Xisustro – o Noé Caldeu

 Uma das pistas mais preciosas de que podemos dispor para conhecer o longo passado da nossa Terra (e dos seres que nela habitam) é, sem dúvida, o testemunho unânime, ou pelo menos alargadamente repetido no espaço e no tempo, sobre a ocorrência de determinados factos.

Sensatamente, não devemos desprezar esses testemunhos. Fazê-lo, seria incorrer no pressuposto de que (quase) todos os Antigos eram tolos ou alucinados, e que só a nossa civilização, dita moderna e ocidental, tem o privilégio da razão. Com efeito, de que outro modo explicaremos os relatos e tradições fundamentalmente concordantes?

Não se trata, é claro, de aceitar acriticamente esses testemunhos mas de dar-lhes a atenção devida (sem complexos de superioridade 1) e de saber distinguir o essencial – que frequentemente é comum a todos – do acessório e epidérmico – que é naturalmente distinto, por surgir em contextos históricos, geográficos, cronológicos e culturais algumas vezes muito diversos.

Um desses casos, é o de um Dilúvio Universal, implicando uma radical renovação da vida – não só humana mas, também, animal e mesmo vegetal (“E eu, eis que estabeleço a minha aliança convosco e com a vossa descendência depois de vós. E com toda a alma vivente, que convosco está, de aves, de gado, e de todo o animal da terra convosco; com todos que saíram da arca, até todo o animal da terra”. Genesis, 9: 9-10). Encontramos-lhe referências abundantíssimas, em latitudes bem diversas.

A mais conhecida, na nossa cultura, é a versão bíblica, a famosa Arca de Noé, apresentada no Genesis, Capítulos VI a IX.

No entanto, muitas outras versões semelhantes, algumas delas mais antigas, existem em diferentes tradições mítico-religiosas, civilizações e culturas, mostrando, assim, que se trata de uma tradição universal. Vejamos em seguida alguns exemplos.

Xisustro e muitos outros

* Xisustro ou Sisistro, de acordo com a versão de Berossus 2, conservada por Alexandre Polyhistor, e confirmada nas tábuas assírias (tábua nº 11) 3, teria reinado dezoito saris 4 e nesse período (várias centenas de milhares de anos antes da data atribuída a Noé na literalidade da Bíblia) teria ocorrido um grande dilúvio. Foi o último dos dez reis da dinastia divina, que durou 120 saris, ou seja, um total de 432 000 anos 5. Numa visão, ele foi informado pelo deus Ea (o Senhor das Águas e da Sabedoria) 6, da proximidade desse evento, recebendo também indicações para… construir uma Arca, onde deveria recolher-se, com os seus parentes e diversos animais da terra e do ar, durante o cataclismo. Como em outros relatos semelhantes, a Arca foi feita de madeira de acácia – símbolo de pureza, de imortalidade e de iniciação para uma nova vida (“há que saber morrer para viver na eternidade”).

Quanto ao simbolismo da arca (a argha caldeia), ela representa a matriz da Natureza (a Grande Mãe). É o Repositório ou “Chaos” onde se guardam os germens criadores, os arquétipos de todas as coisas, o produto da evolução já conquistada e a latência da evolução por consumar.

 

Segundo Helena Blavatsky, também Xisustro “soltava as aves da arca, que a ela voltavam. Passados alguns dias, soltou-as novamente e elas regressaram com as patas cobertas de lodo; na terceira vez, as aves não regressaram. Encalhado no alto de uma elevada montanha arménia [o Monte Ararat, como na versão do Genesis], Xisustro desce e constrói um altar aos deuses. Somente aqui surge uma divergência entre a lenda politeísta e a monoteísta [a posterior, de Noé]. Xisustro, após adorar e dar graças aos deuses pela sua salvação, desapareceu e os seus companheiros ‘não o viram mais’. A história nos informa que, devido à sua grande piedade, Xisustro e a sua família foram levados a viver com os deuses, como ele mesmo disse aos sobreviventes. Pois, embora o seu corpo tenha desaparecido, a sua voz foi ouvida no ar, dizendo, após inteirá-los do ocorrido, que voltassem à Babilónia e dessem o devido respeito à virtude, à religião e aos deuses. Isto é mais meritório do que plantar videiras, embriagar-se com o sumo dos seus cachos e maldizer o seu próprio filho” 7.

Esta última frase, com um humor bem caracteristicamente de HPB, faz alusão ao que, na Bíblia, se escreve sobre a vida de Noé, depois do “episódio” do Dilúvio:

E começou Noé a ser lavrador da terra, e plantou uma vinha. E bebeu do vinho, e embebedou-se; e descobriu-se no meio de sua tenda. E viu Cão, o pai de Canaã, a nudez do seu pai, e fê-lo saber a ambos os seus irmãos no lado de fora. Então tomaram Sem e Jafé uma capa, e puseram-na sobre ambos os seus ombros, e indo virados para trás, cobriram a nudez do seu pai, e os seus rostos estavam virados, de maneira que não viram a nudez do seu pai. E despertou Noé do seu vinho, e soube o que o seu filho menor lhe fizera. E disse: Maldito seja Canaã; servo dos servos seja aos seus irmãos” (Genesis, 9: 20-25).

Entretanto, há um sentido simbólico para estas passagens, aparentemente tão estranhas, para o qual, de resto, a própria Helena Blavatsky abriu a porta: “Noé é o ‘espírito’ que cai na matéria. Assim que desce à Terra, ele planta uma vinha, bebe do vinho e se embebeda; i.e., o espírito puro fica intoxicado na medida em que é finalmente aprisionado na matéria” 8. Outros desenvolvimentos nesta mesma linha podem ser encontrados num artigo do Dr. Humberto Álvares da Costa, para o qual remetemos 9.

A história do Dilúvio caldeu não fazia parte do ciclo de Gilgamesh na literatura suméria, embora mais tarde nele se incorporasse. Era um poema independente, que tinha, no papel equivalente a Noé, um herói (e rei) chamado Ziusudra (tudo indica, o mesmo que Xisustro), que significa “ele viu a vida”. Na versão acadiana, o grande protagonista é Utnapishtim 10. Há também um “Dilúvio” babilónico arcaico, datando da primeira metade do segundo milénio, no qual o herói se chamava Atrahasis; mas, aqui, o dilúvio é o último de uma série de catástrofes enviadas para destruir a humanidade.

Tudo indica que entre as fontes sumérias, mesopotâmicas, caldaicas, babilónicas, assírias, hititas e cananeias, com as suas semelhanças essenciais, esteve a matriz de onde se decalcou o Genesis judaico e, nomeadamente, a sua história do dilúvio 11, confirmando “a influência enorme exercida pela civilização babilónica sobre as tribos semitas que permaneceram nómadas ou que faziam timidamente os primeiros ensaios no domínio da agricultura” 12.

* Na Índia, há o dilúvio associado ao Manu Vaivasvata, o qual, na versão dos Puranas 13 e do Mahâbharata, bem como do Satapatha Brahmana, depois de embarcar numa Arca, com sete Rishis (grandes Instrutores) e todas as sementes de vida, tanto animais como vegetais, é salvo pelo Peixe Matsya, um dos Avataras de Vishnu. A arca navegadora foi deposta no topo dos Himalaias. Passado o dilúvio, o Manu “cria todos os seres vivos, deuses, semi-deuses, homens, animais e plantas através de práticas ascéticas” 14.

* Na mitologia Grega, Deucalião é o equivalente de Vaisvasvata, de Xisustro e de Noé. Zeus decidiu acabar com o género humano, por causa da maldade deste. Às chuvas diluvianas, sobreviveram Deucalião (filho de Prometeu), a sua esposa Pirra (filha de Epimeteu) e a sua progenitura. Também nesta versão, teve Deucalião que construir uma arca, aí se protegendo com a sua família e um par de animais de cada espécie. “A arca flutuou durante nove dias, até que finalmente as águas retrocederam e a embarcação pousou no monte Parnaso, ou, na opinião de outros, no Etna, ou no Athos, ou no monte Otris da Tessália” 15. Igualmente neste “caso”, Deucalião atestou o fim do dilúvio através do lançamento de uma pomba.

Aspecto curioso nesta versão é que houve outros (raros) sobreviventes para além da família de Deucalião e Pirra: os habitantes de Parnaso, Megaro e Cerambo 16. Alegoricamente é significativo, pois nos dilúvios que marcam o fim de um ciclo de raça-raiz, permanecem remanescentes de raças anteriores.

Ressalte-se ainda que Deucalião era, etimologicamente, “o marinheiro do novo vinho” (de deucos e halieus); a sua irmã Ariadne aparece fortemente associada ao culto do vinho; Pirra (nome grego de Ishtar) significa “vermelho vivo” e é um adjectivo aplicado ao vinho 17. Relembremos a relação de Noé com o vinho, acima aludida…

* Pode também ser referido o dilúvio da Samotrácia, no qual as águas do Mar Negro chegaram até aos topos das montanhas mais elevadas, no tempo do rei… Xissutre. Os deuses enviaram-lhe uma embarcação, que flutuou por muito tempo nas montanhas arménias, e onde se abrigaram exemplares de vários animais, dos quais as pombas lhe permitiram saber do fim do dilúvio, etc. – isto é, à semelhança das versões anteriores.

* Na mitologia irlandesa, temos igualmente a destruição das raças antigas. “Só Fintan mac Bóchra, homem primordial, escapou ao dilúvio (…) antes de voltar a transmitir aos sábios da Irlanda toda a ciência tradicional de que era depositário” 18. É bastante significativa esta referência a uma Transmissão da Sabedoria das Idades. Tal ocorre sempre em cada novo grande ciclo que se inicia, para o dotar do que seja necessário (e como for necessário) do Conhecimento Sagrado. A versão, contida no Mahâbharata e já acima mencionada, dos sete Rishis que acompanharam o Manu Vaisvasvata na sua embarcação, ilustra-o perfeitamente. Adicionalmente, são conferidas as bases essenciais das várias artes e ciências práticas.

*Numa outra versão celta, sobreviveu ao dilúvio “apenas um casal de justos, Dwyfan e Dwyfach. Construíram uma arca e nela fizeram entrar macho e fêmea de cada espécie existente na Terra. A Dwyfan e Dwyfach e à sua progénie, Hu ensinou a agricultura e outras maravilhas. Ensinou, por exemplo, a arte do canto, como estímulo para que os homens construíssem a memória… Distribuiu-os a todos em tribos e, tempos depois, conduziu uma delas, os cymri ou celtas, à Bretanha” 19.

* Segundo a mitologia eslava, também “ocorreu outro dilúvio em que se afogou todo o género humano, restando apenas um homem e uma mulher” 20. O Noé eslavo chamava-se Belgamer ou Belgelmir 21.

* “Yima, por seu turno, foi o ‘Noé’ da antiga civilização iraniana” 22.

* Temos, igualmente, a tradição Egípcia: “… no tempo do rei-patriarca Menei todo o Egipto era um mar, à excepção da província de Tebas – o que faz aludir ao fenómeno do Dilúvio e à Arca (Thbe) que dele se salvou. Rezam as crónicas egípcias que em Tebas foi construída uma grande nave ou (b)arca com 300 côvados de comprimento. Lembremos que a Arca de Noé tinha 300 côvados de comprimento… Heródoto menciona que duas pombas foram enviadas de Tebas; por seu turno, Noé lançou uma pomba, por duas vezes, da sua Thbe, para se certificar se a terra estava seca. Os habitantes de Tebas vangloriam-se de terem sido os primeiros a conhecer a vinha; Noé, saindo da Arca, plantou uma vinha” 23.

* Entre os Chineses, é Peirun ou Peiru-un (o “amado dos deuses”) que, juntamente com a sua família se salva do dilúvio 24, pois fora alertado por dois oráculos sobre a catástrofe eminente. Peirun é, na tradição, o fundador da China e o progenitor dos seus povos, ali tendo chegado após o afundamento da ilha-continente de Maurigasima.

* “Povos do Brasil contam que um estrangeiro muito poderoso, que odiava extremamente os seus antecessores, fê-los morrer através de uma violenta inundação, excepto dois, que reservou para engendrar novos homens, dos quais se consideram descendentes” 25. De resto, no mesmo Brasil, versões de dilúvios fizeram-se presentes em tribos, de várias regiões, como os tupinambás, os tupis, os coroados, os cuicuros e os carajás do Araguaia.

* Ainda no continente americano, há registos no México e também no Perú, onde se alude ao significativo número de sete Incas que voltaram a povoar a terra depois do diluvio.

* Outras mais histórias sobre um dilúvio se encontram na Lituânia, no País de Gales, na Birmânia, na península Malaia, entre os aborígenes na Austrália, na Nova Guiné, na Polinésia 26, na Melanésia, na Micronésia, na Indonésia, entre os Esquimós, etc. – e em geral em todos os continentes (se bem que mais raramente em África)27.

Dilúvios e Ciclos de Manifestação

Mircea Eliade, reconhecido estudioso do sagrado escreveu: “O dilúvio é o sinal da germinação e da regeneração. Um dilúvio não destrói senão na medida em que as formas estão usadas e gastas, mas a ele segue-se sempre uma nova humanidade e uma nova história. O dilúvio evoca a ideia de reabsorção da humanidade na água e a instituição de uma nova era, com uma nova humanidade. Podemos associá-la ao afundamento dos continentes sob as águas, como no mito geográfico, ou talvez à realidade da Atlântida [e, cabe acrescentar, da Lemúria]. O dilúvio está muitas vezes associado às faltas da humanidade, morais ou rituais, pecados e desobediências às leis e às regras. O dilúvio purifica e regenera tanto quanto o baptismo; é um imenso baptismo colectivo, decidido, não por uma consciência humana, mas sim por uma consciência superior e soberana. O dilúvio revela como a vida pode ser valorizada por uma outra consciência que não é a consciência humana… a vida humana aparece como uma coisa frágil que é preciso reabsorver periodicamente, porque o destino de todas as formas é o de se dissolverem, a fim de poderem reaparecer. Se as formas não fossem regeneradas pela sua reabsorção periódica nas águas, esboroar-se-iam, esgotariam as suas possibilidades criadoras e extinguir-se-iam definitivamente. As maldades, os pecados acabariam por desfigurar a humanidade; esvaziada de formas e de forças criadoras, a humanidade estiolaria, decrépita e estéril. Em vez da regressão lenta a formas sub-humanas, o dilúvio leva à reabsorção instantânea nas águas, nas quais os pecados são purificados e das quais nasce a humanidade nova, regenerada” 28.

É uma formulação bastante digna e consistente. Além do mais, menciona o desaparecimento de massas continentais que foram o lar predominante de fases evolutivas da Humanidade denominadas Raças-Raiz 29.

Em todo o caso, como previne H. P. Blavatsky, “‘Os Períodos Glaciares’ foram numerosos, o mesmo acontecendo com os ‘Dilúvios’… A nossa quinta Raça – a [grande] parte da mesma que não é constituída por Iniciados – ouvindo falar de muitos dilúvios, confundiu-os, e agora somente reconhece um, que alterou o aspecto inteiro do Globo, com as suas mudanças de terras e de mares… Mas qual foi o nosso Dilúvio? … aquele que até esta data continua consignado nas tradições de todos os povos, desde a mais remota antiguidade; o que varreu finalmente as últimas penínsulas da Atlântida, principiando por Ruta e Datya e concluindo com a ilha, comparativamente pequena, mencionada por Platão [no Timeu]… O pequeno dilúvio, cujas marcas o Barão de Bunsen encontrou na Ásia Central, e que ele faz remontar aproximadamente a 10.000 anos antes de Jesus Cristo, nada teve que ver com o dilúvio semi-universal [o antes referido], o Dilúvio de Noé (uma versão puramente mítica de antigas tradições), nem sequer com a submersão da última ilha atlante; ou, pelo menos, só tem com eles uma conexão moral… O Dilúvio, o chamado ‘universal’, que afectou à Quarta Raça-Raíz [a Atlante]… é o dilúvio de que primeiramente se apercebeu a Geologia… Essa Terra ‘Atlântica’ é a que estava unida com a ‘lha Branca’, e esta Ilha Branca era a de Ruta… Convirá observar aqui que, segundo os textos sânscritos, o Dvapara Yuga [a Idade de Bronze] dura 860.000 anos; e que só principiou o Kali Yuga [a Idade Negra] há cerca de 5.000 anos, pelo que transcorreram exactamente 869.000 anos [até 1888, data em que a Autora publicou estas linhas] desde que ocorreu aquela destruição (a primeira das que desmantelaram a Atlântida); por outra parte, estas cifras não diferem muito das apresentadas pelos geólogos, que fazem remontar o seu período glaciar a 850.000 anos atrás” 30. Distintos “dilúvios” – referentes a distintos ciclos e sub-ciclos de manifestação, universais, semi-universais e locais, podem ser acompanhados através de uma Lei de analogia.

Também é exacto que a ocorrência dos grandes dilúvios costuma ser relacionada com a punição de faltas da Humanidade, nas tradições religiosas exotéricas. No entanto, do ponto de vista esotérico não é bem assim. Aqueles eventos devem ser considerados em analogia com os movimentos cíclicos Pralaya-Manvantara, Imanifestação-Manifestação, inspiração-expiração, e com as razões pelas quais necessitamos de dormir e retroagir a planos mais internos e causais entre dois renascimentos.

Em cada ciclo de existência, o impulso puro inicial e a força do fluxo vital acabam por se ir debilitando e, por isso, cristalizando, estagnando, degenerando – o que, efectivamente, leva a que o mundo decline em virtude e em justiça e impere o vício e a arbitrariedade 31. Deste modo, é necessária a renovação das forças noéticas, criadoras e vitais e o surgimento de novas formas, adequadas para a sua expressão.

Lembremos as palavras de Helena Blavatsky na exposição da segunda proposição de síntese da Doutrina Secreta:

“’O aparecimento e desaparecimento dos Mundos são como o fluxo e o refluxo periódicos das marés’. Esta segunda asserção da Doutrina Secreta é a absoluta universalidade desta lei da periodicidade, de fluxo e de refluxo, de maré enchente e vazante, que a ciência física tem observado e registrado em todos os domínios da Natureza. Alternâncias como Dia e Noite, Vida e Morte, Sono e Vigília, são um facto tão comum, tão perfeitamente universal e sem excepção, que é fácil de compreender porque aí divisamos uma das Leis absolutamente fundamentais do Universo”.

É neste contexto, evidentemente, que podemos compreender o surgimento dos dilúvios.

Recordemos que a Lemúria (ou grande parte dessa massa territorial que foi o fulcro da Terceira Raça-Raiz) também submergiu nas águas (como a Atlântida), embora as convulsões que a tal evento deram origem fossem de natureza ígnea (fogo). A água, tanto física como simbolicamente, não surge por acaso: ela é o solvente universal. Primeiro princípio das coisas, segundo Tales de Mileto e outros filósofos-cientistas da Antiguidade, ela expressa o fluido potencial infinito contido no espaço 32.

Daí, pois, brotam as subsistentes potências logóicas seminais de um novo ciclo de vida. Aludimos aqui à expressão grega logos spermatikôs, usada por Cleanto e pelos estóicos em geral, para afirmar que todo o ser vivo procedia de uma semente, que devia encerrar os germes particulares ou “razões seminais” das suas partes. Cada germe, por menor que fosse, deveria conter todas as partes do organismo a ser formado. Para os estóicos, à semelhança dos postulados da Sabedoria Universal, todos os seres são viventes (mesmo os que julgamos inorgânicos), todos têm uma “razão seminal”, um logos spermatikôs.

Nesta senda, cabe realçar como nos relatos das arcas diluvianas se valora a vida animal, também ela embarcada e salva das águas, com a cooperação (em lugar da perseguição) dos seres humanos. É toda a vida animal preservada – não apenas o gado e os animais “domésticos”. Trata-se de uma lição a ter em conta. O planeta é um holossistema, e todos os seres que nele habitam são inter-dependentes.

José Manuel Anacleto

Presidente do Centro Lusitano de Unificação cultural

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1 Complexos de superioridade injustificáveis, porque em todas as épocas houve grandes manifestações de sabedoria e conhecimento – e esperemos que a Humanidade do futuro seja mais benevolente no seu julgamento para connosco, apesar do nosso comportamento colectivo daninho em tantos aspectos, do que o temos sido para com a Antiguidade.

2 Acerca de Berosus, cfr. José Manuel Anacleto, Alexandria e o Conhecimento Sagrado, Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 2008; p. 32 e ss.

3 George Smith, Chaldean Account of Genesis, Wizard Bookshelf, San Diego, 1994, reprodução da edição original de 1876, pp. 42 a 47 e 263 e ss.. Aqui podem ser encontrados registros dos materiais mais tarde reunidos nos Capítulos VI e VII do Genesis.

4 Sari – Um período de 3 600 anos.

5 Recorde-se a importância desta cifra, de acordo com as coordenadas cosmogónicas da Sabedoria Hindu. Sobre isto, aliás, discorremos nas pp. indicadas do livro Alexandria e o Conhecimento Sagrado.

6 Entre os Caldeus, a trindade do Deus Uno era formada por Anu ou Ana (o Senhor do Céu), Bel (o Senhor da Terra) e Ea.

7 Helena Blavatsky, Glossário Teosófico, Ed. Ground, São Paulo, p. 753.

8 Ísis Sem Véu, Vol. IV, Ed. Pensamento, S. Paulo, 1990; p. 70.

9 “O Vinho dos Sentidos”, Biosofia nº 9, Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 2001; p. 42 e ss.

10 Mircea Eliade, A History of Religious Ideas, Vol. I; The University of Chicago Press, Londres, 1978; p. 62.

11 A este propósito, cfr. Helena P. Blavatsky, Ísis sem Véu, Vol. IV, Ed. Pensamento, S. Paulo, 1990; p. 69

12 Alexandre Haggerty Ktappe, Mythologie Universelle, Payot, Paris, 1930; p. 344.

13 Nomeadamente o Matsya-Purana, o Agni-Purana e o Bhagavat-Purana (neste, em vez de Manu, surge o nome Satyavrata).

14 Alexandre Haggerty Ktappe, op. cit., p. 157.

15 Robert Graves, Los Mitos Griegos, RBA, Espanha, 2009; pp. 156-7.

16 Idem, p. 157.

17 Ibidem, p. 159.

18 Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, Dicionário dos Símbolos, Teorema, Lisboa, 1994; p. 266.

19 Isabel Nunes Governo, Mitos e Tradições a Uma Luz Ocultista, Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 2010; p. 261

20 Helena. P. Blavatsky, op. cit., p. 147.

21 Isabel Nunes Governo, op. cit., p. 78.

22 Idem, p. 78.

23 Ibidem, p. 77-8.

24 Helena P. Blavatsky, Idem.

25 Ibidem.

26 “… o mito do dilúvio é conhecido dos Polinésios, sob formas diversas mas suficientemente originais para excluir qualquer influência bíblica, e (…) numa extensão das mais vastas, desde a Nova Zelândia até ao Havai” (Alexandre Haggerty Ktappe, op. cit., p. 390).

27 Mircea Eliade, op. cit., pp. 62-3.

28 Reproduzido de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, op. cit, pp. 265-6 ; Mircea Eliade, Traité d’Histoire des Religions, Paris, 1949; pp. 144 e 183.

29 Acerca do conceito de Raça-Raiz e do sistema em que se insere, remetemos para o nosso artigo “Lemúria” publicado nas pp. 24-33 do nº 29 da Biosofia, Centro Lusitano de Unificação Cultural, 2006, Lisboa.

30 Helena P. Blavatsky, A Doutrina Secreta, Ed. Pensamento, S. Paulo, 1973; Vol. III, pp. 157 e ss.

31 Bhagavad Gîta, 4: 7.

32 Helena Blavatsky, Glossário Teosófico, p. 41.

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