OUROBOROS E O SEPTENÁRIO

Neste artigo, propomo-nos ilustrar a coerência e a lógica da assertiva ocultista de que o Universo assenta sobre e integra um padrão septenário. É ele, mesmo, frequentemente nominado como o “Grande Septenário”.

É também cíclico, e uma imensa e dinâmica Espiral circunscrita num Grande Círculo. Essa espiral é a própria respiração do Cosmos. Abre-se e retrai-se ritmicamente, impregnando e chamando à Vida tudo o que jaz latente no Espaço Infinito. Desenvolve-se compreendendo múltiplas e incomensuráveis expansões e contracções, para fechar o círculo unicamente no final, subsumindo-se no Absoluto… e para, ulteriormente, se reabrir e desenrolar dando início a um novo Grande Ciclo.

Com efeito, várias antigas Cosmogonias nos legaram a imagem da Manifestação Universal como sendo rítmica – um Universo que inatamente se comporta com contracções e expansões, recolhimentos e desdobramentos, interiorizações e exteriorizações, constituindo assim o padrão para todas as unidades de vida que dele despontam e o constituem. Um tal padrão ou matriz gere e cunha uma inumerável progénie, conferindo a sua nota-chave a todas as grandes e pequenas dualidades do Cosmos: a vida e a morte (presentes em tudo na Natureza), a noite e o dia, a luz e a sombra, o bem e o mal, o positivo e o negativo, o masculino e o feminino, etc, etc…
Entretanto, em cada Cosmos manifestado, o UM dividido por 7 constitui o padrão para a sua manifestação integral. Em numerologia simbólica ocultista, 1/7 é o primeiro raio do infinito, projectado no Plano Manvantárico. É o início, a Mónada, a Centelha divina, potencialmente contenedora do Todo, e reflexo do seu Pai.
Na concepção e nomenclatura hindu, designadamente, Parabrahman (o Absoluto) é Infinito. Contudo, do seu íntimo e no seu seio, manifestam-se projecções cíclicas e, por essa razão, necessariamente finitas… mas potencialmente reveladoras do Infinito, que as espelhou.
É por isso que o símbolo 1/7 (desdobradamente, 0,142857 142857 142857 142857…) é potencialmente infinito, não obstante ser objectivamente delimitado e contido nas fronteiras de cada de Grande Ciclo, também ele septenário, de Manifestação Universal.
Os números divididos por 7
1/7 = 0.142857 142857… 
2/7 = 0.2857 142857 14… 
3/7 = 0.42857 142857 1… 
4/7 = 0.57 142857 1428… 
5/7 = 0.7 142857 14285… 
6/7 = 0.857 142857 142… 
7/7 = 1
8/7 = 1.142857 142857… 
9/7 = 1.2857 142857 14… 

1/7 = 0.(1)42857 
2/7 = 0.(2)857 
3/7 = 0.(4)2857 
4/7 = 0.(5)7 
5/7 = 0.(7) 
6/7 = 0.(8)57 
7/7 = 1 

Verificamos que ficam de fora o 3, o 6 e o 9. E, em Filosofia Oculta, são eles os vértices da Tri-unidade transcendental e espiritual.
O ENEAGRAMA

Percebemos, neste simbólico diagrama, que os números que irão conformar os tijolos da Manifestação Universal são efectivamente o 1, o 2, o 4, o 5, o 7, e o 8. São os números da substância, da Matéria, da externalidade, se assim nos podemos expressar; enquanto que os números 3, 6, e 9, representam os números dos arquétipos, do influxo de Vida: são números espirituais.

Por outro lado, no mesmo diagrama entrevemos uma dinâmica, uma “Roda do Tempo”, e pelo seu traçado podemos percorrer uma curiosa viagem figurativa, por entre os interstícios do Imenso Palco da Vida. Seguimos a ordem geométrica que nos apontam os 6 vértices materiais do Eneagrama: 1, 4, 2, 8, 5, 7, e de novo 1, 4, 2, 8, 5, 7, e assim indefinidamente… Fixemos este número.

Fohat e o Ouroboros

 

Famosa representação do Ouroboros desenhada por Theodoros Pelecanos, e integrando o tratado alquímico Synosius (1478)

 

O Ouroboros (em grego, Οὐροβόρος or οὐρηβόρος, de οὐροβόρος ὄφις “serpente que devora a cauda”), é um antigo símbolo que representa uma serpente ou dragão engolindo a sua própria cauda e formando um círculo – o “Círculo da Necessidade”, ou o “Círculo do Tempo Infinito”. O símbolo do Ouroboros é uma constante em todas as culturas. Os Gregos herdaram-no dos Egípcios, dos quais as representações conhecidas remontam às XVIII e XIX dinastias. A mais antiga foi encontrada no túmulo de Tutmosis I (1504-1492 a.C.). Surge ainda em diversos tratados alquímicos, tais como o Chrysopoeia e o Codex Marcianus.

 

Representação egípcia da Serpente ondulada, a grande espiral do trajecto cósmico, nocturno, de Ra1. Este ideograma denota similitudes com a visão hindu de Ananta-Sesha, sobre cujo corpo repousa Vishnu, vogando nas águas primordiais durante o Pralaya

 

Representação da Serpente Cósmica com 5 Cabeças (as 5 Raças-Raízes já vindas à Manifestação) mordendo a própria cauda. Esta e a anterior imagens integram o Amduat, o “Livro do Mais Além” ou “Livro da Câmara Oculta”, encontrado no túmulo do Faraó Tutmósis III (ca. 1479-1426 a.C.)

O famoso Ouroboros constante no tratado Chrysopoeia de Cleópatra, de Alexandria, séc. II. As palavras no centro significam “O Todo é Um”.

 

Representação azteca da serpente cósmica hepta-seccionada mordendo a cauda, símile do Ouroboros

Ouroboros chinês, da dinastia Chou, 1200 a.C.

 

Ouroboros japonês, anterior ao séc. XV

 

Ouroboros norte-ameríndio

 

 

Na Cosmogonia hindu, Ananta-Sesha é o equivalente ao Ouroboros. Ananta, a grande Serpente da Eternidade, é o símbolo do Espaço Infinito e da Eternidade, e Sesha é periódica nas suas manifestações. Segundo as crenças exotéricas, Sesha é representada como uma serpente de mil e de sete cabeças, sendo a primeira o rei do mundo inferior, chamado Pâtâla, e a última, o leito ou veículo de Vishnu no Oceano do Espaço.

Pensa-se que, dos Egípcios, o símbolo passou para os Fenícios e Caldeus, e depois para os Gregos. De acordo com o Sefer Yetzirah – um dos textos fundamentais da Cabala –, Theli or ThLi era o seu nome, e era descrita como envolvendo com o seu corpo o universo por inteiro, e procurando incessantemente engolir a própria cauda, desse modo conseguindo a reentrada nos Céus. Theli em letras hebraicas é TLI = 400 + 30 + 10 = 440; quando a sua crista (a letra inicial) é reprimida, diziam os rabinos, restam 40 ou o equivalente de Mem; M = água, as águas do espaço. 2

 

A Simbologia dos Números

Em numerologia simbólica, o Ouroboros expressa-se da seguinte forma:

1/7 = 0.142857…
2/7 = 0.285714…
3/7 = 0.428571…
4/7 = 0.571428…
5/7 = 0.714285…
6/7 = 0.857142…
+ 2,99999‘7’… (o símbolo da imperfeição, ou da busca da perfeição pela Matéria…).

Em cada Manvantara, ou Grande Ciclo de Manifestação dos Mundos, um Um é na verdade uma Tri-unidade. Constante e condizente em todas as antigas Cosmogonias e Filosofias religiosas, é ela a Trindade Espiritual e Divina, de onde irradia o Quaternário dos mundos da Forma.
Assim, temos o 3. E temos o resultado da soma acima aludido, 2,999997, expressivo do conjunto da Manifestação dos Mundos como reflexo ou projecção dessa Trindade – ao qual se infunde, multiplicando, um outro factor: o número mágico 1,000001.
3 = 2,999997 x 1,000001

 

1,000001. Este número é a representação de Fohat, o elemento agregador, a força vital e electrizante do Universo, que permite que tudo o que é separado se relacione e frutifique. É o Eros, dos gregos, a energia do amor e da união dos opostos. É o agente “que une e combina todas as formas, dando-lhes o primeiro impulso …, [é] a força activa na Vida Universal, o princípio animador que electriza cada átomo, fazendo-o entrar na vida; a eminente unidade que enlaça todas as energias cósmicas, tanto nos planos invisíveis como nos manifestados. Penetrando no seio da substância inerte, impulsiona-a para a actividade e guia as suas diferenciações primárias nos sete Planos da Consciência Cósmica, que, obediente à ideação da Mente Universal, faz brotar todos os diversos estados do Ser no sistema solar manifestado. É o laço misterioso que une o Espírito e a Matéria, o Sujeito com o objecto; a ‘ponte’ através da qual as ideias existentes no Pensamento Divino são imprimidas na Substância Cósmica, como Leis da Natureza…” 3.

Fohat é o elemento que permite a consumação e sublimação da Matéria, e que esta ascenda aos Céus; é o poder que converte o que é mortal em Eterno.

___3____ = 1,000001 

2,999997  

Doutrina das Sizígias


Numa certa perspectiva filosófica, a única realidade é o Um. Por definição, este Um – ou o Absoluto – não pode ser diminuído nem aumentado; e nesta conformidade, todos os restantes números, quaisquer que eles sejam, só podem acontecer dentro desse Um, e assim, serem meras fracções da unidade.
Tomando o que foi dito como premissa, todos os números são/seriam “zero vírgula algo mais…”; ou, adoptando uma imagem mais expressiva, seriam como que “negativos” – projectados no mundo de Mâyâ, e velados pelo seu véu.
Não obstante, neste reverso ou espelho da Realidade, que é o nosso Mundo, tudo reflecte e se faz corresponder com essa Realidade. E nesse paradigma, os números são, para nós, muito reais. Eles corporificam símbolos de algo vivo, anímico, e verdadeiramente real. Vivemos e temos a nossa existência, e bem assim os números, como que no negativo ou decalque do Mundo do Real.
De acordo com esse pressuposto, no início do Manvantara, a projecção do primeiro Raio da Manifestação – ou o espelho do verdadeiro UM (figurado por Parabrahman, Ein Soph, Zeroâna Akerne, ou outra possível designação nas diversas Cosmogonias, como o Absoluto sem Fronteiras…) – seria como que o negativo desse Um (seria -1); na Cosmogonia hindu, por exemplo, seria Brahman, o Andrógino Divino, o qual continha em si mesmo toda a potencialidade dos Mundos que dele e nele despontariam.
Uma outra abordagem simbólica possível é a de atribuir a Parabrahman a cifra Zero, como a Plenitude onde jazem ocultas todas as potências; e a Brahman, o Um (positivo); e aos seus filhos na cadeia ou desdobramento do Universo, os números (igualmente positivos) dele derivados…
No entanto, qualquer que seja a abordagem considerada, no Início da Manifestação, o Um – contenedor de todas as potências – desdobrou-se na primeira dualidade: o par e o ímpar, o negativo e o positivo, o yin e o o yang…
 

E assim:

 

A Trindade Divina contém o padrão das 3 Sizígias primordiais, ou os 6 raios do Septenário, cujo centro é o 7, a síntese dos 6, e o êmbolo da Roda da Vida:

1º + 6º; 2º + 5º; 3º + 4º (ou, 1/7 + 6/7; 2/7 + 5/7; 3/7 + 4/7)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1ª Sizígia – 6º RAIO + 1º RAIO = 0,857142 + 0,142857 (= 0,999999)

(PAR) + (ÍMPAR)

 

2ª Sizígia – 5ª RAIO + 2º RAIO = 0,714285 + 0,285714 (= 0,999999)

(ÍMPAR) + (PAR)

 

3ª Sizígia – 4º RAIO + 3ª RAIO = 0,571428 + 0,428571 (= 0,999999)

(PAR) + (ÍMPAR)

Diagrama da Manifestação Septenária dos Mundos


Na página central temos um quadro que representa o surgimento e a manifestação integral de um Cosmos, ou Grande Septenário.
No início, a partir do vértice superior, se posiciona à esquerda o primeiro par. Dele decorre uma linha de sucessão com as potências do 2, até à 21ª. (Na escala de Fibonacci, os 7 primeiros números acabam no 21, ou seja 1, 2, 3, 5, 8, 13 e 21). Estas paridades ou sizígias entram na escala da evolução multiplicadas pelo 7, e o seu resultado figura no eixo central, sintético e representativo da Grande Espiral Evolutiva.
Do Uno (a partir do vértice superior) desponta, na lateral direita, a sua projecção fraccionada e septenária – 1/7 –, 0,142857 142857… até à sétima série.
Agora, verificamos que os números que se alinham no eixo central configuram exactas e inalienáveis posições que determinam que a soma dos seus respectivos números corresponda ao número da cadeia septenária situado à direita, 142857142857142857142857142857142857142857.
Neste ponto, poder-se-á objectar: mas porquê delimitar a cadeia potencialmente infinita ‘142857…’ no final da 7ª série? Aparentemente, tudo indicaria que esta delimitação é aleatória e apenas conveniente para se ajustar aos nossos propósitos e se enquadrar na nossa tese. Porém… ultrapassada a 7ª série, os pressupostos coerentes antes verificados cessam. Se prosseguíssemos o continuum, as somas passariam a ser irracionais.
Com efeito, apenas o númeno dos números é infinito. Estes são potencialmente infinitos, mas no Universo da concretude, são necessariamente condicionados e o círculo fecha-se no Grande 7.

Nota: Como podemos observar, os números que figuram no eixo central são o resultado das potências do nº 2 (sendo este representativo da primeira dualidade) até ao 21º expoente, multiplicadas pelo nº 7, e estes números, ocupando o único lugar espacial que lhes é próprio, e mantendo igualmente uma relação espacial inalienável entre si, se somados, resultam notavelmente aproximados na grande sucessão situada à direita (que corresponde à Unidade desdobrada no Septenário, ou a fracção 1/7). No entanto, existem algumas ínfimas discrepâncias na coerência das somas, que assinalamos com os números +1 ou –1, em cor azul, posicionados nos lugares que lhes correspondem entre os números que progridem no eixo central. Estas interpolações, que sugerem ser rítmicas, têm como fito o ajuste para que as somas sejam rigorosamente coerentes com a sucessão à direita. Desconhecemos a interpretação de tais ínfimas diferenças mas, pela extraordinária harmonia e coordenação evidenciadas, decerto têm o seu significado e propósito.

O deus Apolo rodeado das 9 Musas e dedilhando o heptaedro ou lira de 7 cordas. 4

Pintura de Andrea Appiani (1817)

Na geometria deste diagrama, podemos ainda ver um triângulo que encima um quadrado. O triângulo simboliza a Tríade Superior e Divina, e os Planos ditos Arûpa (sem Forma). O quadrado representa o Quaternário inferior e os Planos Rûpa (com Forma). A altura do triângulo é metade da altura do quadrado, ou 0,333 do eixo sintético da Manifestação. Entretanto, os catetos do mesmo triângulo são 0,666 do lado do Grande Quadrado que se inscreve no Grande Círculo Manvantárico.
Para finalizar, deixamos a nossa convicção pessoal de que a “Música das esferas” dos Pitagóricos encontra o seu legítimo lugar no que representa este diagrama, e ressoa, com as suas notas peculiares, em todos e cada um destes círculos mágicos contenedores de miríades de mundos.


Isabel Nunes Governo
Vice-Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

1 … a divina Alma universal no seu aspecto manifestado. Para os Egípcios, Ra era também o Sol personificado, “o ‘produzido por si mesmo’, o que criou a bondade com um olhar do seu olho ardente, assim como Set-Typhon criou o mal (…). Como Ammon, era ele o ‘Senhor dos dois mundos, entronizado sobre o disco do Sol, o que surge do abismo dos céus’. Um hino antiquíssimo decifra o nome de Amon-Ra e proclama-o ‘Senhor dos tronos da Terra… Senhor da Verdade, Pai dos deuses, Criador do Homem, Criador dos animais, Senhor da Existência, Iluminador da Terra, que navega tranquilamente nos céus… Adoramos o teu Espírito, o único que nos criou… (James Bonwick, Egyptian Belief and Modern Thought, p. 107)”.

2 Como curiosidade adicional, incluímos aqui o seguinte símbolo:

Este é um símbolo por muitos anos usado por Helena Blavatsky como seu monograma pessoal, e do qual se originou o selo da Sociedade Teosófica. Nele, o Ouroboros circunda uma estrela de 6 pontas onde se inscrevem, ao centro, as letras E e B, as iniciais do seu nome. O hexagrama está rodeado de símbolos astrológicos (o Leão e a Virgem) e cabalísticos. Curiosamente, abaixo, à esquerda, vemos a letra “Shin” – a 21ª em grande número de abjads (ou consonantários), como o fenício, o aramaico/ hebraico שׂ, o árabe (neste caso 21ª letra na ordem abjadi, 13ª na ordem moderna); o seu som é o sibilante “ʃ/s”, o som simbólico emitido pelas serpentes. Não nos parece um pormenor de somenos a inclusão desta letra num emblema que era tão caro à insigne ocultista. Com efeito, e como veremos à frente, as potências do 2 até à 21ª são uma das chaves da Manifestação do Manvantara representado pelo Ouroboros (cf. a sucessão representada à esquerda no diagrama das páginas centrais).

O logotipo da Sociedade Teosófica. Neste símbolo, o monograma pessoal de Blavatsky foi substituído pela Cruz Ansata, o Tau egípcio. O AUM encima o diagrama, em lugar da coroa.

2 Helena Blavatsky, A Doutrina Secreta, Ed. Pensamento, 1973; Vol. I, p. 83.

3 Cabe aqui lembrar que, para os primeiros Pitagóricos, o Mestre era uma encarnação de Apolo, o Sol. Para se entender o sentido esotérico desta convicção, tenha-se em conta a noção oriental de Avatar ou hipóstase de um aspecto da divindade.

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