ARISTIDES DE SOUSA MENDES - Herói português do séc. XX

 Cônsul de Portugal em Bordéus no início da II Guerra Mundial, no ano da invasão da França pela Alemanha nazi, Aristides de Sousa Mendes arriscou a vida, a carreira e a família para salvar milhares de pessoas. Perante o avanço incontrolável das tropas nazis, encontrou-se perante o dilema: ou esquecer a multidão de refugiados perseguidos por Hitler, aos quais ele podia abrir as portas da salvação e liberdade, ou condenar-se a si próprio, agindo de forma oposta à política externa do seu governo. Escolheu desafiar as ordens expressas do seu Ministro dos Negócios Estrangeiros, Salazar, e concedeu 30 000 vistos de entrada em Portugal a refugiados de todas as nacionalidades que desejavam fugir de França em 1940, salvando do Holocausto dezenas de milhar de pessoas.

Aristides de Sousa Mendes do Amaral e Abranches nasceu com um irmão gémeo, César, em Cabanas de Viriato, Carregal do Sal, a 19 de Julho de 1885. Pertencia a uma família aristocrática e católica da Beira-Alta. O pai, o Juiz Dr. José de Sousa Mendes, descendia de abastados lavradores. A mãe, Maria Angelina do Amaral e Abranches, descendia da nobre família dos viscondes de Midões, a “Casa de Midões”, senhores do velho morgadio do Aido.

Aristides cursou Direito na Universidade de Coimbra, sendo um dos seis melhores estudantes do seu curso. Em 1910 ingressa na Carreira Diplomática, tal como o irmão César, e exerce funções de cônsul de carreira na Guiana Britânica, em Zanzibar, no Brasil, nos Estados Unidos, em Espanha, na Bélgica, no Luxemburgo e, finalmente, em Bordéus. A par da carreira consular, a família foi crescendo, sendo pai de 14 filhos, dois dos quais morreram quando residia em Antuérpia.

Detentor de uma vasta cultura geral e de fortes convicções monárquicas e religiosas, era uma pessoa de grande dignidade e delicadeza, de uma absoluta honestidade e altruísmo. Inspirava respeito e estima em todos aqueles que o conheciam, e fazia amigos com facilidade. Em Zanzibar, o Sultão foi padrinho de dois dos seus filhos. O Rei Leopoldo da Bélgica terá dito em público “Ah, voilá mon ami, le Consul General du Portugal…” Conviveu com o dramaturgo Maeterlinck, Prémio Nobel da Literatura, assim como com Albert Einstein, que foi à sua casa em 1935, antes de deixar a Alemanha.

Ao longo da sua longa carreira nunca se separou dos filhos. Procurou assegurar-lhes uma boa educação, que incluía valores morais cristãos. Para além da educação académica, todos eles tiveram acesso a aulas de pintura, desenho e música. “Lá em casa, havia uma verdadeira orquestra de câmara e, regularmente, convidavam-se pessoas para assistir a concertos. Tocava-se Chopin, Mozart, Bach, Beethoven, etc.”.

Sousa Mendes foi um diplomata muito responsável, de uma grande competência profissional, sempre louvada pelos seus superiores. Em Zanzibar, tornou-se decano do Corpo Diplomático, recebendo do Sultão a mais alta condecoração concedida a um estrangeiro, a Ordem da Estrela Brilhante, de Zanzibar. A sua dedicação ia para além do mero cumprimento das suas obrigações. Participava activamente na promoção da cultura portuguesa. Fundou e dirigiu a Casa de Portugal, em Antuérpia, onde ministrava cursos de língua portuguesa, e tinha grande popularidade junto das comunidades de emigrantes portugueses. O Rei Leopoldo III da Bélgica, atribuiu-lhe a insígnia de Comendador da “Ordre de la Couronne”.

Com uma família tão numerosa, Sousa Mendes vivia com constantes dificuldades económicas e pediu, em 1938, para ser colocado como chefe de missão na legação na China ou no Japão. Em vez disso, Salazar nomeou-o cônsul em Bordéus. E é em Bordéus que Aristides de Sousa Mendes tem um encontro marcado com a História.

Com o eclodir da Segunda Guerra Mundial e com o exército alemão a avançar pela França dentro no Verão de 1940, Bordéus, cidade fronteiriça entre França e Espanha, torna-se refúgio de muita alma fugida do Norte da Europa. O consulado português é visto como a “tábua de salvação” por milhares de pessoas que lá se amontoam na esperança de obterem um visto de entrada para a liberdade.

O início da perseguição aos judeus tinha começado em 1933 com a ascensão de Adolf Hitler ao poder, na Alemanha. Os opositores ao regime juntaram-se aos judeus perseguidos. O êxodo tomou proporções gigantescas quando os Nazis ocuparam a Áustria e a Checoslováquia em 1938. Seguiu-se a invasão da Polónia no ano seguinte, ocupada em 18 dias, sendo Varsóvia completamente destruída. Na madrugada do dia 10 de Maio de 1940, a Alemanha iniciou a invasão da Bélgica, da Holanda e do Luxemburgo, vindo a ocupar o Norte de França. A “Luftwaffe” tinha começado a sua missão de morte e destruição. Milhões de pessoas põem-se em fuga para o Sul e Bordéus torna-se o ponto de passagem para essa multidão em pânico. Aos proscritos do Reich, juntam-se milhares de pessoas que fogem simplesmente da guerra.

Salazar, através da célebre Circular 14, proibira os cônsules de carreira de concederem vistos, sem prévia consulta ao Ministério, “aos estrangeiros de nacionalidade indefinida, contestada ou em litígio; aos apátridas, aos portadores de passaportes Nansen, passados pelo Alto Comissariado para os Refugiados da Sociedade das Nações, e “aos russos”; àqueles que apresentem nos seus passaportes a declaração ou qualquer sinal de não poderem regressar livremente ao país de que provêm; aos judeus expulsos dos países da sua nacionalidade ou daqueles de onde provêm”. Na prática, nenhum diplomata português estava autorizado a passar visto de entrada em Portugal a judeus, nenhum poderia salvar pessoas dos campos de morte. São sobretudo esses que cercam o Consulado de Bordéus, uma multidão ansiosa pedindo vistos para Portugal, que, sendo neutral, é olhado como um porto de abrigo.

 

A GUERRA

A 15 de Maio, chegavam a Bordéus os primeiros comboios de refugiados e, ao longo da semana, dia e noite, continuaram a despejar gente na estação de Saint-Jean. A salvação estava ali tão perto: era apenas um carimbo no passaporte, com um visto de trânsito para Portugal. Para aquela gente esfomeada, horrorizada, suja, perdida de tudo e dos seus, significava o paraíso. O sentimento de piedade que Sousa Mendes nutria por aquelas pessoas mortificadas, que assaltavam diariamente o seu consulado, pedindo vistos, misturava-se com sentimentos de impotência e frustração. Ele queria ajudar mas não podia desobedecer ao Ministério dos Negócios Estrangeiros. Repugnava-lhe a ideia de ter de descriminar pessoas desesperadas que receavam um regime que também ele detestava. Exasperava-o ter de perguntar aos refugiados se eram judeus. Além de ser odioso, era também inconstitucional, pois a Constituição portuguesa proibia a discriminação religiosa. Ele sabia que protestar contra as instruções recebidas equivaleria ao suicídio da sua carreira mas nem as circunstâncias nem a sua consciência deixariam Sousa Mendes em paz.

Entretanto, desde 25 de Maio, tinha aumentado constantemente o número de pessoas que vinham ao consulado requerer vistos de trânsito para Portugal. Lisboa era o único porto do Continente que tinha ligações mais ou menos regulares para as Américas e para África. A capital portuguesa tornava-se a saída de emergência da Europa. Mas, para alcançar Lisboa, era necessário um visto de trânsito português. Sousa Mendes perguntava-se como poderia ajudar aquela gente. As filas eram intermináveis, as pessoas, embora sofrendo de fome e de cansaço, não arredavam pé para não perderem o lugar. Eram pobres e ricos, príncipes das casas reais europeias e pessoas anónimas, escritores e actores de cinema e teatro, intelectuais e antifascistas, gente de esquerda e jornalistas, políticos e soldados. E eram de muitas nacionalidades: austríacos, polacos, checoslovacos, belgas, holandeses, franceses…

Com a constante chegada de mais refugiados, Bordéus tornara-se a capital do medo, “la capitale de la peur”. Misturadas com aquela multidão desesperada haviam celebridades, como o romancista francês Julien Green, o poeta francês Jacques Audiberti ou o pintor espanhol Salvador Dali. Sousa Mendes não se cansava de mandar telegramas para o Ministério dos Negócios Estrangeiros, pedindo vistos. De início, esses vistos destinavam-se a pessoas com importância no mundo da política, da cultura, das artes, assim como professores universitários. Arnold Wiznitzer, judeu austríaco, antigo professor universitário, que se doutorara na Universidade de Viena, enfrentava o internamento num campo de concentração, tal como numerosos intelectuais antinazis estrangeiros, que já tinham tido igual sorte. Também o Dr. Norbert Gingold, judeu vienense, músico e compositor, em tempos director da Ópera de Viena, e mais tarde, em França, director da ópera infantil de Bordéus, e Eduardo Leira Laporte, médico e antigo professor da Universidade de Barcelona. Depois do pedido e da concessão destes vistos por Sousa Mendes, sem aguardar autorização do Governo, tanto o Ministério como a polícia política não só o vigiavam de perto, como lhe dirigiam avisos para que ele não traísse a confiança dos seus superiores hierárquicos. Mas isso não o demovia de pedir, cada vez com mais insistência, autorização para os emitir. Para ele havia ainda outro motivo pungente, um factor histórico: a reposição do equilíbrio de actos passados, o corrigir de um erro do passado que fora a expulsão dos judeus no século XV, cujos descendentes, agora em Antuérpia, em Bordéus, em Bayonne, necessitavam de regressar a Portugal.

 

A DECISÃO

À medida que as tropas alemãs avançavam, os esforços para abandonar a França começavam a assumir o aspecto de um pânico generalizado. As pressões morais sobre Sousa Mendes eram tremendas. Ele, pai de uma família tão numerosa, ouve o choro e o riso das crianças das mais variadas nações à volta da casa; ele, um católico convicto, ouvia as súplicas dos inocentes da guerra e, começava a sucumbir-lhes. Sentia-se dividido entre o dever de obediência e o dever de humanidade. Depois de passar três dias e três noites, de cama, com febre e espasmos nervosos, face à desgraça humana que desfilava pelas ruas de Bordéus, e após ter compreendido que já não fazia qualquer sentido continuar a enviar telegramas pedindo autorização para vistos, tomou a decisão de os passar a todos quantos deles necessitem, sem perguntas e sem descriminações. Iria cumprir o mandamento abstracto de “fazer o bem sem olhar a quem”. Tal equivalia a deitar fora uma carreira de 30 anos, aos 55 anos de idade, com mulher e 12 filhos, com uma situação financeira já precária. No entanto, não vacilou, com a concordância da mulher, que lhe dissera que devia seguir a sua consciência. “Não participo em chacinas, por isso, desobedeço a Salazar”. Mandou que lhe dessem a caneta, o selo branco e os carimbos, que se abrissem as portas do Consulado e lhe encaminhassem os requerentes.

Angelina teve um papel fundamental na decisão do marido, pois ela não era menos bondosa e generosa. Dia e noite acudia aos mais infelizes, cozinhava para eles, alimentava-os, lavava-lhes as roupas e até lhes fazia as camas, sem empregadas domésticas, apenas ajudada pelos refugiados que o podiam fazer. Havia talvez uns 30 alojados na sua residência que ocupavam cada palmo de espaço livre, incluindo sofás, cadeiras e tapetes. Aquela decisão fora sem dúvida tomada pelos dois, pois Sousa Mendes não poria em risco a família, com tão pesadas consequências, se Angelina não tivesse aprovado e encorajado.

Para os que o conhecessem, aquela decisão não era estranha, pois Aristides era um homem de extrema bondade, herdada do pai, o qual, enquanto juiz, nunca condenara um acusado se houvesse a mínima suspeita de que pudesse estar inocente. Esses valores de humanidade foram transmitidos aos 3 filhos – Aristides, César e João Paulo. Este último recusava-se a matar qualquer ser vivo, incluindo esmagar formigas debaixo dos sapatos.

Mas a sua decisão foi também ética. Ele sabia que os campos de concentração e os pelotões de fuzilamento esperavam aqueles refugiados se ele não os atendesse. Os refugiados de Viena contavam histórias horríveis, de atrocidades sádicas. Era a prisão ou o extermínio. Centenas de judeus, incluindo famílias inteiras, tinham sido levadas ao suicídio num espaço de um mês. Ele não queria ser cúmplice de tais crimes. Sousa Mendes tinha um coração do tamanho do mundo, mas Salazar não pensava assim – via nos seus actos apenas desobediência premeditada.

A notícia de que “o Cônsul de Portugal concede vistos” correu célere entre os refugiados, e o “casarão” nas margens do rio Garona foi “invadido” por judeus, polacos e outros indesejados dos nazis. Tornava-se impossível controlar aquela gente em pânico; bastava escrever algumas palavras para a salvar. Por serem tantas as pessoas que precisavam do visto e tanta a urgência, Sousa Mendes prescindiu de cobrar emolumentos e, para não perder tempo, passou a assinar apenas “Mendes”. Em plena conjugação de esforços com a mulher, os filhos mais velhos, o secretário consular, José Seabra, e alguns refugiados que permaneciam na residência consular, os passaportes eram recolhidos em pilhas e, depois de assinados e carimbados, eram colocados em sacos e distribuídos aos seus donos, no exterior. Durante 3 dias (17, 18 e 19 de Junho), o Cônsul Sousa Mendes não se deitou para assinar o documento que permitia a vida e a salvação. Portugal iria cumprir, mais uma vez, a sua função histórica de lugar de encontro e de passagem, de porto de entrada e porta de saída que se abria aos mares da liberdade.

Depois de ter passado milhares de vistos em Bordéus, seguiu, a 20 de Junho, para o Consulado de Bayonne, que estava sob jurisdição de Bordéus, empreendendo uma nova “operação de salvamento”. Aqui a situação era ainda mais alarmante. O armistício assinado pelo governo francês e pelo governo nazi significava, para muitos refugiados, que seriam entregues à Gestapo. O pânico tomava conta das pessoas. Os cinemas tinham sido transformados em dormitórios e, os cafés, em sala de espera. Como podia ele virar-lhes as costas?

Sousa Mendes assumiu rapidamente o comando da situação, pedindo a Faria de Machado, Cônsul de Bayonne, que colaborasse, assegurando-lhe que o libertaria de qualquer responsabilidade. Tal como em Bordéus, os passaportes eram recolhidos no exterior, carimbados, assinados, trazidos em sacos e distribuídos gratuitamente, chegando ao ponto de mandar colocar na rua uma mesa do Consulado, para facilitar a concessão de vistos. Ignorando as ordens do Embaixador em Espanha, Teotónio Pereira, no sentido de abandonar o consulado em Bayonne, continuou a conceder vistos na rua, no carro, no hotel, durante os dias 20, 21 e 22 de Junho, até estes se esgotarem. Concedeu-os, também, no posto fronteiriço de Hendaya, onde a situação era igualmente aflitiva. Durante dias e dias andou de um lado para o outro salvando pessoas, nas estradas do sul de França, nas estações de caminhos-de-ferro, a pé e de automóvel. Chegou a conduzir um grupo de centenas de refugiados através dos Pirenéus, por passagens menos conhecidas, ajudando-os a atravessar a fronteira para Espanha.

Segundo os registos da PIDE, só nos dias 17, 18 e 19 de Junho de 1940 entraram em Portugal cerca de 18 000 pessoas com vistos assinados pelo “cônsul desobediente”. O Alto Comissariado para os Refugiados da Sociedade das Nações calculou que tenham entrado em Portugal, nesse Verão, 40 000 refugiados, número confirmado pela organização judaica “Joint”, sendo um terço deles, judeus. Quando questionado por Teotónio Pereira acerca do atrevimento de agir contra as instruções recebidas, o qual o considerava uma loucura, respondeu que tinha agido conforme a sua consciência, que fizera “o que tinha de ser feito”, e perguntou se era necessário ser louco para fazer o que estava certo.

Aristides de Sousa Mendes, apenas armado de uma caneta e do selo branco da chancelaria, fizera mais estragos ao plano anti-semita de Hitler do que fizeram muitos carros de combate das forças aliadas. Tamanha desobediência não iria ficar impune. É instado por Salazar a regressar a Lisboa, escoltado, sob prisão, por dois diplomatas, mas só o fará a 8 de Julho, quando já nada mais havia a fazer em França.

 

CASTIGO

Salazar era excessivamente autoritário e orgulhoso, e ofendia-se com facilidade. Estava furioso! Não estava habituado a ser desobedecido. Hipersensível e muito melindroso, não tolerava oposição, não esquecia nem perdoava uma afronta. Para além disso, Salazar temia que este acto fosse mal interpretado por Hitler e que a neutralidade de Portugal fosse comprometida. Segundo muitos sustentam, o seu regime tinha interesse na vitória de Hitler e na derrota das democracias liberais. Era um modo seguro de desacreditar e enfraquecer as aspirações democráticas dentro do país.

Aristides de Sousa Mendes foi alvo de um processo disciplinar injusto, sendo afastado da Carreira Diplomática “por incapacidade profissional para dirigir consulados”, e condenado a um ano de inactividade com direito a metade do vencimento e, findo este prazo, com reforma compulsiva com um quarto de salário. Tentou, até ao limite, justificar os seus actos, em depoimentos impressionantes, descrevendo as circunstâncias dramáticas em que se encontravam todos os refugiados, alegando que a sua atitude fora inspirada, única e exclusivamente, nos sentimentos de altruísmo e generosidade de que os portugueses, ao longo de oito séculos de História, souberam dar provas eloquentes. Expôs, ainda, que procurara sempre defender o bom nome e prestígio da Pátria Portuguesa aos olhos do mundo, e que fora procurado, como representante de Portugal, por pessoas das mais eminentes, como homens de Estado, embaixadores e ministros, generais e outras patentes superiores, professores, homens de letras, académicos, artistas de renome, jornalistas, estudantes universitários, membros de casas reinantes, príncipes de sangue, religiosos, mulheres e crianças. “Eu desobedeci mas a minha consciência não me desonra”. Salazar foi insensível a todos os argumentos. Era demasiado orgulhoso para ter clemência.

A situação financeira de Aristides começava a degradar-se: um quarto de vencimento era insuficiente para manter uma família tão numerosa. Inscreveu-se na Ordem dos Advogados mas, com 56 anos, sem nunca ter exercido advocacia e estando desacreditado politicamente, era difícil alguém recorrer aos seus préstimos. Os velhos amigos começavam a evitá-lo. Os filhos tiveram de alterar os seus percursos de vida. Não encontrando trabalho em Portugal, são obrigados a emigrar. Carlos, de 19 anos, e Sebastião, de 20, tinham nascido nos Estados Unidos da América e, como tinham igualmente nacionalidade americana, decidiram alistar-se nas forças aliadas, em Londres, combatendo contra as tropas hitlerianas e participando no desembarque, na Normandia, a 6 de Junho de 1944.

Pouco depois, Aristides de Sousa Mendes entrava num processo de “decadência”. Devido a tanta pressão psicológica, sofre uma primeira hemorragia cerebral que lhe paralisou parcialmente o lado direito do corpo. Com o optimismo que o caracterizava, não se deixa desanimar e, lutando para se recompor, conseguiu voltar a andar com a ajuda de muletas. Com enorme força de vontade, foi recuperando da debilidade física e nunca desistiu de pedir justiça a Salazar, escrevendo-lhe directamente ou por intermédio do irmão César. É impressionante a determinação e coragem com que clamou por justiça, por todos os meios.

Com o fim da guerra, e com os sinais de abertura que o governo parecia querer dar-lhe, aumentava a esperança de Sousa Mendes na sua reabilitação. Dirigiu, então, um apelo à Assembleia Nacional, com base na inconstitucionalidade do despacho ministerial que o demitira, mas, como tantas outras vezes, não obteve resposta. A imprensa portuguesa, amordaçada, mantinha um silêncio total. Pediu igualmente ao Cardeal Cerejeira que intercedesse por si junto de Salazar. Este aconselhou-o a rezar a Nossa Senhora de Fátima. Também Angelina escreveu às esposas de homens influentes para que intercedessem pelo marido, mas todas as portas se fecharam.

A doença trouxera despesas acrescidas e eliminara qualquer esperança de emprego. Sousa Mendes estava desesperado. Segundo o rabino Gruger, de quem era amigo, Sousa Mendes aceitava o que lhe aconteceu com humildade e dizia: “ Se milhares de judeus podem sofrer por causa de um católico (Hitler), então é certamente permitido a um católico sofrer por tantos judeus”, e acrescentava “Eu não podia agir de outro modo e, por consequência, aceito com amor tudo quanto me aconteceu”. Recusava-se a pedir ajuda àqueles que ele próprio tinha ajudado, pois a sua acção não tinha visado o lucro ou a recompensa. Sempre recusara pagamento ou contrapartidas quando concedera vistos.

Angelina, já com pouca saúde, sofreu uma hemorragia cerebral em Janeiro de 1948 e, seis meses depois, morreu. O filho Luís Filipe emigrou para o Quebeque com um visto de estudante, conseguido pelos refugiados que, graças a Aristides, tinham emigrado para o Canadá. Terezinha e Joana partiram para os Estados Unidos, por intermédio da comunidade judaica. João Paulo reúne-se aos irmãos na Califórnia. Pedro Nuno partiu para o Congo Belga, Geraldo para Angola, e Clotilde para Moçambique. Sousa Mendes doía-se da ausência dos filhos, pois tinha vivido para a família e a família estava a dispersar-se. Todos os seus filhos sofreram em Portugal com a perseguição que a si fora feita. No estrangeiro, aprenderam a calar a sua origem pois, não só queriam sarar as feridas do passado, como também isso não lhes trazia quaisquer benefícios profissionais. No entanto, tão grande injustiça continuava a fazer sofrer Sebastião e Joana.

Aristides de Sousa Mendes do Amaral e Abranches morreu a 3 de Abril de 1954, de trombose cerebral agravada por uma pneumonia, no Hospital da Ordem Terceira (junto ao Chiado), na maior miséria, sozinho, longe dos filhos. A imprensa portuguesa ignorou a sua morte e Salazar enviou um telegrama ao seu irmão César, onde escreveu apenas duas palavras “Sentidos pêsames”. No entanto, em Leopoldville, capital do Congo Belga, Abraham Samuel, um refugiado agradecido, recordou o heróico cônsul num artigo comovedor intitulado: “Morreu um grande amigo da Bélgica”. Os milhares de refugiados ajudados por Sousa Mendes tinham-se dispersado pelos quatro cantos do mundo.

O Cônsul de Portugal perdera tudo. Perdera o cargo e a fortuna, a mulher, os filhos e os amigos. A saúde e a força. O aprumo e a vaidade. Até mesmo a titularidade do seu gesto salvador, pois Salazar apropriou-se desse acto. Através da propaganda do Estado Novo, os jornais louvaram Salazar. “Portugal sempre foi um país cristão” é o título de um editorial do Diário de Notícias, do mês de Agosto de 1940, em que Salazar era louvado por ter salvo refugiados no Sul de França. O infeliz cônsul sofria a suprema injustiça de ter sido castigado, enquanto o regime político era louvado, aceitando este, sem nenhum pudor, os elogios internacionais que o Cônsul pagara com a proscrição social.

Foi preciso que muitos anos passassem e que os filhos inconformados, Sebastião e Joana, clamassem por justiça, para que o nome de Sousa Mendes fosse reabilitado. Já a imprensa estrangeira o tinha feito. Já tinha sido plantada uma árvore nos jardins do Museu do Holocausto de Jerusalém, na Ala dos Justos, com o nome de Aristides de Sousa Mendes. Já a organização israelita Yad Vashen lhe tinha conferido a sua mais alta distinção, uma medalha com a seguinte inscrição: “A Aristides Sousa Mendes, o povo judeu agradecido”. A medalha continha ainda uma citação do Talmude: “Quem salva uma vida, salva todo o Universo”. Esta cerimónia realizou-se no Consulado israelita em Nova Iorque, em Outubro de 1967, com a presença dos filhos Joana, Sebastião, João Paulo, Terezinha e Luis Filipe. Em 1968, o professor Charles Oulmont, da Sorbonne, rendia homenagem a “um verdadeiro cristão” que “se preocupou com o sofrimento dos judeus” e, “cheio de piedade e compaixão, fez tudo quanto pôde para salvar os refugiados da perseguição do invasor.” A grã-duquesa Charlotte de Luxemburgo, respondendo a uma carta pessoal de Joana, escrevia: “A sua acção humanitária servirá para sempre como exemplo de devoção abnegada às causas da liberdade e da compreensão entre todas as nações e raças.”

Apesar das muitas homenagens e manifestações de apreço e gratidão pelas comunidades judaicas na América e Canadá, em Portugal ninguém queria remexer no passado. Só depois de muito pressionado pela comunicação internacional e com apelos constantes dos filhos do ex-cônsul, Joana e Sebastião, que acalentavam o sonho de fazer justiça ao nome do pai, é que o Governo português lhe concedeu a primeira homenagem em Maio de 1987. Quase meio século depois, outorgara-se-lhe a distinção da Ordem da Liberdade, entregue por Mário Soares à família Sousa Mendes, na Embaixada portuguesa, em Washington, na pessoa da filha Joana, que agradeceu, apesar de não ser a condecoração mais elevada. Em Fevereiro de 1988, o deputado Jaime Gama pediu, na Assembleia da República, a reabilitação e reintegração póstuma de Aristides de Sousa Mendes, no Corpo Diplomático. E a 13 de Março, o mesmo foi homenageado com aclamação. Portugal tinha finalmente honrado o seu herói.

Também Israel, em 15 de Abril, concedeu a cidadania honorária a Sousa Mendes e, em 23 de Junho, o Senado Americano aprovou a moção de homenagem ao diplomata português.

Finalmente, em 1998, foi reintegrado, a título póstumo, no Serviço Diplomático português na categoria de Embaixador. Estava-lhe ainda reservada outra grande distinção: a homenagem no Parlamento Europeu, em 1999. Aristides de Sousa Mendes tinha o seu lugar na História!

A acção de Aristides de Sousa Mendes, como Cônsul Geral de Bordéus, não é apenas um acto heróico mas, acima de tudo, um acto de grande lucidez. Ele sabia estar a condenar-se a si próprio, e que esse era o preço a pagar pela opção em favor dos mais fracos. Moise Elias, um dos refugiados salvos por Aristides de Sousa Mendes, disse que “ele agia como instrumento da vontade de Deus”. Era a única maneira de explicar actos tão corajosos e fora do comum. Yehuda Bauer, em “A History of the Holocaust”, escreveu: “Aristides de Sousa Mendes foi o autor da maior acção de salvamento levada a cabo por um único indivíduo durante o Holocausto”. O jornalista Ferreira Fernandes afirmou: “Os homens são do tamanho dos valores que defendem. Aristides de Sousa Mendes foi, talvez por isso, um dos poucos heróis nacionais do século XX e o maior símbolo português saído da II Guerra Mundial. Protagonizou a “desobediência justa”. Rui Afonso, em “Um Homem Bom”, afirmou: “Homens comuns como Aristides de Sousa do Amaral e Abranches foram capazes de tomar a decisão moral de desobedecer! Um homem bom pode fazer a diferença num mundo de maldade. Com o seu respeito pela vida humana, e pelos direitos e dignidade do Homem, Aristides de Sousa Mendes mostrou ser ao mesmo tempo um herói para a Europa e para a Humanidade”.

Alexandrina Leal

Licenciada em História

Bibliografia

Afonso, Rui, Um Homem Bom – Aristides de Sousa Mendes, Lisboa, Texto Editora, 2009 Afonso, Rui, Injustiça, Lisboa, Ed. Caminho, 1990 Louro, Sónia, O Cônsul Desobediente, Lisboa, Saída de Emergência Ed. 2009 Nery, Júlia, O Cônsul, Lisboa, Publ. D. Quixote, 1991

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