logos é o Logos Manifestado, do Cosmos na sua diversidade, ainda que conceptual ou arquetípica – Mental, conforme o princípio Hermético –, na sua organização complexa, no começo da definição de formas objectivas e mais concretas. A diferenciação da Substância em distintos Planos torna-se mais nítida e acentuada. Entretanto, no Primeiro Logos estão já “contidos”, ainda que fundamentalmente apenas latentes, o Segundo e o Terceiro Logoï, tal como, obviamente, o Terceiro Logos (a fase existencial da Vida que caracterizamos como o Terceiro Logos) está contido no Segundo, e como no Terceiro estão ainda presentes a potência do Primeiro e do Segundo Logoï.

Cada Plano corresponde também a uma particular relação entre o pólo Espiritual e o pólo Material (este servindo de veículo), ambos presentes, embora em diferentes proporções relativas de potência, e de cuja inter-relação resulta um particular tipo de qualidade. O mesmo acontece, à escala microcósmica, em cada um dos níveis ou veículos do Ser Humano. Notemos, entretanto, que esses dois pólos são os sinais contrários mas complementares de uma mesma coisa – A Vida Una, o Ser Uno (23). Reproduzimos o que escrevemos algures: “O positivo e o negativo, o verso e o anverso, o superior e o inferior estão presentes em todos os seres e em todas as coisas. É uma inerência dos universos e dos seres manifestados, e de tudo quanto neles existe. Não há Espírito sem Matéria, nem Matéria sem Espírito; não há positivo sem negativo, nem activo sem receptivo, nem Bem sem Mal que o contraste, ou vice-versa. O superior deve reflectir-se no inferior, o Espírito na Matéria. O objectivo da manifestação, que implica dualidade – como já dissemos –, é a assunção do superior pelo inferior. Tal implica uma transmutação, uma sublimação do inferior, em resposta ao seu correspondente polar superior.

O pensamento comum tende a separar totalmente os pólos opostos, como Espírito-Matéria, Amor-Ódio, Frio-Quente. No entanto, se virmos bem, há uma linha de continuidade desde um extremo polar até ao outro. Onde marcar a linha de separação entre quente e frio, entre grande e pequeno, entre velho e novo?” 24.

Manifestação e Qualidades
A substância manifestada desenvolve qualidades, permite a afirmação de consciências individuais. É curioso registar a proximidade, que dificilmente deixará de ter significado, entre duas palavras do sânscrito, língua sagrada: Svabhâvat e Svabhâva. Já nos referimos à primeira, mais acima; quanto a Svabhâva, é o campo energético de cada ser, a sua natureza energética peculiar, a sua qualidade individual distintiva. A oposição ou contraste Espírito-Matéria (que em Svabhâvat é ainda meramente latente), conduz à afirmação da consciência-qualidade individual. A Consciência Absoluta, que é Inconsciência, sem qualidades ou atributos, torna-se Consciência de Relação. E isto implica dualidade (e multiplicidade), através da função dialéctica do contraste entre os dois pólos do Elemento Único – Espírito / Matéria.

Uma Síntese
O que temos vindo a tentar expor, é, em grande medida, uma tentativa de desdobrar e aplicar a síntese magistral de Helena Blavatsky em A Doutrina Secreta:

“Parabrahman, a Realidade Una, o Absoluto, é o campo da Consciência Absoluta, vale dizer, daquela Essência que está fora de toda a relação com a existência condicionada, e cuja existência consciente é um símbolo condicionado. Mas, logo que saímos, em pensamento, desta Negação Absoluta (para nós), surge o dualismo no contraste entre o Espírito (ou Consciência) e a Matéria, entre o sujeito e o objecto.

O Espírito (ou Consciência) e a Matéria devem ser, no entanto, considerados não como realidades independentes, mas como duas facetas ou aspectos do Absoluto (Parabrahman), que constituem a base do ser condicionado, seja subjectivo ou objectivo.

Se consideramos essa tríade metafísica como a raiz de que procede toda a manifestação, o Grande Sopro assume o carácter de Ideação pré-cósmica. É a fons et origo da força e de toda a consciência individual; e de onde promana a inteligência que preside o vasto plano da Evolução Cósmica. Por outra parte, a Substância-Raiz pré-cósmica (Mûlaprakriti) é o aspecto do Absoluto que serve de substratum a todos os planos objectivos da natureza.

Assim como a Ideação Pré-Cósmica é a raiz de toda a consciência individual, assim também a Substância Pré-Cósmica é o substratum da matéria nos seus diversos graus de manifestação.

Daí resulta que o contraste desses dois aspectos do Absoluto é essencial para a existência do Universo manifestado. Isolada da Substância cósmica, a Ideação Cósmica não poderia manifestar-se como consciência individual; pois só por meio de um veículo (upâdhi) de matéria é que a consciência emerge como ‘Eu sou Eu’, sendo necessária uma base física para concentrar um Raio da Mente Universal a certo grau de complexidade. E por sua vez, separada da Ideação Cósmica, a Substância Cósmica não passaria de uma abstracção vazia, e nenhuma manifestação de consciência poderia surgir” (25).

Algures, afirma ainda a mesma autora: “Não pode haver manifestação de Consciência, semi-consciência ou, até, ‘propósito inconsciente’, excepto através do veículo da matéria; quer isto dizer, no nosso plano (…) que é apenas através de alguma agregação ou estrutura molecular que o Espírito emerge na corrente da subjectividade individual ou subconsciente”.

A Eternidade da Matéria
Ao arrepio da cultura instituída, nós sustentamos que existe uma Sabedoria Arcaica, Universal e Intemporal, um Conhecimento Sagrado e Integral, que é muito mais vasto e profundo do que as celebradas superioridades do Monoteísmo (que não Monismo…) das teologias Cristã e do Islamismo, ou da Ciência moderna.

Proliferam os livros e os textos em que, com uma complacente tolerância, se faz uma pequena digressão pelas (assim as consideram) pueris tentativas explicativas do Universo das Cosmogonias e Mitologias Antigas, do tempo em que “ainda não sabíamos que…” (dizem, escrevem), para depois se entrar no único conhecimento que consideram sério, o da Ciência oficial; ou em que se resumem, com um sorriso de ironia mais ou menos carinhosa, as formulações religiosas da Antiguidade, quando “ainda não se tinha chegado à perfeitíssima ideia” (assim o dizem) de um Deus absoluto-pessoal-omnipotente-e criador de tudo (extraordinária soma de contradições, afirmamos nós), que, por exemplo, teria feito surgir algures no tempo os seres e a matéria, nada havendo anteriormente.

Sustentamos que é exactamente ao contrário. Por exemplo, o Ensinamento imemorial, contido em praticamente todas as Cosmogonias, acerca da Obscuridade ou das Trevas Primordiais, do Oceano de Leite, do Abismo ou das Águas Primordiais preexistentes a qualquer acção criadora e demiúrgica – simbolizando a Matéria Virgem, na sua eternidade, antes de qualquer agitação ou organização – é muito mais lógico e fundamentado do que a ideia de uma criação a partir … do nada. Do nada, só pode vir o nada – se, por absurdo, o nada fosse possível. Nem o Absoluto poderia criar a matéria ou outra qualquer coisa, sem o que não poderia ser Absoluto (seria necessariamente relativo quando algo adicional, não importa o quê, passasse a existir).

As formas em que se a matéria se organiza são temporais, nascem, corrompem-se, morrem, desagregam-se; mas a substância de que tudo é feito permanece eternamente, como sempre permanece o Espaço matricial de que tudo desponta, onde tudo tem lugar, onde tudo se subsume.

Esta é a grande tradição de todas as Idades, de Oriente a Ocidente, reafirmada por H. P. Blavatsky e pelos seus Instrutores, no fim do século XIX. Ilustraremos com alguns exemplos, de entre os inúmeros que são possíveis:

No Rig Veda, o mais antigo escrito religioso no mundo externo, lê-se, por exemplo: “O Não-Ser e o Ser estão no céu mais elevado, no nascedouro de daksha, no seio de Aditi” (Mandala I, Sukta 166). Aditi é o espaço infinito. Nos Vedas, a deusa-Mãe, corresponde a Mûlaprakriti, isto é, à raiz da Substância.

Das Leis de Manu, pode citar-se a seguinte passagem: “… Este Universo era feito de escuridão, sem nada que pudesse ser discernido, sem nenhumas marcas distintivas, impossível de conhecer através de raciocínio ou entendimento; ele parecia estar inteiramente adormecido. Então o Senhor que é existe por Si mesmo, imanifestado em si mesmo, fez com que este universo se tenha vindo a manifestar”.

Nos Puranas, existem vários excertos semelhantes a este: “O primeiro princípio [Pradhana)… é subtil e uniforme e compreende o que é e o que não é; não tem limites e não pode sofrer decadência (…) é a mãe do mundo; não tem começo, e todas as coisas criadas acabam nele” (Vishnu Purana, I).

A Kapila, o grande Rishi e patrono do sistema Samquia, é atribuída a asserção de que Espírito e Matéria são co-eternos; e que maior coerência poderia haver com afirmações contidas nos Aforismos Samquia, como: “Purusha [Espírito] e Prakriti [Natureza] antecedem todos os efeitos” ou “Nenhuma coisa é feita do nada” (I, 75 e I, 78)?

Na Bhagavad Gîtâ, algumas passagens são igualmente inequívocas: “Tanto a Matéria como o Espírito são sem princípio e sem fim” (13:20); “Este Universo de matéria é a minha matriz” (14: 3).

Para a Vedanta advaitista, Maya, a causa da manifestação material do mundo, está sempre latente em Brahman, o Todo.

Na Espiritualidade chinesa, o Tao Te Ching, na sua linguagem tão subtil e sintética, proclama: “O Tao (…) sem nome, representa a origem do universo; com um nome, torna-se a Mãe de todos os seres”; “Não-Ser e Ser saindo de um fundo único só se diferenciam pelos seus nomes. Este fundo único chama-se Obscuridade”.

No Enuma Elish, mais conhecido por As Sete Tábuas da Criação, depositárias dos caracteres fundamentais da Cosmogonia da Suméria e da Babilónia, podemos ler:

“Quando no alto não se nomeava o céu,
e em baixo a terra não tinha nome,
do oceano primordial (Apsu), seu pai;
e da tumultuosa Tiamat, a mãe de todos,
as águas se fundiam numa,
e os campos não estavam unidos uns com os outros,
nem se viam os canaviais;
quando nenhum dos deuses tinha aparecido,
nem eram chamados pelo seu nome,
nem tinham qualquer destino fixo,
foram criados os deuses no seio das águas”.

Na Bíblia, apesar das traduções e interpretações menos aprofundadas, encontramos ainda traços da mesma Cosmogonia da Babilónia, da Assíria e da Caldeia, por sua vez proveniente da Âryavârtta (26), e, em última instância, da Ciência Sagrada: “O mundo estava informe e vazio; as trevas cobriam o abismo e o Espírito Santo pairava sobre as águas” (Genesis, 1:2). Também em Sabedoria, 11:1, livro bíblico impregnado de conceitos Helénicos, podemos ler: “a vossa mão todo-poderosa, que formou o mundo de matéria informe…”.

Na verdade, a noção de uma Substância eterna encontra-se em quase toda a antiga Filosofia Grega. É assim entre os Jónicos (Tales de Mileto, Anaximandro, Anaxímenes, Heraclito…), como entre a Escola Eleática (Xenófanes, que afirmava: “Esta única divindade identifica-se com o universo, é um deus-tudo e tem o atributo da eternidade: não nasce e não morre e é sempre a mesma: Se nascesse, significaria que antes não era…”, Parménides…), como em Empédocles ou Anaxágoras.

Estava evidentemente presente em Platão (em especial no Timeu e Crítias, cfr., por exemplo, 30 e 50), em Aristóteles (para quem o mundo é antes de tudo eterno no que se refere à Matéria), nos Estóicos (segundo os quais Espírito e Matéria são duas faces da mesma coisa), em Plotino ou em Proclo.

Do mesmo modo se encontra no judeu platonizado Fílon de Alexandria, como no gnóstico Valentim (veja-se o chamado Diagrama de Valentim). De resto, muitos dos Gnósticos se referiam à Mãe Primitiva (Mãe de Tudo, o Útero, Silêncio…) e aludiam à divindade suprema como Pai-Mãe ou a Mãe-Pai

Dos textos Herméticos, reproduzimos este texto: “Ora, existe uma obscuridade sem fim no abismo e um sopro inteligente e subtil, tudo isto existente no Caos pela potência divina. Então, surge uma luz santa e, destacando-se da substância húmida, os elementos condensam-se e os deuses separam os seres da natureza germinal” (Corpus Hermeticum, I, 6).

Na Antiguidade Egípcia, Nout era a Noite ou Caos primordial, a Mãe dos Deuses, como Nix, na cosmogonia Órfica.

Enfim, bem a Ocidente, no continente americano, um texto da Cosmologia Maia, o Popol Vuh, contém estas palavras: “No princípio, tudo estava em suspenso, em calma e em silêncio (…) somente o mar estava ali, quieto na obscuridade. Apenas os Criadores e Formadores, Tepew e Q’uk’umatz estavam sobre as águas…”.

Tudo isto significa que a concepção Ocultista e da Sabedoria Arcaica é materialista? Não. Realmente não é materialista nem exactamente espiritualista, visto que Matéria é Espírito cristalizado, e Espírito é Matéria sublimada.

Matéria, Espaço, Logos
As definições de Matéria resultantes dos trabalhos da Ciência moderna coligam-na com aquilo que “ocupa espaço” (27). De algum modo, porventura insuspeito por quase todos, tal referência suscita uma analogia com os postulados ocultistas. Segundo estes, o Ser-Vida é integrado por miríades e miríades de vidas; cada uma delas é um ponto no espaço, ou melhor, do espaço, é um lugar (“locus”), é um Logos que formaliza e fixa matéria. O espaço e toda a substância é um continuum de unidades de vida (que se sucedem sem hiatos mas que, ao mesmo tempo, por serem unidades individuais, revelam a infinita divisibilidade da Matéria e dos seus átomos, sustentada pela Sabedoria Esotérica) – os seus constituintes e a sua realidade vivente (perdoe-se-nos o quase pleonasmo, que visa acentuar que o Espaço é Vida, é Ser, e que toda a substância-matéria é viva e inteligente).

Matéria e Ilusão
A pergunta não pode deixar de ser feita: a matéria é ilusória? É (na verdade, “é o agregado ilusório de véus que rodeiam a essência fundamental do Universo 22”). No entanto, é “real para todos os fins práticos” (28), e para todas as entidades que estão no mesmo plano de irrealidade ou ilusão – visto que também esta tem um pólo subjectivo, e um pólo objectivo, que parecem reais quando ambos estão em coadunação.

O facto de toda a existência condicionada, relativa e finita ser, em última instância, ilusória, não conflitua com a afirmação de que tudo é substante. Tal, de resto, é ilustrado pela significativa asserção de Helena Blavatsky relativamente a Maya: é “ilusão. O poder cósmico que torna possíveis a existência fenomenal e as percepções da mesma” (29). Repare-se como transparece nesta definição a dupla natureza – subjectiva e objectiva – de Maya. Nem a objectividade pode jamais ser separada (ou ter eficiência “para todos os fins práticos”) sem sujeito(s) de percepção.

Abordámos toda esta questão no já mencionado artigo Maya, pelo que aqui deixamos meramente uma pequena síntese, resistindo a alongarmo-nos mais.

José Manuel Anacleto
Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

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Notas:

1 Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 2002, 2003.
2 Biosofia, nºs 25 e 30, Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 2005, 2006.
3 Philosophical Writings of Newton (The Principia) (Cambridge University Press, Nova Iorque, 2004); pág. 91.
4 Ética Demonstrada à Maneira dos Geómetras, Parte I, Definição VI (Atlântida, Coimbra, 1960); pág. 3.
5 “O Tao de que se pode falar, não é o Tao Eterno; o nome que se lhe quer dar, não é o seu nome adequado” (Tao Te Ching); “Mais alto do que o intelecto é o Âtman [Espírito]” (Katha-Upanishad); “[O Espírito é] inapreensível, impossível de conceber, nunca nascido, para além do raciocínio, para além do pensamento” (Maitri-Upanishad).
6 Embora por vezes se identifique substância e matéria, na verdade a substância é o númeno da matéria (como o Apeirón de Anaximandro, que consideramos a mais perfeita formulação da busca dos antigos Filósofos Gregos pela Arché, o princípio presente em todos os momentos da existência de todas as coisas). A substância é o que está “debaixo” (ou “por trás”) das aparências ou dos fenómenos, é aquilo que subsiste, aquilo que leva ou tem em si o seu ser.
7 Para maiores desenvolvimentos sobre este assunto, v. José Manuel Anacleto, Alexandria e o Conhecimento Sagrado (Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 2008); págs. 474-82.
8 Salomon Lancri, Estudos Seletos em “A Doutrina Secreta” de H. P. Blavatsky (Editora Teosófica, Brasília, 1992); págs. 25 e 26.
9 Prakriti – Matéria, Natureza. Como referência a este passo da manifestação, poderia usar-se o termo composto Âdi-Prakriti. O prefixo Âdi significa “primeiro, primevo, primordial”.
10 Acerca dos Gunas, escrevemos nesta mesma secção um artigo publicado no nº 24 (Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 2005).
11 “Svabhâvat – a matéria e substância do mundo ou, melhor, o que lhes está subjacente – o espírito e a essência da substância. De Svabhâvat procede toda a natureza, e a ele tudo retorna no final dos ciclos”. (Glossário Teosófico, de Helena Blavatsky, Ed. Ground, São Paulo).
12 Âdi-Buddhi – Inteligência ou Sabedoria Primordial, Arquetípica.
13 Alaya – Termo utilizado, em particular, no Budismo Mahâyana. Significa “Alma Universal, Alma Suprema”.
14 Nous – Termo platónico e neoplatónico (muito importante no sistema de Plotino, onde integra a Trindade Uno-Nous-Alma). Traduzido de diversas formas, v.g., Intelecto, Inteligência Intuitiva, Razão Pura, Inteligência Espiritual – sendo talvez esta última a mais adequada.
15 Vettam Mani, Puranic Encyclopaedya, Motilal Banarsidass, Delhi, 1975; pág. 599.
16 Mahat – A Mente Cósmica, i.e., organizadora de um Universo (consideremos a antinomia Caos – Cosmos). A Mente Divina, não no sentido de a Mente de um Deus, mas sim do agregado de todas as Inteligências Espirituais conceptivas-criadoras-organizadoras de um Cosmos. O Mental Superior do Homem (Manas) é um raio ou reflexo de Mahat. Analogamente, o 6º Princípio Humano (ou 2º, contando de cima), Buddhi (Intuição, Alma Espiritual, Inteligência Espiritual) está em coadunação com Alaya, com a Alma Universal, com o Buddhi Cósmico; e Âtman – Espírito – é idêntico com Brahman, conforme, aliás, o ensinamento dos Upanishades.
17 Kâma – Desejo, que é inicialmente o desejo criador, o desejo do Espírito pela Matéria.
18 “Fohat é uma palavra tibetana que designa um dos conceitos mais importantes da Cosmogénese Esotérica. Tem o seu correlato no Eros da Mitologia Esotérica, no Apâm-Napât (‘Filho das Águas’) dos Vedas e do Ahura-Mazda, no Daiviprakriti das Escolas Filosóficas Hindus, particularmente da Samquia, e em Toom e Khepera do antigo Egipto (…). Existindo essa dualidade [Purusha/ Mahat – Prakriti], é necessário, de facto, o tal ‘algo’ que une a Ideação à Substância, o Espírito à Matéria, o Sujeito ao Objecto, da mesma forma como é necessário o dinamismo que permita a ligação entre a Ideia de um escultor e a pedra onde a obra se vai executar – sendo por via desse dinamismo que a substância é trabalhada e moldada” (excerto do nosso artigo, desta série, dedicado justamente a “Fohat”, e que foi publicado no nº 23 da Biosofia, Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 2005). Como Eros, Fohat é o desejo que faz ligar o pólo Espiritual e Ideativo à natureza mais objectiva – e neste sentido, como ponte que constitui, ocupa o lugar 4.
19 Jîva – Vida, Vitalidade Universal.
20 Fonte Elemental – O reservatório e o conjunto das Vidas que são a essência (ou realidade) dos átomos (e suas partículas) da matéria nos planos inferiores.
21 Plano Modelar – O Plano onde estão os padrões, os moldes, as matrizes do que existe no Mundo Físico, que o decalca ou duplica.
22 G. de Purucker, Geofffrey Barborka, Grace F. Knoche, Henry T. Edge e outros, Encyclopedic Theosophical Glossary, Theosophical University Press Online Edition.
23 “A Vida Una dos Budistas, ou o Parabrahman dos Vedantinos, é omnipresente e eterna. Espírito e Matéria não são mais do que as suas manifestações. Como força energizante – Purusha, de Kapila – é Espírito; como matéria cósmica indiferenciada, é Mûlaprakriti. Como matéria cósmica diferenciada, a base da evolução fenomenal, é Prakriti”. Artigo de Dâmodar K. Mâvalankar, citado nas págs. 311 e ss do livro Dâmodar and the Pioneers of the Theosophical Movement, de Seven Eek (The Theosophical Publishing House, Adyar, 1978).
24 Alexandria e o Conhecimento Sagrado, op. cit., págs. 421-2.
25 Volume I, págs. 82-3 (Ed. Pensamento, São Paulo, 1973).
26 Âryavartta – A Índia antiga, a região compreendida entre as cadeias de montanhas dos Himalaias e Vindia.
27 Facilmente se encontram tais definições. Entre muitos exemplos, citamos o livro Nanotechnology 101, de John Mongillo (Greenwood Publishing Group, Santa Barbara, 2007). Pela referência mais desenvolvida, apontamos The Metaphysics of Science, de Craig Dilworth (Boston Studies in The Philosophy of Science, Springer, AA Dordrecht, 2006); págs. 56 e ss.
28 Axioma característico do sistema Vedanta advaitista, que sustenta que o mundo é ilusório mas faz aquela importante ressalva.
29 Glossário Teosófico, op. cit.

Esoterismo de A a Z – artigos já publicados: Alma (nº13); Buddhi (nº14); Cristo (nºs 15, 16 e 17); Demiurgo (nº18); Esoterismo (nº 19); Fohat (nº23): Gunas (nº 24); Hilozoísmo (nº 25); Inteligência (nº 26); Jnâna (nº 27); Karma (nº 28); Lemúria (nº 29); Maya (nº 30); Nirvana (nº 31); Ordem (nº 32); Parabrahman (nº 33); Queda (nº 34); Reencarnação (nº 35); Substância (nº 36).

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