Nascer com Saudade

 

O texto que se segue insere-se numa teoria da Saudadei, na qual este sentimento surge como uma saudade metafísica do próprio Ser – a nossa Natureza Profunda, que em manifestação, neste processo de mergulho na materialidade, sofre o consequente encobrimento da sua essência. Mas eis que o processo de desvelamento sobrevém, todo este percurso tendo uma mais-valia: a qualidade do auto-conhecimento. Neste contexto a saudade surge como algo de precioso que incessantemente nos impele de volta à “casa do Pai”, aí se configurando o único caminho de superação da própria saudade.

 

Podemos nascer já com saudade. Podemos chegar sulcados de momentos a completar no Instanteii. Podemos nascer com essa inquietação de um não sei-quê, inquietação entranhada desses momentos que nunca se completaram, inter-sucessivamente ligados pela insatisfação de algo que falta cumprir.

A criança, naturalmente, transfere e plasma esse “algo” num sentimento de dependência-apego-afeição para as figuras que a cuidam e assim lhe estão mais próximas. Porque na planura conceptual é também assim que as coisas começam (e a asseguram). À medida que vai crescendo, vai-se ligando a sucessivos pólos de atração, reforçando os elos da cadeia que prende à materialidade… Mas vai também descobrindo a efemeridade dos alvos que momentaneamente a polarizam nesses espaços-tempo, fugazmente mascarados de plenitude e fortalecedores desse sentimento de saudade que sempre a acompanhou. Esses alvos são necessários porque são recetores, mais ou menos passageiros, da inquietação sentida; e são também a possibilidade dessa inquietação sem porquê se mascarar de sentimentos concretos e até cómodos, porque comuns aos dos outros. Saudades alijadas da estranheza de não terem imagem no espelho do outro. Saudades aliviadas da pressão desse algo que não se deixa definir e que, assim não se mostrando, é infinitamente mais ameaçador do que um qualquer outro sentimento doloroso mas localizado ou en-quadrado.

Outro tempo, porém, virá, em que a mitigação da saudade se consubstancia num aproximar ao outro, mas agora aquele outro que está para além dos muros da família, do clã dos amigos, do grupo de conhecidos. O tempo em que a refração da Luz do Sol interno brilha nas necessidades desse outro, companheiro menos afortunado no experienciar das contingências terrenas. E por isso essa inquietação só poderá ser atenuada no encurtamento da distância que os separa, conseguido através de um auxílio empenhado na minoração do sofrimento do seu semelhante. E surge o afã da cooperação, a febre benéfica da solidariedade tendente a eliminar os micróbios da pobreza e da exclusão. Será ainda, e sempre, o campo de forças da saudade o responsável por esta aproximação a esse outro irmão.

Todavia, mesmo aí, a distânciaiii ainda apenas foi reduzida. Assim, depois de verificada a mutabilidade das saudades concretas, começa a constatação de que subjacente a todos os processos emocionais e mentais esteve sempre presente aquela inquietação, essa sim, objeto de permanência em todo o processo. E tudo isto conduzirá ao despertar para a evidência de que algo em nós perdura, não o corpo físico, não as emoções, não os pensamentos, mas algo mais além, e no entanto mais fundo, mais interno. Não é objetivável, contudo está presente. Mas aí estando, ao mais leve movimento de apreensão… desaparece. E talvez aí resida o motivo que tantas vezes levou/leva à identificação desse “algo” com um Deus externo. No entanto, a experiência-suporte de uma teoria mais completa da Saudade remete para as profundezas do ser, para essa natureza profunda e incondicionada que a tudo subjaz. E esse movimento, ainda que vivido inversamente ao mundo exterior, não se fecha numa ação egoísta, pois bem no fundo de nós, em Nós, encontramos ainda os Outros. Sim, enquanto os outros nos não acompanharem, haverá sempre e ainda a Saudade, a Maior – esse grande atractor que acompanha a manifestação no seu mergulho do (e no) seio interno da divindade. Esse indefinível desejo que em nós tremula e depois se fortalece na vontade de saborear o aroma que subtilmente impele e orienta o Regresso a Casa.

Esse re-encontro de abarcante beatitude em/no Nós será então a última experiência como Humanidade. Depois disso, o que virá? Apetece aqui convocar Fernando Pessoa, avançando: «Deus é o Homem de outro Deus maior»…

 

Itinerário estranho? Ou movimento natural? Debrucemo-nos sobre o percurso de uma consciência em expansão. Sigamos a lógica de uma consciência evoluindo de um primeiro estágio em que se encontra polarizada no corpo físico, para em seguida se polarizar no emocional, depois no emocional/mental, em seguida no mental/emocional, passando então ao mental abstrato. E não nos percamos nos longínquos confins desse mental abstrato, pois é a partir daí, em terras de onde já se vislumbra a outra margem e o pensamento se perde em mar-de-espantoiv, que chegaremos ao Intuicional, onde transcendida a conceptualização, se acede à essência dos fenómenos. Plano do Amor transpessoal, onde o pequeno “eu” desaparece para dar lugar à união com o não-outro, o Outro que sou Eu, é aív, onde já não é possível perseguir o pensamento pensado, onde a formulação do conceito se esvai na essência do fenómeno e não mais se recorre à frase rebelde que tudo diz, excepto “o que mais importa”… é aí que tudo o que foi pensado sobre a saudade já não interessa, como meio que se esvai no fim a que se destina. É aí que se cumpre a Alma Humana.vi Depois disso… muito longinquamente… se cumprirá a Alma Espiritualvii, a transmutação em Deuses – e ainda assim, parafraseando Pessoa, mesmo então, não sendo mais do que Homens de outros Deuses!

É por tudo isto que uma saudade – mesmo que de algo maior o seja mas estando esse maior no exterior – não é, nunca poderá ser, a verdadeira Saudade, acabando sempre, uma e outra vez, por ser tão-só a entrada para uma repetida via sem saída. A verdadeira saída é pelos, e nos outros, no sentido da interioridade – “espaço”/tempo-sem-tempo de coincidência com o Deus imanente, que nos atualizará como parte desse sem-tempo-espaço, sem-atributos Transcendente.

 

Não concluindo mas propondo…

Saudade temporal: treino para não esquecer a Saudade espiritual que com a criança vem à manifestação. Para que não se perca esse instrumento feito sentimento, essa frágil planta que é preciso cuidar, até que o vaguear na horizontalidade seja rejeitado e se dissipe na sua substância ilusória… nesse instante se volvendo feixe ascendente que ao Céu se alça!

 

… O elo assim se abrindo na volta seguinte da espiral…

 

 

E assim se termina como se iniciou: podemos nascer já com saudade.

E assim se entende esta ausência de saudade da infância: porque tempo de algo não compreendido e por isso transbordante para o quotidiano, ensopando-o de inquietação… Esse algo que mais tarde, muito mais tarde, fez surgir as seguintes linhas:

Há algo que paira no ar…

Algo de tão subtil e indefinível natureza

Que esquece saber antes mesmo de o procurar.

Há algo de urgente que me inquieta,

Algo que m’ inspirando o despertar

Sugere o sonho onde estou presa.

 

Há algo que me escapa e me incompleta,

De origem sublime e essencial.

Há algo que quero cumprir,

Algo que quase adivinhei,

Algo que na matriz existencial

Já é rede que liberta.

 

Assim,

Antes que esqueça,

Antes que entre outros me perca,

Na senda deste sonho quero ficar desperta.

Assim,

Antes que a noite volte e a mente escureça,

Pela lucidez,

Uma luta feroz mantenho acesa.

 

Antes que esqueça,

Antes que a noite de novo desça…

Urgentemente (!)

Procuro o Absoluto.

De onde me vi nesta vida prisioneira,

De onde me sonhei com a forma que sou,

Sonhando do que sou, já liberta!

 

 

O verdadeiro encontro com a Saudade encerra em si o poder de nos transformar

 

Ângela Santos

Doutorada em Química-Física pela Universidade de Lisboa, onde é docente; Curso “O Universo e o Plano Divino” pelo Centro Lusitano de Unificação Cultural; Curso de Especialização “Filosofia e Estudos Orientais” pela Faculdade de Letras da Universidade de

 

i Para uma leitura geral de introdução a esta temática, recomendamos o estudo de António Braz Teixeira, A Filosofia da Saudade, QUIDNOVI, Lisboa 2006. No entanto, como enquadramento do texto que se apresenta, deixa-se aqui o breve apontamento que se segue.O sentimento saudoso como motivo essencial da lírica nas culturas Portuguesa, Galaica e Lusófona abriu portas a uma inquirição profunda e ao estabelecimento de uma dinâmica especulativa sobre a problemática da saudade, ao ponto de ser possível reconhecer que, e usando as palavras de António Braz Teixeira, “nesta finisterra ibérica, exista, desde há séculos, uma corrente especulativa que pode, legitimamente, denominar-se «filosofia da saudade»”.

Muito resumidamente, e por consequência de uma forma algo redutora, abreviaremos em duas grandes linhas toda uma teoria bastante complexa sobre a origem da saudade que, avançada em Portugal por D. Francisco Manuel de Melo, tem sido até ao presente extensivamente aprofundada por vários excelentes pensadores portugueses:

  • uma saudade temporal condensada na frase, “Saudade é lembrança de alguma coisa com desejo dela” (Duarte Nunes de Leão)

  • uma saudade espiritual, “Saudade é uma inquietação provocada pelo desejo de algo inobjectivável”. Trata-se de uma saudade com uma origem metafísica, uma aspiração à Pátria Celeste.

Relevamos aqui a saudade como inquietação, pois é dela que sobrevém o ensejo da procura desse algo que afinal se verifica não estar presente nas pessoas/seres ou quaisquer objetos externos. E é precisamente isso que nos não dá tréguas, que nos não deixa parar e que se constitui como a grande força impulsionadora para a busca.

Salientamos ainda que uma teoria possível da Saudade apenas será acessível a partir da experiência – de uma vivência atenta e reflexiva. E enquanto a experiência decorrer em níveis superficiais, enquanto a busca estiver limitada à horizontalidade, enquanto não se aceitarem as dimensões do ser que estão para além da personalidade (níveis físico, emocional e mental) a busca desse algo, na ausência do qual permanecemos incompletos, revelar-se-á sempre uma busca frustrada: não se abrirá uma fenda, que seja, para a plenitude e em seu lugar, morbidamente, reinará o desalento existencial, o absurdo da ex-istência.

 

 

 

ii Como vislumbre de plenitude; tempo-sem-tempo em ausência da dualidade sujeito-objecto. Cf. Borges, Paulo, Da Saudade Como Via De Libertação, QuidNovi, 2008; ou seja, a experiência da plenitude ontológica no instante, normalmente algo apenas possível por vislumbres.

 

 

iii A distância fruto do «encobrimento e ignorância da natureza primordial» comum a todos os «seres aparentes». Ibidem.

 

 

iv Do ponto de vista deste lado da margem.

 

 

v Já no tempo-sem-tempo, no Eterno Presente.

 

 

vi A Alma Noética segundo o modelo Platónico, Buddhi-Manas segundo o modelo Teosófico.

 

 

 

vii Simultaneamente mediadora e resultado da mediação com Atman.

 

 

 

 

 

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