VISHVAKARMAN

O termo desta vez escolhido, por referência à letra “V”, é também transliterado do Sânscrito por Vishvakarman, Vizvakarman ou Vichavakarman.

Vishvakarman, proeminente na cosmogonia-mitologia da Índia, é o Arquitecto ou o Artífice divino do Universo, frequentemente identificado com Prajâ-pati 1 e 2 (Brahmâ), embora por vezes mencionado como filho de Brahma. A tradução “Artífice” tem a virtualidade excelente de imediatamente evocar o Demiurgo – Artífice – do Platonismo; contudo, a opção “Arquitecto”, que releva mais o sentido de criação ou formulação mental (arquetípica), tem a vantagem de lembrar o Princípio Hermético segundo o qual “o universo é mental”, ou seja, que na Mente Divina (substancialmente constituída por todas as Inteligências Espirituais criadoras) existe pristinamente o Cosmos, que depois se densifica em níveis crescentes de materialidade / objectividade fenoménica.

Mais adiante voltaremos especificamente a Vishvakarman. No entanto, para já, importa referir que é um dos Sete Raios, por outras palavras, um dos sete principais raios (no sentido metafísico) do Sol, dizendo-se (também em sentido metafísico ou, porventura, alegórico) que “fornece calor” ao planeta Mercúrio (designado por Budha graha e que tem o seu dia na 4ª feira: budha-vara).

Os Sete Raios Solares

Qualquer que seja a representação dada aos deuses ou forças criadoras, é fácil ver que radiavam do Sol, quão importantes eram aos olhos da Antiguidade as funções do Astro-rei e por que este foi tão universalmente celebrado e deificado pelos profanos. Trata-se, afinal, de um imemorial Heliocentrismo (3).

Este Heliocentrismo está pois implícito na questão dos Sete Raios Solares que se diferenciam da raiz-essência do nosso particular Cosmos – o Sistema Solar. Não obstante, tudo se coliga com Cosmos maiores e menores (uns dentro dos outros, até à Unidade final: há uma só Vida que integra miríades de Vidas), em consonância com o Princípio das Analogias ou Correspondências – “… o pequeno é como o grande…”

O Logos, o Verbo, a Palavra, Shabda-Brahman, Ishwara, o Poder Demiúrgico que está latente no Imanifestado (Parabhaman) traz os mundos e os seres à ex-istência (i.e., modo externo, condicionado de Ser). É o agregado de todos os Poderes Criadores e Directores de um Cosmos e das suas diferentes “partes” ou regiões. Embora seja a mais alta Consciência de um Cosmos, “é somente a unidade sintética no mundo do Logos manifestado – ou no plano da ilusão (4) – visto ser a soma total das consciências Dhyân-Chohânicas (5)”(6).

Indiferenciados no momento do Primeiro Logos (ou Logos Imanifestado), latentes como “colectividade abstracta” (7) no Segundo Logos (ou Logos Semi-Manifestado), e plenamente activos no Terceiro Logos (ou Logos Manifestado), há sete grupos principais de Poderes Criadores (8), de Dhyân-Chohâns, e tais são os Sete Raios (primordiais) no nosso Cosmos Solar.

São essas Sete Hostes Criadoras (cada uma incluindo muitas ordens e subdivisões) que produzem o Cosmos e irradiam as grandes virtudes (qualidades ou atributos) a desenvolver, actuando em todos os Planos do Cosmos Septenário e também no Microcosmos humano ou de quaisquer outros seres.

Os Sete Raios estão correlacionados (ou “presidem”) a todas as diferenciações septenárias: os Sete Planos (ou Sete Mundos do Ser), os Sete Princípios de Consciência, as Sete Cadeias, as Sete Rondas, os Sete Globos, os Sete Esquemas, os Sete Logoi Planetários, os Sete Planetas Sagrados (Saturno, Júpiter, Marte, Vénus, Mercúrio, o Sol e a Lua), os Sete Grupos Monádicos, os Sete Temperamentos humanos (9), as Sete Raças-Raiz, os Sete Grupos Humanos Primordiais, os Sete Grupos de Pitris, os Sete Rishis, os Sete Amigos de Agni, os Sete Espíritos diante do Trono (10), os Sete Amesha-Spentas do Mazdeísmo, os Sete Raios que Osíris levava ao entrar na arca, ou barca solar, os Sete Raios do Heptakis caldaico, as Sete letras do nome místico Abraxas do Gnóstico Basílides, as Sete Cores, as Sete Notas da escala musical, etc., etc., etc.

A conexão astronómica e astrológica dos Sete Raios é importante. As Hierarquias Criadoras normalmente referidas – que estão ligadas, cada uma delas, a um dos signos zodiacais – são 7+5. Conforme o ponto de vista incidente, é mencionado um conjunto de 12; e, destas, sete são mais relevantes. Mais habitualmente, alude-se às que tiveram uma relação especial com a Humanidade, acompanhando-a na sua evolução (sob diferentes perspectivas, haveriam outras a referir). Dessas, sete conservam alguma conexão com a Humanidade (não estamos a falar de mensagens ou protecções individuais – nada disso!), enquanto cinco já passaram mais além. Cada uma dessas sete tem uma ligação específica com os sete Princípios Humanos, com os sete Planetas e com os sete Signos Zodiacais de evolução estritamente humana: os do eixo que vai de Câncer-Leão até Capricórnio-Aquário. Cada um dos sete planetas sagrados é o regente de um desses signos. Cada Unidade Humana (Mónada) procede de um desses sete viveiros – Planetas, Raios, Energias Logóicas, Estrelas Monádicas – embora também receba influências dos outros nas suas muitas encarnações e em cada específico Princípio ou Veículo de Consciência.

Nos sete planetas sagrados, pode surpreender o facto de não se incluírem Urano e Neptuno; e de se referir o Sol e a Lua. Não existe, porém, qualquer equívoco. Tanto o Sol como a Lua estão em vez de Planetas invisíveis ou semi-invisíveis fisicamente e aos quais velam. Por outro lado, as fronteiras do nosso Sistema, stricto sensu, estão em Saturno. Neptuno (11) e Urano (12), e mais além, já são (de) “outra coisa”.

Muitas e muitas considerações Cosmogónicas adicionais caberiam aqui; no entanto, já em muitos artigos desta série Esoterismo de A a Z, em outros artigos, em livros, em cursos, seminários e conferências tratámos da questão cosmogenética, pelo que, agora, não iremos alargar-nos mais.

Os Nomes Sânscritos dos Sete Raios

Helena P. Blavatsky, a fundadora do movimento esotérico contemporâneo (o qual se iniciou em 1875), enumerou os Sete Raios Solares com o seu nome em Sânscrito:

1.Sushumnâ

2.Harikesha

3.Vishvakarman

4.Vishvatryarchâs

5.Sannaddha

6.Sarvâvasu

7. Svarâj

Teve a sábia autora o cuidado de esclarecer: “Os nomes destes sete Raios (…) são todos místicos, e cada um deles tem a sua aplicação distinta num estado de consciência diferente, para fins ocultos”, o que desde logo coloca a interrogação de como se fazem correspondências com os Sete Raios, sem ter em conta o Plano ou o Principio de Consciência em causa – quando, na verdade, em cada um destes, são diferentes aquelas correspondências…

No entanto, este é talvez um dos males menores no meio das camadas e camadas de fantasia, extrapolações bombásticas e afirmações simplistas ou ridículas que, a partir da morte de H. P. Blavatsky, têm sido feitas acerca desta temática (como, aliás, de várias outras).

Trata-se de um dos exemplos claros em que é necessário regressar a 1891, ano em que Helena Blavatsky nos deixou, e certificarmo-nos de que seguimos um caminho seguro, rectificando os que erradamente se tenham trilhando desde essa data.

Se é exacto que o tema foi introduzido por Helena Blavatsky e também por Subba Row, fontes confiáveis (sobretudo, claro, a primeira), a verdade é que uma maior divulgação surgiu na tremendamente questionável literatura de Leadbeater e, após, alguns outros autores de décadas intermédias (Geoffrey Hodson, Alice Bailey…), sem esquecer os grupos do género do movimento “I am”, veio a culminar na tremenda salada das últimas décadas, em que a mais impressionante confusão e ligeireza prevalecem.

Vejamos então o significado de cada um dos Sete Raios, partindo da sua etimologia na sagrada língua sânscrita:

1) Sushumnâ – É O Raio Solar, o primeiro, que contém a síntese de todos os outros, em si latentes. Sushumnâ é também o nome que alude a toda a coluna espinal (ao que já voltaremos); e, particularmente, o de um nervo espinal (canal ou nâdi) – portador de electricidade magnética (13) – que “relaciona o coração com o Brahmarandhra e desempenha um papel importantíssimo na prática do Yoga” (14). Ora, Brahmarandhra é um ponto no topo da cabeça (lembremos o centro de Poder e Sabedoria que é o Chakra de mil pétalas, também chamado Sahasrâra, o centro Coronário, por ele saindo o homem avançado no momento da morte física).

Não é difícil correlacionar o centro Coronário, e este Primeiro Raio, com Kether – a Coroa, o ponto inicial espoletador da Manifestação (todavia que permanece mais além dela), o Primeiro Motor, o Puro Ser, o Pai dos Deuses, o Rei da Idade Primeva, o Ancião dos Dias, a Chispa Divina que está no topo da Árvore da Vida.

Em A Doutrina Secreta (15), Helena Blavatsky esclarece que “a Escola trans-himalaica dos antigos râja-yoguis localiza o sushumnâ no tubo central da medula espinal, e Ida e Pingalâ nos seus lados esquerdo e direito”. Sushumnâ, Idâ e Pingalâ representam, à escala, os Pilares Central (Sushumnâ) e Laterais (Idâ e Pingalâ) da Árvore da Vida Cabalística. Esta vertical Coluna do Equilíbrio rasga o macro ou o microcosmos desde a mais elevada esfera até à inferior (Malkuth) (16), onde se reorienta ascendentemente (podendo aí seguir o “caminho da flecha”, como lhe chamam os Cabalistas: de Yesod a Tiphereth e desta a Kether).

Este Raio é, assim, o Eixo Central que divide o círculo.

Alguns Cabalistas correlacionam o Primeiro Raio com o caminho de Malkuth a Yesod. Yesod, onde se “enrosca Kundalinî”, o Poder Serpentino, é a Sephira da Vitalidade, do Prâna, o “Deus-Vivo-Todo-Poderoso” (“Shaddai el Chai”); e Prâna tem em Sushumnâ o seu conduto (17).

“O Sushumnâ, que, como é dito no Nirukta (II, 6) (18), serve apenas para iluminar a Lua, é não obstante o raio muito estimado pelos Yoguis iniciados” (19). Esta asserção confirma o Primeiro Raio como o que, espoletando a Manifestação, de que é o “ponto” primordial, permanece além dela. Não se expressa directamente no plano terreno, só o influenciando mediata ou indirectamente.

Os Gelukpa são a mais importante e a mais ortodoxa seita do Budismo tibetano. O seu Monastério original fica situado em Ganden, a 36 quilómetros de Lhasa e a uma altitude de 4300 metros

2) Harikesha ou Harikeza – Significa o de “cabelos amarelos” (20). O amarelo é a cor dos Instrutores de Sabedoria por excelência, naturalmente se associando com os deuses solares (por norma, “Salvadores do Mundo”). No Tibete, os Gelukpa ou Gelugpa (“Turbantes Amarelos”) representa(ra)m a sabedoria amorosa, compassiva, pura e altruísta, suportando a oposição dos dugpa (“turbantes vermelhos” (21)). Entretanto, Hari além de amarelo (ou até verde), significa igualmente “aquele que dissipa a ignorância” (pela Sabedoria, podemos subentender); é um dos epítetos de Vishnu, um dos elementos da Trimûrti pós-védica, ou seja, Shiva, Vishnu e Brahmâ. Vishnu é o Conservador, o que preenche o Cosmos e lhe mantém a coesão), sendo alvo de grande reverência na Índia, juntamente com alguns dos seus Avataras (Rama, Krishna)(22).

Na tradição dos 10 ou dos 21 Avatares de Vishnu, o Buda Gautama, conquanto heterodoxo relativamente ao “Hinduísmo”, é o penúltimo da série (depois de Krishna e antes do Kalkî, o Avatara do cavalo branco). O grande Mestre, que compassivamente restaurou o Dharma, é invariavelmente considerado um expoente do Segundo Raio (23).

É bastante significativo que Harikesha tenha o mesmo étimo, hari, que os Egípcios Hórus e Harvîri, que simbolizam o Sol. Em Grego, o infante Hórus, filho de Ísis, era Harpócrates, representado com o disco solar aureolando a cabeça e com cabelos dourados. “Doce é o seu amor em nós”, cantava um hino em louvor de Hórus, (protótipo de) o Christos (como Ísis o foi da mãe de Jesus, e a deusa egípcia com o menino ao colo o foi das Madonnas Cristãs).

Poderíamos ainda lembrar o menino da Idade de Ouro (e da Raça de Ouro), da Écloga IV da Eneida de Virgílio, com referência a Apolo, outro deus solar:

“… A grande série de séculos recomeça. / Já também retorna a Virgem, voltam os reinos de Saturno; / Do alto céu já é enviada uma nova geração. / Tu somente, casta Lucina, favorece ao menino que nasce, / Sob o qual primeiramente desaparecerá a raça de ferro / E surgirá no mundo inteiro a raça de ouro, já reina o teu Apolo. / E esta honra do tempo começará, e os grandes meses começarão / A suceder-se primeiramente sob o teu consulado, ó Polião, / Sob o teu comando”.

3) Vishvakarman – Nesta palavra congregam-se dois étimos: Karman, que significa “Acção” ou “Actividade”, e Vishva, que significa “Universal”. Podemos deste modo traduzi-la por “Actividade Universal”. Isto já seria bastante elucidativo. No entanto, as muitas referências a Vishvakarman na literatura Védica e Purânica, permitem-nos acrescentar mais e compreender melhor.

Ele é apresentado como o Arquitecto do Universo, e como o seu Artífice. É autor de todos os actos, aquele que tudo faz, que tudo cria, que tudo forma. Em dois hinos do Rig-Veda é apresentado como o Gerador Universal. Dele se diz, ainda, que é idêntico ao Hiranyagarbha, o radiante ou áureo Ovo ou Matriz; esotericamente, a luminosa “Névoa de Fogo” ou material etéreo, do qual se formou o Universo.

Existe uma lenda segundo a qual Vishvakarman ofereceu em sacrifício todos os seres, incluindo a si próprio. Construindo as formas encarnativas – porque só isso pode ser criado, e não o Espírito Imortal e Eterno, que não tem começo nem fim –, Vishvakarman efectivamente proporciona o sacrifício, pois tal é todo e qualquer envolvimento limitativo na severa restrição das formas materiais.

Vishvakarman é ainda o deus que tudo vê, aquele que em todos os lados tem olhos, rostos, braços e pés. A vista é um símbolo do Mental e o olho alude à cognição Espiritual (com a Mente Superior: Buddhi-Manas). Juntamente com o epíteto “Arquitecto”, leva-nos a pensar em Criação Mental-Arquetípica (como já dissemos anteriormente). Tem os olhos para ver o que e como Construir, e os meios mais concretos (braços, pés) para se dispor a objectivá-lo.

Assinala-se-lhe uma ligação com o vento (que é como aquele que é nascido Espírito: sopra onde quer; João, 3: 8) e, desse modo, com o sopro de vida, o alento vital.

Em algumas formulações cosmogónico-mitológicas pós-védicas, Vishvakarman é identificado com Tvachtri, o que nos permite uma compreensão adicional. Tvachtri é o Arquitecto ou o Carpinteiro Celeste – note-se: Celeste e não terreno ou físico. Constrói carros (carruagens), simbolizando a construção de veículos ou formas encarnativas, pelo que naturalmente é aludido como o formador dos corpos de homens e animais. Tal como Hefesto e Vulcano das mitologias Grega e Romana, constrói as armas dos deuses (como o raio de Indra) – sem uma forma substancial adequada, estes não poderiam agir. Enfim, é também o indutor ou fazedor de Fogo. Podemos lembrar aqui o Pentecostes, a descida do fogo do Espírito Santo na Tradição Cristã, depois do som de “um vento muito forte” (24)?

Tvachtri, como artífice dos deuses e forjador das suas armas é denominado Kâru, “artífice”; como carpinteiro é chamado Takchaka (25). Segundo A Doutrina Secreta, Tvachtri ou Tvast é o grande patrono dos Iniciados.

Repare-se que, na simbolismo da legenda Cristã, São José (26), a contraparte humana do Espírito Santo, por cuja acção a Virgem Maria teria concebido, era carpinteiro. Há uma Sabedoria Eterna, um Conhecimento Sagrado onde (as) diferentes Tradições Espirituais entroncam. A básica identidade de todas é a prova da magna verdade e da ciência universal e multimilenar que a todas subjaz e legitima, se correctamente interpretadas.

Julgamos ainda importante mencionar a ligação que é feita entre Tvachtri e a estrela Spica ou Virginis, a mais brilhante da faixa zodiacal de Virgem. Mercúrio é o regente deste signo…

4) Vizvatryarchâs – O triplo raio brilhando em todo o lado (27), uma vez que: Vishva – universal, todo; try – três, triplo; Archas – brilhando. O patamar ‘4’, tanto no Macro como no Microcosmos, é o de transição entre o espiritual e arquetípico, e o objectivo e concretizado. Pode ser Fohat /Eros no Cosmos manifestado. Pode ser o Kâma-Manas no Ser Humano, ou seja, um fragmento hipostático do Manas Superior unido pelo Kâma que o seduz para a existência objectiva – (re)encarnação –, constituindo o âmago de cada Personalidade. Assim, o ‘4’ enfeixa a tríade superior, os três princípios perenes, e fá-los brilhar no ponto de intersecção (também de fricção e conflito) com a natureza inferior-objectiva.

Vale aqui mencionar a asserção de que os Sete Raios são elaborações, combinações, desdobramentos da Trindade Hindu de Brahmâ, Vishnu e Shiva. No Quarto Raio, os três brilham todos em tudo.

Ainda, se considerarmos uma divisão tripla (no grande como no pequeno Cosmos), mais habitual na Tradição Ocidental – isto é, Espírito, Alma (Psiqué) e Corpo –, este quarto raio traduz o seu encontro, feito de Harmonia–Conflito–maior Harmonia (idêntico à Tese, Antítese e Síntese de Hegel), através do progressivamente ampliado Antahkarana. Tal leva à plena expressão do superior no inferior (que finalmente, consumindo-se, se consuma). “O Espírito mesmo dá testemunho de que somos filhos de Deus. E, se filhos, somos também herdeiros: herdeiros de Deus, e co-herdeiros de Cristo, ao sofrermos com ele, também com ele seremos glorificados. Tenho para mim que os sofrimentos da presente vida não têm proporção alguma com a glória futura que nos deve ser manifestada. Por isso, a criação inteira aguarda ansiosamente a manifestação dos Filhos de Deus… toda a criação geme e sofre como que dores de parto até ao presente dia” (Romanos, 8: 16-19 e 22).

5) Sannaddha ou Samnaddha – Da raiz verbal Nah (28), que significa “preparado para”, “equipado para”, “vestido”, “coberto”, “fornecido de [instrumentos]”, “prender”, “fixar” (29)”. Isto pode ter ligação com o facto de no patamar ‘5’ começar a Manifestação ou encarnação mais objectiva, e de as formas onde a Vida interior se expressa constituírem as vestes-que-cobrem mas também o equipamento, os instrumentos necessários para actuar nos níveis mais densos.

Entretanto, Saññâ, Samjñâ ou Sañjñâ pode ter o significado de Conhecimento total, bem como de Inteligência, percepção (mental), bom senso ou senso comum (30).

De acordo com os Purânas, Sañjñâ era filha de Vishvakarman – o que a correlaciona com um desdobramento (“filiação”) de Brahmâ ou Mahat (a Mente Cósmica), sendo assim Brahmâ também predominante neste Quinto Raio, relativamente a Shiva e Vishnu. Segundo o Vishnu Purâna (Livro 3, Capítulo 2), a mesma filha de Vishvakarman era casada com o Sol (Sûrya). Ora, Sañjñâ, “não podendo suportar os ardores do seu Senhor”, lhe deu a sua Chhâyâ (sombra, imagem ou corpo astral), enquanto se refugiava na floresta para praticar as suas devoções religiosas ou Tapas. O Sol, crendo que a Chhâyâ era a sua mulher, teve filhos com ela, como Adão com Lilith, uma sombra etérea também, como na fábula, embora fosse realmente uma fêmea monstruosa que viveu há milhões de anos atrás (31). Esta alegoria, bem provavelmente, alude às duas primeiras Raças do presente Período Global, quando era impossível (32) propiciar a forma mental para revestir o fogo solar – simbolicamente, Sañjñâ não aguentava tais ardores – e foram somente exsudadas as Chhâyâs, o Corpo Astral ou Linga-Sharîra, o molde que depois se foi densificando fisicamente. Havia então um abismo, entre o Homem Espiritual e o Homem Inferior ou Lunar, por falta de activação do princípio mental intermediário (33).

Por sua vez, addha pode significar “por este modo”, “claro, manifesto”, “certamente”, “verdadeiramente” (34).

Em resumo, parece que este Quinto Raio provê o equipamento para se obter um Conhecimento Mental claro, certo e verdadeiro.

6) Sarvâvasu – O Dicionário de Sânscrito-Inglês de Monier Williams (35) somente nos oferece a vaga noção de “um particular raio de Sol”.

Sarvâvasu é composto a partir de sarvâ e vasu: sarvâ envolve a ideia de todo, tudo, universal; também pode ser um dos nomes de Krishna (36) – o Avatara ou forma de Vishnu, a quem na Índia se dedica a mais ardente devoção. Vâsu, é o nome de um dos doze Adityas, uma das doze divindades solares, e significa “excelente” “bom”, “beneficente” (37). O epíteto foi usado no Maha-bharata tanto para Maha-Vishnu (Anusasana-Parva, Cap. 149, Estância 25) quanto como sinónimo de Shiva (Anusasana-Parva, Cap. 17, Estância 140). Nos Vedas, Sarva é chamado “Destruidor”. Isto parece indicar uma combinação predominante da força de dois dos “integrantes” da Trimûrti, provavelmente pela ordem Vishnu-Shiva. Teríamos deste modo um anseio pelo bom e excelso, impetuoso e até destrutivo no seu caminho: “O Reino dos Céus conquista-se pela violência” (Mateus, 11: 12).

Teríamos a seguinte ordem de proporções da Trimûrti nos Sete Raios: I – Shiva, Vishnu, Brahmâ; II – Vishnu, Brahmâ, Shiva; III – Brahmâ, Vishnu, Shiva; IV – mesma proporção das três; V – Brahmâ, Shiva, Vishnu; VI – Vishnu, Shiva, Brahmâ; VII – Shiva, Brahmâ, Vishnu.

Notemos a analogia com os globos da Cadeia Planetária. Tal Do mesmo modo como existe uma particular “simetria” entre os globos ‘A’ e ‘G’, ‘B’ e ‘F’, ‘C’ e ‘E’, assim acontece com o Primeiro e o Sétimo Raios, o Segundo e o Sexto, o Terceiro e o Quinto. Como um leque que abre e fecha, com a charneira no Quarto.

Parece destacar-se neste Sexto Raio o anseio ardente e a dedicação pelo que é excelente, bom e transcendente às imperfeições.

7) Svaraj – O termo é constituído por dois étimos: sva, que transmite a ideia de “próprio”, de “auto”; e raj, que indica “governo”, “soberania”, “realeza”. Temos então o auto-governo, a auto-determinação (38), a ordem livremente querida e assumida pelo próprio, individual, conscientemente, isto é, por sua mesma determinação. E tal poderá ser uma ordem libertadora dos caprichos e devaneios do nosso psiquismo inferior, ou Kâma-Manas. Está aqui implícita a dualidade contrastante em cada um – a natureza superior e a natureza inferior. Idealmente, a primeira sobrepõe-se, comanda e (re)organiza a segunda, que se ajusta àquela, que a assume, que se liberta, que se reconduz à unidade do Eu Real, que assim resplandece (auto-resplandescente é outra tradução possível de Svaraj (39)). Por ser o último dos Sete Raios solares, por corresponder à última das esferas é um raio sintético (a título de imagem: se um elevador passa por sete andares ou níveis, em todos recolhendo algo, é no último que tudo se junta).

Considerações finais

Não duvidamos de que este nosso trabalho tenha pontos a corrigir e, ainda mais, a acrescentar. É um estudo que não estava feito (pelo menos, que conheçamos), onde nos surgiram dúvidas que, por vezes, não desvanecemos totalmente (40) – donde o recurso a palavras como “parece” ou a formas verbais condicionais.

Não obstante, julgamos, e sinceramente esperamos, que este esforço, feito com toda a seriedade e isenção que nos foram possíveis, estabeleça fundamentos mais sólidos que se haviam perdido, e abra caminho para trabalhos posteriores, de ampliação ou aperfeiçoamento, levados a efeito feitos por outros investigadores e estudantes da Sabedoria (incluindo, talvez, nós próprios). Em todos os campos, de resto, tal é necessário, para joeirar tudo o que se afirmou depois da morte de Helena Blavatsky, descartando-nos de tudo o que é falso, errado ou enganoso, e resgatando o que de bom, certo e útil tenha resultado de genuínas e lúcidas boas-intenções.

José Manuel Anacleto

Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

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(1) Prajâ-pati – Etimologicamente, “Senhor da Criação”. Um nome de Brahmâ, o Criador. Prajâpatis são os sete (ou dez) grandes Progenitores. Na filosofia esotérica fala-se dos Prajâpatis superiores (Pitris Solares, incluindo os Kumâras), que são os progenitores do verdadeiro Eu espiritual do homem; e dos Prajâpatis inferiores (Barichad-Pitris ou Progenitores Lunares), que são os pais do modelo ou tipo da forma física humana, feita à sua imagem.

(2) John Dowson, A Classical Dictionary of Hindu Mythology and Religion, Geography, History and Literaure, Routledge Keagan Paul, Ltd., 1972, Londres, p. 364.

(3) Escrevemos abundantemente acerca disto no nosso livro Alexandria e o Conhecimento Sagrado, Centro Lusitano de Unificação Cultural – Colecção Aletheia, Lisboa, 2008.

(4) … Da Ilusão, sim, porque para o Ocultismo só é Real aquilo que é Eterno, Uno, Infinito, Imutável.

(5) Consciências Dhyân-Chohânicas, ou seja dos Dhyân-Chohâns, que em língua sânscrita designam os Senhores da Luz, as inteligências divinas que superintendem no Cosmos.

(6) Helena Blavatsky, A Doutrina Secreta, Editora Pensamento, S. Paulo, 1973, Vol. II, p. 284.

(7) Transactions of the Blavatsky Lodge (Theosophy Company, Los Angeles, 1987, p. 83); o texto está também incluído em Blavatsky Collected Writings, Vol. X (The Theosophical Publishing House, Wheaton, Adyar, reimpressão da 2ª ed., 1988; no caso, ver p. 351). As Transactions são do maior valor, pois contêm notas estenográficas de reuniões de Helena Blavatsky com alguns dos seus melhores discípulos em 1889, que lhe colocavam perguntas sobre A Doutrina Secreta, representando as respostas de HPB um complemento muitíssimo esclarecedor das partes da obra sobre as quais incidiram.

(8) Hierarquias Criadoras – ou, no Judaísmo-Cristianismo, Coros Angélicos

(9) “Ensina o Ocultismo que a Humanidade está dividida em sete Grupos distintos, com as suas subdivisões mentais, espirituais e físicas”. Helena Blavatsky, A Doutrina Secreta, op. cit, Vol. II, p. 284.

(10) Apocalipse, 1: 4 e 4:5.

(11) A Doutrina Secreta, op. cit., Vol. I, p. 154, nota 99.

(12) José Manuel Anacleto, Alexandria e o Conhecimento Sagrado, op. cit., pp. 714-5.

(13) Subba Row, Esoteric Writings, The Theosophical Publishing House, 2ª ed., 2002, p. 552, ou Consciencia e Inmortalidad, Kier, Buenos Aires, 1994, pp. 104-5. Nas mesmas pp. também se pode ler: “A Kundalinî, às vezes, chega-se a chamar Sushumnâ”.

(14) Helena Blavatsky, Glossário Teosófico, Ground, S. Paulo, p. 662.

(15) Vol. III, p. 503.

(16) Em hebraico, Kav, Raio ou Linha de Luz Infinita, o Raio Matinal, representa a mesma ideia.

(17) Georg Feuerstein, The Yoga Tradition, Hohm Press, Prescott, Arizona, 1998; p. 352.

(18) É um dos vedangas, o “grupo de textos que lida com os seis assuntos considerados essenciais para a compreensão dos Vedas. São eles: Shiksha, fonética ou pronunciação; Vyakarana, gramática; Chhandas, métrica; Nirukta, etimologia ou glossário; Jyotisha, astronomia e astrologia, essencial para fixar a altura adequada para cerimónias e sacrifícios; Kalpa, regras para sacrifícios. Consistem principalmente de sutras, ou pequenos aforismos” (Roshen Dalal, The Penguin Dictionary of Religion in India, Penguin Books Índia, Nova Deli, 2006, p. 498.

(19) G. de Purucker, Geoffrey Barborka, Graça F. Knoche, Henry T. Edge e outros, Encyclopedic Theosophical Glossary, p. 2011.

(20) Glossário Teosófico, de Helena Blavatsky (Ground, S. Paulo), p. 219.

(21) Ao contrário do que alguns supõem, no Tibete houve e há de tudo, desde o melhor, desde grandes e compassivos Sábios, passando por mentes adormecidas, e chegando a poderes tenebrosos. Onde há a Luz, há (se lhe opõem) as trevas, no nosso mundo dual. (22) No mantra “Hare Krishna” (Hare Krishna Hare Krishna / Hare Rama Hare Rama / Krishna Krishna Hare Hare / Rama Rama Hare Hare), “Hare” pode ser interpretado tanto como o vocativo de Hari – um dos nomes de Krishna, significativo de “aquele que remove a ilusão” –, ou como o vocativo de Harâ, um nome de Râdha, a eterna consorte ou Shakti de Krishna. De acordo com o que sustenta A. C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada, o fundador acharya da Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna, Harâ refere a “energia da Divindade”, enquanto Krishna e Rama aludem à própria Divindade.

(23) Cfr., entre outros, Subba Row, op. cit., pp. 526 e 121).

(24) “Relatado” nos Actos dos Apóstolos, 2: 1-4.

(25) Isabel Nunes Governo, Mitos e Tradições, Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 2010, pág. 193, nota 38.

(26) … Mestre-Construtor…

(27) Encyclopedic Theosophical Glossary, op. cit., p. 2267.

(28) Idem, p. 1779

(29) M. Monier Williams, Sanskrit-English Dictionary, Munshiram Manoharlal, Nova Deli, 8ª impressão, 2008, p. 1146.

(30) GlossárioTeosófico, op. cit., p. 607.

(31) A Doutrina Secreta, op. cit., Vol. III, p.191.

(32) Porque prematuro…

(33) Acerca dos períodos Globais (Rondas e Cadeias) e das Sete Raças, remetemos para o nosso artigo “Lemúria”, publicado no nº 29 da Biosofia (Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, Outono 2006).

(34) M. Monier Williams, Sanskrit-English Dictionary, op. cit., p. 19.

(35) Idem, p.1188.

(36) Vettam Mani, Puranic Enciclopaedia, Motilal Banarsidass, Nova Deli, Varanasi, Patna, 1975, p. 698.

(37) M. Monier Williams, Sanskrit-English Dictionary, op. cit., p. 939.

(38) Humberto Álvares da Costa, Psicanálise da História – Os Ciclos Espirituais da História, Zéfiro, Sintra, 2010, p. 266. Este é um livro onde se estudam as forças/qualidades dos Raios nos ciclos e sub-ciclos históricos, outro esforço de fundamentação.

(39) Encyclopedic Theosophical Glossary, op. cit., p. 2023.

(40) É o caso do Sexto Raio.

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