(De)Crescimento

O dia de hoje, 1 de Maio, é paradoxal. Celebra-se o trabalhador, na efeméride de uma manifestação contra a exploração do trabalho pela civilização burguesa e capitalista, mas esquece-se que o trabalho é precisamente o valor em nome do qual essa civilização triunfou e que foi estranhamente assumido e divinizado pela quase totalidade do movimento socialista.

A nova religião do sucesso pelo trabalho surgiu nos países do Norte da Europa (como mostrou Max Weber) e generalizou-se também em nome da emancipação da escravatura da maioria activa e produtiva da população para que alguns – clero e nobreza – vivessem desocupados; mas acabou por democratizar e universalizar essa escravatura, com a planetarização do Ocidente. Hoje somos (quase) todos escravos do trabalho, com excepção de uma minoria.

Como dizia Agostinho da Silva, (sobre)vivemos sem tempo para outra coisa senão “ganhar a vida” que recebemos gratuitamente, sem tempo para contemplar, amar e criar, ou para simplesmente ser, constantemente ocupados e preocupados com a produção e o consumo de produtos, bens e serviços que, na maioria, são desnecessários, fúteis e muitas vezes prejudiciais, aproveitando apenas à minoria de investidores e especuladores que lucram com isso. A civilização do trabalho e do “neg-ócio” – a negação do “otium”, a desocupação contemplativa, fonte de todo o conhecimento desinteressado – domina e escraviza tudo, desde os milhões de vidas humanas instrumentalizadas em actividades mecânicas, burocráticas e fastidiosas, até ao número inconcebível de vidas animais industrializadas na produção de carne, peixe e lacticínios e chegando aos recursos naturais, à biodiversidade e à paisagem de uma Terra devastada por este formigueiro alucinado, neurótico e “workaólico” em que se converteu a humanidade.

Se queremos libertar os humanos, os animais e a Terra, temos de abandonar a nova religião do crescimento económico – com o seu novo deus-ídolo, o dinheiro e o lucro, os seus novos profetas-sacerdotes do marketing e da publicidade e os novos teólogos-economistas neoliberais ou socialistas produtivistas – e optar por uma sociedade onde se trabalhe menos e haja mais tempo livre para viver uma vida não centrada na produção e no consumo, com a vantagem de assim haver mais emprego para todos, menos destruição dos ecossistemas e das vidas dos animais e mais tempo livre para a cultura, o desenvolvimento pessoal e a felicidade. Mas isso exige, a par de recolocar a economia sob o domínio da política e esta sob a alçada da ética e da cultura, que deixemos de ser cúmplices da ganância institucionalizada e investirmos em vidas mais simples, reduzindo os desejos às necessidades, de modo a que a opulência de poucos não seja a miséria da maioria e haja uma abundância frugal para todos. Veja-se a fundamentação científica desta proposta na vasta obra do economista Serge Latouche, do qual existe em português o “Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno”.

Esta nova atitude pode aprender-se e emergir mais facilmente nos povos, sociedades e culturas que preservam ritmos e formas de vida mais contemplativos, sustentáveis e festivos, como no Sul da Europa, África, América Latina, algum Oriente menos ocidentalizado e no mundo tradicional e indígena em geral, desde que se livrem da obsessão de imitarem o pior do estilo de vida europeu-ocidental. Comecemos por nós, portugueses e lusófonos, que temos a vocação histórica de promover pontes entre culturas e estamos numa posição estratégica ideal para trazermos para o Velho Mundo europeu ideias que o possam ressuscitar da decadência em que se afunda, vergado sob o peso das ideologias do trabalhismo, sejam de “direita” ou de “esquerda”.

Paulo Borges

Presidente da União Budista; Presidente da Associação Agostinho da Silva; Presidente do PAN – Partido pelos Animais e pela Natureza; Vice-Presidente da Associação Interdisciplinar para o Estudo da Mente; Responsável pela revista Cultura ENTRE Culturas; Licenciado e Doutorado em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; Professor no Departamento de Filosofia da Fac. de Letras da Univ. de Lisboa, onde trabalha nas áreas de Filosofia da Religião, Filosofia em Portugal e Antropologia e Cultura e integra o projecto de investigação “A Filosofia e as Grandes Religiões do Mundo”

 

License

This work is published under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 2.5 License.