Purûravas e a 3ª Raça

Uma remotíssima lenda hindu conta que Purûravas foi o primeiro homem a receber o fogo dos deuses. Esta alegoria tem alguns pontos comuns com as lendas gregas de Prometeu ou de Phoroneus 1 – todas elas aludindo à Humanidade da 3ª Raça, isto é, quando os homens adquiriram a razão e o entendimento (o fogo de Manas) que verdadeiramente os fez assumir a condição de deuses latentes, deixando em definitivo para trás a animalidade puramente telúrica.

Nas antigas escrituras, dos Vedas aos Purânas, a história de Purûravas é contada com diferentes matizes mas concordantes no essencial. Com efeito, o Rig-Veda consagrou-lhe um hino, relevante mas obscuro e nebuloso, que foi depois parcialmente reproduzido no Satapatha Brâhmana, e que toda a poesia épica2 e purânica replicou profusamente, com algumas variantes, como aqui se exemplifica.

Num trecho do Sataphata Brâhmana podemos ler que Manu, desejoso de obter descendência, celebrou um sacrifício com esse mesmo fim, dele tendo-se originado Idâ (ou Ilâ). Manu amou-a e viveu com ela, e dos seus amores brotou a raça de Manu – a Humanidade.

Na mesma lenda nos Purânas, Idâ é descrita como sendo a filha do Manu Vaivaswata, esposa de Budha (Mercúrio), e mãe de Purûravas. Antes de ter filhos, o Manu Vaivaswata incumbira a um oficiante a celebração de um sacrifício a Mitra e a Varuna, com o fito de ter um filho varão. No entanto, o oficiante não o fez com o devido preceito e o resultado foi o nascimento de uma filha, Idâ. Graças, porém, à concessão destes dois deuses, o seu sexo foi mudado e ela tornou-se num homem, Su-dyumna. Seguidamente, e por uma maldição de Shiva, Su-dyumna volveu-se de novo em mulher, e nessa condição foi tomada como esposa por Budha-Mercúrio. Deste enlace nasceu Purûravas, e Idâ, desta feita por intervenção de Vishnu, uma vez mais se tornou Su-dyumna, sendo pai de três filhos.

Igualmente um texto do Mahâbhârata aborda o mesmo acontecimento, acrescentando algumas importantes singularidades: “… então, o sábio Purûravas, nascido de Ilâ – a qual, segundo a tradição, era ao mesmo seu pai e sua mãe – reinou sobre as trinta ilhas do Oceano, rodeado de todos os seres não-humanos (amânusaih). Pururâvas, ele próprio sendo um homem (manusah) de grande renome, deixou-se inebriar do seu poderio, entrou em contendas com os Brahmanes e, malgrado os seus protestos, apropriou-se das suas jóias. Vendo isto, Sanat Kumâra desceu do céu de Brahma e repreendeu-o mas ele não o escutou. Então, o monarca, transviado pelo orgulho, pereceu sob a maldição dos Rishis.3” E, noutro registo, “(…) e este virâj [o protótipo de todas as criaturas masculinas na Terra]4, em companhia de Urvasî, fez, por meio de ritos sagrados, descer os fogos, distribuídos em três, que se guardavam no mundo dos Gandharvas.”5

 

Esta significativa sequência do tema, no relato do Mahâbhârata, requer algumas explicações intercalares e adicionais:

 

A história de Purûravas e Urvasî

Urvasî era uma apsara (ninfa celeste), que um dia desceu do Svarga 6 até ao mundo dos mortais. Na Terra, ela e Purûravas enamoraram-se, tendo ela concordado em viver com ele segundo certas condições. “Eu tenho dois cordeiros, a quem amo como a dois filhos [na versão do Satapatha Brâhmana fala-se numa ovelha e dois cordeiros]. Eles terão de ficar junto a mim, ao meu lado quando me deito, e nunca poderão dali sair. Igualmente, em nenhuma circunstância eu te poderei ver sem as tuas vestes. E ainda, somente gritha [manteiga clarificada] deverá ser o meu alimento.”

Os habitantes do Svarga já ansiavam pelo regresso de Urvasî e, sabendo do triplo pacto feito entre o casal, os Gandharvas decidiram visitá-los pela noite, enquanto dormiam, e roubar-lhes os carneiros. Purûravas encontrava-se despido e, por isso, retraiu-se em perseguir os ladrões, mas o choro e os gritos de Urvasî impeliram-no, por fim, a pegar a sua espada e a preparar-se para os perseguir. Nesse instante, os Gandharvas lançaram um poderoso feixe de luz que iluminou por completo o quarto, e assim a nudez de Purûravas.

 O feitiço quebrou-se, então: Urvasî desapareceu.

Purûravas, louco de dor, procurou-a incansavelmente por toda a parte. Por fim, encontrou-a na planície de Kurukshetra (Campo Sagrado, ou Campo da Lei) a banhar-se juntamente com outras ninfas celestes. Naquele lugar, Urvasî revelou-lhe que esperava um filho seu. Depois disse-lhe que voltasse ali ao cabo de um ano, quando ela lhe entregaria o filho de ambos, ficando então juntos por uma noite…

Purûravas, mais confortado, regressou ao seu reino. No prazo acordado, ele voltou a Kurukshetra e recebeu de Urvasî o seu primeiro filho, Âyus.

 Os encontros de uma noite sucederam-se ano após ano, tendo-lhe ela dado mais cinco filhos 7. Então, ela contou que os Gandharvas tinham decidido conceder a Purûravas a satisfação de um desejo. E ele desejou passar toda a sua vida com Urvasî.

 Face a isto, os Gandharvas vieram até ele e apresentaram-lhe uma taça com fogo, dizendo: “Toma este fogo, Purûravas, e de acordo com os preceitos dos Vedas, divide-o em três fogos. Então, tendo em mente e em constância o teu propósito de viveres com a tua amada, provê as oblações, e seguramente realizarás o teu desejo.” O herói não foi de imediato bem sucedido em seguir estas instruções; contudo, acabou por sê-lo – e “obteve um lugar na esfera dos Gandharvas e não mais foi separado do seu amor”.

No Sataphata Brâhmana o mesmo episódio tem uma versão ligeiramente divergente, e em alguns aspectos, um pouco mais expressiva:

Disse Urvasî: “… amanhã, os Gandharvas conceder-te-ão um desejo – escolhe”. E Pururâvas pediu-lhe que fosse ela a escolher, por ele. Ao que Urvasî o instruiu: “Roga-lhes: “Que eu seja um de vós!”. – Na manhã seguinte, quando o herói lhes fez este pedido, responderam os Gandharvas: “O fogo sagrado, por meio do qual o homem poderá realizar o sacrifício e tornar-se um de nós, não lhe é ainda conhecido”. Então eles o iniciaram, e ele tornou-se um entre os Gandharvas.

 

Interpretação do mito

Purûravas notoriamente representa aqui a fase charneira da separação dos sexos, no percurso evolutivo da Humanidade. Com efeito, segundo rezam as crónicas mais vetustas (herança e tradição da Ciência Esotérica imemorial), até à primeira metade da 3ª Raça, a Humanidade e todos os seres do reino animal que com ela coabitavam o planeta, eram bissexuais. A isso alude a menção a Ila-Ilâ, o ser que era alternadamente macho e fêmea. Dele nasceu Purûravas, o primeiro homem, o primeiro ser unissexuado.

No mito, o fogo que Purûravas recebe dos Gandharvas é o Fogo de Manas, e é – ou deverá ser (por merecimento e esforço próprio do herói) – um fogo triplo: o fogo espiritual e divino Âtma-Buddhi-Manas.

Com efeito, foi precisamente nesta etapa da evolução humana que a centelha bruxuleante de Manas foi ateada, que os verdadeiros Egos humanos, os Kumâras (também designados os Agnishvâttas, os Filhos ou os Dhyânis do Fogo, os Mânasa-Putrâs, os Pitris dos Devas, mas igualmente, por vezes, na mesma acepção, os Gandharvas) se encarnaram, por esse tempo, no homem-animal. 

Consideremos agora a primeira das imposições no pacto de Urvasî com Purûravas – a conservação inalienável junto a ela, enquanto dormia, dos dois carneiros e de uma ovelha.

De facto, é no silêncio da noite e durante o sono que o eu inferior mais se estreita e melhor comunica com o eu superior. O intermediário, necessário e indissociável, desse fluxo é o Kâma-Manas (a mente racional – Manas – unida a Kâma – desejo, emoção volitiva). A ovelha alude ao Linga-sharîra ou corpo vital-astral, igualmente indispensável na permeabilização entre as duas realidades.

Relativamente à segunda premissa, a de que nunca Urvasî visse o seu amado sem roupagem, o mesmo se poderá considerar – já que os três veículos mencionados são como roupagens do eu.

A este respeito, e segundo Max Müller 8, o nome Urvasî significaria aurora. De acordo com esta alegação, o professor Theodor Goldstücker 8 avançou que simbolizando Urvasî a aurora, Purûravas simbolizaria o sol, porquanto: “quando Purûravas é visível, Urvasî se desvanece”. E assim, eventualmente, seria a leitura da imposta condição de que o herói não fosse visto desnudo, “em toda a sua carnalidade e esplendor”, senão Urvasî desapareceria… É uma interpretação possível. Porém, na nossa perspectiva, Urvasî é, fundamentalmente, a alma, a expressão uraniana, evanescente. A ligação de Purûravas a Urvasî significa o vínculo, tecido e urdido laboriosamente e com amor, da personalidade com o eu superior. Pode ser vista como o sûtrâtmâ, o fio ígneo onde se ensartam as pérolas das muitas vidas encarnativas que, todas juntas, consubstanciam os degraus conducentes ao mundo do real – a esfera dos Gandharvas. E pode, paralelamente, ser vista como um símbolo do antahkarana, a ponte construída e projectada pela devota aspiração do “pequeno-eu” (a personalidade) desde este seu mundo ilusório e irreal, e que o ligará e levará para o mundo do verdadeiro Eu.

A terceira das condições era de que o único alimento de Urvasî fosse ghrita. Ora a ghrita representa o alimento mais puro, verdadeira ambrósia dos deuses, que era o que sustentaria aquele amor, e tem naturalmente aqui o significado da necessidade, por parte de Purûravas, de manter pensamentos e desejos puros, que facilitassem e permitissem a comunhão efectiva entre os dois.

Por último, o local onde Purûravas vem a encontrar Urvasî, a planície ou campo de Kurukshetra, é o campo onde são semeadas as boas e as más sementes e onde se colhem os frutos das nossas obras. É o palco da Vida, e é representativo do corpo ou morada do espírito. Segundo se lê no Bhagavad-Gîtâ 9, foi nesse local que se travou a batalha descrita no famoso diálogo entre Krishna e Arjuna 10, e em que se confrontaram Kurus e Pândavas. Os primeiros simbolizam a natureza inferior do homem, com os seus vícios, paixões e más tendências; os segundos representam os princípios mais nobres e espirituais da dupla natureza humana. Purûravas ali estabelece e fortalece o seu vínculo amoroso com Urvasî, a princípio fugaz e intermitentemente; depois, e seguindo fielmente os preceitos dos Vedas, conquista de pleno direito o seu lugar definitivo na morada superior – o lugar dos Gandharvas e Urvasî.

 

1 Prometeu, tal como Phoroneus, foram Titãs, o equivalente aos Kumâras das cosmogonia e mitologia hindus. Phoroneus ou Phoreg foi tido como o 7º Titã, designado o “Titã do “Mistério”. Phoroneus é ainda equivalente ao Bhuranyu védico (“o rápido”, o “voador”), um epíteto de Agni (o deus do fogo) com idêntica significação alegórica.

2 Os amores do herói com Urvasî são, por exemplo, relatados no famoso épico do poeta Kâlidasa, intitulado Vikramorvasî (Vikrama [herói]-Urvasî).

3 Mahâbhârata, I, 75, 18 e ss. Este texto é o único (a par de uma alusão ligeiramente divergente, constante no Harivansa) a relatar os “pecados” cometidos por Purûravas, as suas ofensas em relação aos Rishis e uma suposta queda final.

4 Virâj é o Manu masculino, criado na porção feminina do corpo de Brahmâ (Vâch) por tal deus. Disse Manu: “Tendo dividido o seu corpo em duas partes, o Senhor (Brahmâ) tornou-se um varão numa das metades e uma fêmea na outra; e nesta criou Virâj.” Virâj é o tipo de todos os seres masculinos, e Vâch, Satarûpa (a de cem formas), é o tipo de todas as formas femininas. 

5 Ibidem

6 O céu de Indra, o mundo celeste. É o céu da religiosidade exotérica da Índia, aquele estado puramente subjectivo de perfeita felicidade, no qual se encontram as almas dos justos durante o período existente entre duas encarnações consecutivas. De algum modo, corresponde ao Devachan.

7 Algumas outras fontes falam em oito filhos.

8 Max Müller e Theodor Goldstücker foram ambos renomados mitólogos, orientalistas e sanscritistas da última metade do século dezanove – e, ainda hoje, notáveis referências nestes âmbitos.

 

Isabel Nunes Governo

Vice-Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

 

Bibliografia consultada:

A Classical Dictionary of Hindu Mythology, de John Dowson, M.R.A.S, ed. Routledge & Kegan Paul Ltd, London 1972

The Theosophical Glossary, de H. P. Blavatsky, The Theosophical Publishing Society, London 1892

 

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