Revisitando um conto infantil: Os três porquinhos e o lobo mau

Nesta época de materialismo crasso e ilógico, só a Filosofia Esotérica é capaz de resistir aos repetidos ataques a tudo quanto o homem tem de mais caro e sagrado na sua vida espiritual interna.

 

Helena Blavatsky

 

Todos nos recordaremos, de criança, da história do lobo mau que queria devorar três porquinhos. Para se protegerem, construiu cada um destes a sua habitação: o mais jovem fez, rapidamente, uma atraente mas frágil casinha de palhas; o do meio, um pouco mais exigente, recorreu a madeira para fazer o seu lar; por fim, o mais velho, maduro e reflectido dos três, depois de, em vão, ter avisado os seus irmãozinhos da insuficiência dos meios por eles usados, levantou um sólido edifício de pedra.

 

Eis, porém, que veio o lobo e, com um simples sopro, devastou a casa de palha do mais jovem dos porquinhos que, apavorado, fugiu para a habitação de madeira; prosseguiu o lobo nos seus intentos e, embora com um pouco mais de tempo e de esforço, fez cair a segunda casa; então, os dois porquinhos mais jovens, que antes não haviam feito caso dos conselhos do irmão mais velho (e que dele se haviam rido, considerando que levava as coisas demasiado a sério e que pensava excessivamente), não tiveram outro remédio senão refugiarem-se na sua casa. E contra esta, o lobo não prevaleceu, apesar de todas as suas investidas. Pelo contrário: aí veio a encontrar o seu fim.

 

Propomos que se considere esta história como uma alegoria. Assim, tomemos o lobo mau pelo materialismo, tanto doutrinário como prático-ético, e os três porquinhos como candidatos às coisas sagradas a que, todavia, só terão acesso quando deixarem de ser porcos (“Não lanceis aos cães as coisas santas nem deiteis aos porcos as vossas pérolas, para que não as calquem com os seus pés e, contra vós se voltando, vos despedacem”; Mateus 7:6), o que implica a correcta re-edificação dos habitáculos dos seus Egos, tornando-os invulneráveis ao lobo devorador. Da história não constam os grandes porcos (esperamos não usar uma linguagem chocante), visto que tais ocupações nem sequer ainda lhes ocorrem.

 

Os mais jovens desses candidatos – tão jovens que têm muito pouco claro o seu objectivo – iludem-se com facilidade, à imagem do primeiro dos porquinhos. Julgam-se protegidos, quando estão quase totalmente expostos. São assim, talvez, como muitos dos pseudo-espiritualistas destes tempos, exclusivamente preocupados com o seu relaxamento e bem-estar físico. Desconhecem a Ciência Espiritual, o Conhecimento Sagrado, a Teosofia, julgam que é “antiquada” mas idêntica ao “esoterismo” e “new age” de supermercado ou consideram-na maçadora e inútil. Com muitas terapias alternativas – tantas vezes sem distinguir a seriedade da charlatanice ou do exibicionismo despropositado –, com muitas poses e teatralismo (o hábito que não faz o monge, e muito menos o discípulo), com muitos artefactos “místicos” – incensos, CD’s New Age, pózinhos e cristais (quase nada disto sendo problema, pelo contrário, se não se tomasse o meio pelo fim e o acessório pelo essencial), com muitos coraçõezinhos e frases simplistas à volta do amor (a que identificam as suas emoções e desejos pessoais), prestam um incessante culto aos elementais dos corpos inferiores e continuam a ser devorados (e até utilizados) pelo lobo mau do materialismo, sem ao menos se darem conta disso.

 

O porquinho seguinte amadureceu um pouco mais. É menos simplista e autocentrado, já sendo capaz de ajudar – ou tentar ajudar – a outros (por isso recebeu e procurou ajudar o seu irmãozinho mais jovem). No entanto a habitação (o corpo ou forma) onde está regra geral ocupado – Kâma ou Emocional – não é verdadeiramente segura, mesmo quando já reflecte alguns vestígios do seu correspondente analógico na Tríade SuperiorBuddhi ou Intuicional. Inclina-se ao Bem mas ainda se confina à caridadezinha; pressente a Beleza mas contenta-se com o bonitinho; anela a Justiça mas, toldado emocionalmente, toma a ilusão pela realidade; pode chegar a ser generoso mas só enquanto tal não ameaça a sobrevivência da alma pessoal; reconhece que deve haver uma Ciência Sagrada mas fica cansado só de pensar no esforço de investigação para lhe aceder, e limita a Sabedoria Esotérica a um conforto para os seus medos; julga-se capaz de tornar o mundo mais espiritualizado mas, não dispondo de meios mais fortes e lúcidos do que os da devoção de “alguns momentos”, torna-se presa fácil do lobo mau, quando o materialismo se fortalece de intelectualismo e cientismo. O nosso porquinho não tem coragem de enfrentar esse lobo – e nem sequer está consciente da necessidade de o fazer. Espera que um dia, sem nada ter feito para isso, o céu entre pela sua cabeça (e na de todos os porquinhos) e o lobo desapareça.

 

Quanto ao terceiro porquinho, sabe que precisa – que tem o dever – de enfrentar o lobo mau, com este revestido das suas armas mais temíveis e sofisticadas. Assume corajosamente essa luta, em nome da Verdade e do Bem Geral. Construiu, com método, rigor e ciência, um edifício sólido, que resiste ao sopro gélido e mortal do materialismo; por amor aos seus irmãos mais novos, dotou-se dos meios e da destreza – mental – para que o lobo cesse de constituir uma ameaça e deixe de assolar os pobres porquinhos indefesos. Os mais jovens entre estes ignoraram-no, riram-se dele, consideraram-no demasiado sério; entretanto, só ele pode, finalmente, defendê-los e derrotar o lobo. Conheceu e praticou as regras para se tornar invulnerável, desenvolveu a Filosofia Esotérica ou Ciência do Espírito (Espírito que é unidade), sabe o que faz e, por isso, não cometeu erros fatais por carência de discernimento. Dedicou o seu tempo a investigar o Grande Templo, que é o Universo, percebeu que esse é o modelo para todas as construções e concluiu que o único saber seguro é o dos que conhecem o seu plano (do Universo) e colaboram na sua execução.

 

Ao derrotar o lobo, o porquinho tornou-se verdadeiramente um homem. Vê mais além dos limitados horizontes das habitações da alma temporal. Manas (o Mental), que já deixara de estar escravizado por Kâma (Emoções pessoais), como no caso do 2º porquinho, para passar a constituir uma ponte (antahkarana), dociliza-se agora como um instrumento, guiado por Buddhi (Buddhi-Manas, a Alma Humana, por sua vez o veículo de Âtma-Buddhi, a Alma Espiritual). Começou o florescimento da Verdade, da Bondade, da Beleza, da Justiça. O Homem deixa o mundo dos lobos (sem esquecer, porém, a defesa dos porquinhos que aí permanecem) e encaminha-se ao encontro dos cordeiros, entre os quais ingressará um dia. E, citando o Corão, “Ai de quem não tiver a visão de um Grande Dia!”

 

 

José Manuel Anacleto

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