O Chamado da Rosa

Rosacruz: quatro séculos de tradição viva

O que significa a Rosacruz no século XXI?

Sabedoria do Silêncio – Hermetismo e Rosacruz no Pensamento Humanista Ocidental” foi o tema de uma exposição temática e documental, que esteve patente ao público no Arquivo Nacional da Torre do Tombo1. Durante seis meses teve quase 5 mil visitantes. Na inauguração, Francisco Casanueva Freijo, num comentário sobre a Rosacruz no século XXI 2, afirmava que esta “tem orientado esforços no sentido de obter a síntese entre a inteligência emocional e a inteligência racional, permitindo a superação da contradição entre elas que está na origem da falta de pontes entre o mundo científico e o mundo espiritual”.

 Neste sentido, “a síntese é a inteligência espiritual, que engloba ao mesmo tempo o rigor racional e a intuição, superando assim tanto a lógica fria e mecânica, como a religiosidade baseada na crença”.

Neste contexto, dizia Francisco Casanueva Freijo: “A própria palavra Rosacruz é em si uma contradição, pois fala de uma Rosa e de uma Cruz, que simbolizam respectivamente o espiritual e o material, e que pela acção do pensamento libertado deixam de estar em oposição, para se unirem nas núpcias químicas. A Cruz representa (…) os 4 elementos fundamentais de toda a realidade orgânica: hidrogénio, nitrogénio, oxigénio e carbono; ou, como definiam os clássicos: fogo, ar, água e terra. A Rosa representa o foco espiritual no interior do ser humano, a fonte da sua potencial transcendência, a origem de todos os ideais que nutrem a imaginação humana desde a aurora dos tempos. A Cruz faz-nos realistas. A Rosa, idealistas. Todos somos conscientes da permanente luta entre os ideais e a realidade, e também contemplamos que são os ideais insatisfeitos, o caldo de cultivo das nossas frustrações e sofrimentos anímicos. Só um conhecimento profundo da natureza de ambos os campos, do mundo das ideias e do mundo das formas concretas, pode suprimir esse infatigável combate entre o ideal e a realidade. Não a favor do ideal; e tampouco decantando a batalha a favor da realidade. Mas sim pela vitória do Espírito, que unifica o que está separado e pacifica o que se combate sem trégua. A inteligência espiritual é portanto o recurso que a humanidade no seu conjunto há-de conquistar o quanto antes, pois só nela há bem-aventurança e paz duradouras” 3.

Esta noção de unificação com o espírito livre no ser humano, subjacente ao pensamento rosacruz, é observável na tradição ocidental moderna. Pensadores como Jacob Böhme, Robert Fludd, René Descartes, Jan A. Comenius, Isaac Newton, Robert Boyle, Gottfried W. Leibniz, Karl von Eckarthausen o Johan W. Goethe, mantiveram a orientação humanista da Rosacruz. Movimentos como a maçonaria, o martinismo ou a teosofia consideram-se herdeiros do seu legado. No início do século XX, assistiu-se ao ressurgimento da tradição rosacruz e, actualmente, muitos movimentos adoptam essa designação como emblema do seu trabalho.

 

Os Manifestos Rosacruzes

Se imaginarmos uma pedra de considerável dimensão arremessada do alto no centro de um lago e os seus efeitos subsequentes, poderemos fazer uma ideia daquilo que, no início do século XVI, representou o surgimento a público de três publicações, que viriam a ser designadas como “Manifestos” rosacruzes. Nascidos da concepção espiritual de um grupo de amigos, de uma “societas” informal composta por pessoas conhecidas, eruditos, místicos e teósofos do sul da Alemanha, a Fama Fraternitatis RC (O Chamado da Fraternidade RC), a Confessio Fraternitatis RC (o Testemunho da Fraternidade R.C.) e as Bodas Alquímicas de Cristão Rosacruz, são impressos respectivamente nos anos 1614, 1615 e 1616.

Neles perpassa um chamado a uma reforma total do mundo, através do conhecimento das leis naturais e divinas – o Livro M (Mundi = Mundo) e o Livro T (Theos = Deus) –, e a sua aplicação na renovação de todas as esferas da vida humana.

Como reacção à publicação dos Manifestos, o mercado europeu da época é inundado de obras pró e contra, em tons por vezes exaltados. Estão actualmente identificadas mais de 400 respostas aos Manifestos, surgidas nos primeiros 10 anos seguintes à sua publicação, e cerca de 1700 respostas nos séculos XVII e XVIII 4. Números que, para a época a que se referem, indicam uma actividade editorial extremamente intensa.

Logo após as primeiras edições – inicialmente publicadas sem consentimento dos autores (destinavam-se a um círculo íntimo de simpatizantes) – os Manifestos são rapidamente difundidos pela Alemanha e traduzidos em várias línguas europeias.

 

Mas que conteúdos justificaram tamanha polémica e comoção? Do ponto de vista formal são fábulas fantásticas, enigmáticas, doseadas com humor subtil, por vezes com algo de surrealista, que têm como personagem central Cristão Rosacruz, pai e irmão, fundador da Ordem Rosacruz. Numa análise de conteúdo é notável a forte influência da filosofia hermética e alquímica, que surge em forma de alegorias. Nelas os autores dão a conhecer a natureza da Fraternidade interna da Rosacruz; da transformação do mundo e da humanidade; e da transmutação alquímica da natureza humana através das fases de Nigredo, Albedo e Rubedo, fabricando assim a Pedra Filosofal.

O impulso hermético-cristão deu início a um período que a historiadora Frances Yates designou como “Iluminismo Rosacruz”5. Segundo a autora, neste momento cultural a sociedade europeia é fecundada pelas luzes rosacruzes, gerando desenvolvimentos que mais tarde seriam designados sob o conceito de “pensamento científico moderno” (a Royal Society, entre outras das primeiras academias científicas, estava fortemente influenciada pelo pensamento rosacruz). Esses mesmos desenvolvimentos permearam também diversas áreas do pensamento humanista, artístico, esotérico, religioso.

Como refere J. Ritman, fundador da actual Bibliotheca Philosophica Hermetica de Amsterdão, “os Manifestos Rosacruzes colocaram nos primeiros anos do século XVII (…) o fundamento para uma nova reforma espiritual, pela aplicação consciente das ciências arcanas. Neles se mostrou de novo o caminho de iniciação de todos os tempos, sob o símbolo da Fraternidade Rosacruz e do seu fundador, o Pai-Irmão Cristão Rosacruz. Com a recepção da tripla fórmula de iniciação dentro do primeiro círculo de irmãos, utilizada e dada a conhecer ao mundo nos textos dos Manifestos, iniciou-se um desenvolvimento que elevou o significado da vida a um plano superior, e sem o qual já não seria concebível a sociedade europeia.

O nascimento da fraternidade da Rosacruz no seio de um círculo de irmãos fundado por Tobias Hess, abriu a possibilidade de uma reforma completamente nova no caminho de iniciação cristã, cuja origem se encontra no caminho de iniciação hermético-cristã ensinada 1600 anos antes em Alexandria. O fenómeno de um triplo Manifesto que introduzisse na sociedade europeia a ideia de que os mundos do espírito, da alma e do homem, se harmonizam, se fundem e se renovam num triplo processo de desenvolvimento, era uma fórmula magistral, dado que oferecia uma nova interpretação do significado da meta da existência humana. O significado deste triplo processo de desenvolvimento, em relação ao desenvolvimento dos três períodos do devir humano, fixou-se nos Manifestos, no axioma “Ex Deo Nascimur – In Jesu Morimur – Per Spiritum Sanctum Reviviscimus”. De Deus Nascemos, em Jesus morremos, pelo Espírito Santo renascemos6”.

 

O círculo de Tübingen

Em 1604 surgiu uma supernova entre as constelações de Serpentarius e Cisne. Este fenómeno, referenciado por Kepler na sua obra Stella Nova, causou uma forte impressão no ânimo dos estudiosos. Muitos criam ver aí um sinal prenunciativo do início de uma época vindoura mais propícia ao desenvolvimento do conhecimento do mundo natural e também da natureza interna do homem. Tobias Hess sentia que os tempos estavam maduros para uma revolução no sentido transcendental e espiritual: em 1607 tinha fundado em Tübingen um círculo de amigos, uma “Societas” 7, na qual podia desenvolver a sua visão de uma nova era do Espírito Santo.

Também Valentim Andreae, ainda jovem, se junta a este grupo, que no ano de 1608 contava com 12 membros8, e será ele o autor das Bodas Alquímicas, uma das suas obras mais lidas e o único dos três Manifestos que ele admitirá ter escrito. Numa obra sua intitulada Tobias Hess (…) Imortalitas (a Imortalidade de Tobias Hess), Valentim Andreae sustenta que Hess encontrou um acesso triplo para a contemplação Directa de Deus: em primeiro lugar aprofundar-se nas Sagradas Escrituras, com todas as experiências dos profetas, apóstolos e mártires; em segundo lugar conhecer a natureza, através de profunda investigação; e em terceiro lugar, pela prática da imitação, da realização do amor ao próximo, em actos9.

 

A Rosacruz no Humanismo Português

Num congresso científico nos Estados Unidos, a historiadora Frances A. Yates afirmava o seguinte: Gostaria de convencer as pessoas sensatas e os historiadores a usar a palavra ‘rosacruz’. […] Parece-me que esta palavra poderia ser usada para designar um certo estilo de pensamento que é historicamente identificável sem ser necessário abordar a questão de saber se um pensador de estilo rosacruz era forçosamente membro de uma sociedade secreta. O aspecto mais interessante do movimento rosacruz é a sua insistência em que está iminente uma época de grande iluminismo. O mundo […] receberá uma nova iluminação, que consistirá numa imensa expansão do progresso a partir do conhecimento alcançado no período renascentista precedente. Muito em breve far-se-ão novas descobertas e começará uma nova era10.

Os Manifestos no seu conjunto conformam um convite à realização de uma reforma geral do mundo, através do regresso a um cristianismo mais puro e autêntico, combinado com uma investigação mais aprofundada das leis da natureza. Essa proposta de renovação orienta-se sobretudo para os três campos – ciência, religião e sociedade – e não se confunde com a reforma protestante, porque não se baseia numa nova interpretação das escrituras, mas fundamentalmente na procura de uma ligação ao espírito. Esta síntese surge como resultado de um desenvolvimento europeu, de 200 anos de renascimento hermetista, que conduzia naturalmente a esse coroar nos manifestos do círculo de Tubingen no início do século XVII.

No século precedente, os círculos cristãos herméticos e cristãos-cabalistas desenvolviam-se à luz do dia intensamente em todos os países europeus, a par da esperança numa nova era, a era do Espírito Santo, onde se esperava que o conhecimento do homem se desenvolveria até alturas nunca antes vistas, não só nas ciências e em todas as artes, mas sobretudo no conhecimento – e na realização! – do homem interior. Em Portugal, factos como o de Pedro Nunes (1502-1578) ser testamentário de John Dee, alquimista e rosacruz inglês, que legou a Pedro Nunes parte da sua biblioteca11, demonstram uma afinidade e proximidade que ultrapassam fronteiras de nacionalidade. Sabe-se que Paracelso terá viajado a Lisboa e daí a outras partes do País entre 1517 e 1518, pela sua obra Das erste Buch der Grossen Wundarznei12. São também conhecidos hermetistas portugueses do século XVI, em cuja actividade procuram trazer ao seu tempo uma consciência mais emancipada. Frei António de Beja, Martinho de Figueiredo, João de Barros, André de Resende, António de Gouveia, André de Avelar, são alguns dos muitos nomes associados ao hermetismo e à alquimia em Portugal13. Por reacção, este é também o século em que se instala a instituição do Santo Ofício. Criada séculos antes para a perseguição dos cátaros, a Inquisição leva várias décadas a instalar-se em Portugal, muito gradualmente (para neutralizar resistências). Mas na viragem do século, em 1600, Giordano Bruno é queimado na fogueira. E em Portugal o cristianismo hermético, que poucas décadas antes gozava de legalidade e até prestígio, tem de passar progressivamente à clandestinidade. Este é o século dos processos de Inquisição massivos, dos autos de fé, da condenação à morte ou à prisão e extradição por heresia de mulheres e homens, incluindo clérigos, sacerdotes e monges, pela sua liberdade de pensamento, pela sua afinidade com a filosofia hermética e com a alquimia. Sombras de ódio e incompreensão perante a aurora radiante de um novo dia!

 

 

Milagres do Uno”:

- As fontes da espiritualidade ocidental

Conta-se que quando em 1460 o monge Leonardo de Pistoia trouxe para Florença um exemplar em grego do Corpus Hermeticum (CH), Cosme de Medicis ordenou a Marcilio Ficino que empreendesse imediatamente a sua tradução, pondo de lado a tradução da obra de Platão. Esta história revela bem a importância que teve a lendária figura de Hermes Trismegistos: “Hermes Três-Vezes-Grande”, lendário filósofo, mencionado pelos padres da Igreja e associado à deidade sincrética da Antiguidade que combina aspectos do deus grego Hermes e do deus egípcio Thoth. No Quatrocentto italiano os documentos sapienciais atribuídos a Hermes tornaram-se centrais no pensamento europeu, como atestam as 900 Teses, ou o Discurso sobre a Dignidade do Homem, de Pico della Mirandola, ou o mosaico do pavimento da Catedral de Siena14. As ideias e concepções aí presentes influenciaram profundamente o Renascimento e as correntes espirituais que se desenvolvem nos séculos seguintes. Por outro lado, estas concepções hermetistas-cristãs ressurgem da época alexandrina clássica.

 

A ideia de uma nova capacidade pensante capaz de expressar a divina Sophia, encontramo-la já no Corpus Hermeticum, no Discurso secreto da Montanha, onde decorre um diálogo entre Hermes e Tat, e este pergunta a Hermes acerca do segredo do renascimento do divino no homem, Hermes responde: Da sabedoria que pensa no Silêncio e da Semente que é o Único Bem.

Outro dos textos herméticos mais conhecidos, a Tábua Esmeralda de Hermes Trismegistos é marcado pela ideia fundamentalmente hermética da elevação da região existencial da fragmentação para a dimensão da unidade. Aí lemos: “ É verdade! É certo! É a plena verdade! Tal como é em cima, assim é em baixo, para que se cumpram os milagres do Único”.

 

O Puro Amor Cristão

Do ponto de vista religioso, a reforma dos rosacruzes possui muitos pontos de contacto com o cristianismo cátaro – que se assumia como uma religião do Pensamento, valorizando não só a fé, mas fundamentalmente a Compreensão de Deus. No quadro soteriológico cátaro, a iluminação do pensamento pelo Paracleto, através da “endura” (renúncia absoluta a todas as formas de egoísmo), era indispensável para que o Amor-Sabedoria pudesse manifestar-se através do homem e no próprio homem. No seu livro, O Catarismo na Tradição Espiritual do Ocidente, Eduard Berga, apresenta um levantamento exaustivo dos rituais cátaros, cartas e documentos dos inquisidores, com o fim de tornar visível o sistema filosófico cátaro e, historicamente, o modo como o catarismo promoveu uma reforma total do cristianismo. Uma reforma, diz o autor, “concebida como possibilidade real de um renascimento espiritual do ser humano através de uma prática de vida verdadeiramente apostólica e evangélica, levada a cabo em plena liberdade de consciência e em completa autonomia pessoal. A singularidade desta proposta colidia frontalmente com a reforma gregoriana católica, baseada na institucionalização dos sacramentos e na consolidação da hierarquia eclesiástica como única intérprete das Sagradas Escrituras e detentora do dogma15”.

Também nos Manifestos é feito o apelo ao regresso a um cristianismo simples e puro. Na Confessio, onde se expressa a rejeição formal ao Papa, apela-se a uma reforma espiritual não confundível com a reforma protestante, na linha de Lutero, mas sim no sentido de uma religião interior, onde o que vale é a experiência directa de Deus.

Os estudos actuais do paleocristianismo – a partir do fabuloso manancial de descobertas do século XX (o cristianismo primitivo dos textos de Nag Hammadi, os textos maniqueus de Qúmram, etc.), convergem na conclusão que se tem de reformular muitas das ideias acerca do cristianismo primitivo. Uma das hipóteses consensuais é a de que o impulso do cristianismo inicial, antes de ser religião organizada, não visava fazer cristãos, mas sim cristos. Um dos padres da Igreja geral, Carpócrates, afir­ma­va que “é dado a cada homem tornar-se ele próprio num Jesus”.16 Uma con­cep­ção que também se encontra no Evangelho de Filipe, onde lemos: Eles são recebidos na unção da plenitude (…) Tal pessoa já não é um cristão, é um Cristo”.17

 

Construtores e Alquimistas

É já só no século XVIII que se constitui pela primeira vez uma Ordem Rosacruz. Fundada em 1710 por Samuel Richter, que se apresentava como Sincerus Renatus (renascido sincero), esta ordem assume a designação de Fraternidade da Ordem da Cruz de Ouro e Rosas, e os seus membros, fortemente vinculados à Alquimia (pelo que o termo ‘rosacruz’ se converteu praticamente em sinónimo de alquimista), são referidos como os ‘Rosacruzes de Ouro’18.

O século XVIII é por excelência o século da Franco-Maçonaria. É em 1717 que há notícia da fundação da Grande Loja de Londres. Procurando transformar os seres humanos e a sociedade a partir das luzes ilustradas da Razão, a Maçonaria constituir-se-á como um importante canal para a circulação de ideias e impulsos de renovação social e para o desenvolvimento do movimento esotérico Iluminista. Alguns grupos de maçons interessados na alquimia formam agrupamentos e sociedades rosacruzes, o que acabou por se materializar numa série de ritos maçónicos inspirados na Rosacruz, que actualmente ainda se encontram no Capítulo Rosacruz, que compreende os graus 17 e 18 do Rito Escocês Antigo e Aceite.

Em 1766 é fundada a “Ordem dos Cavaleiros Eleitos Coën”. No seu topo estavam os “Réau-Croix”, cujos ritos se integravam na Maçonaria Capitular Escocesa, denominada Estrita Observância. O seu fundador, Martines de Pasqually, era um teósofo e taumaturgo, principalmente interessado na cabala. Outros teósofos deste século foram Louis-Claude de Saint-Martin e Emmanuel Swedenborg19.

 

A Harmonização com o Cósmico

No século XIX o movimento esotérico é profundamente influenciado pelo romantismo. O interesse pelo oculto e o desconhecido influenciam o “Ocultismo”, caracterizando-o com algum experimentalismo. Apesar de ainda influenciado pelo espírito da Maçonaria, o Ocultismo interessa-se pela Magia e pelos Rituais arcanos. Uma das principais figuras desta época é Eliphas Levi (Alphonse Louis Constant 1810-1875), que deixou vasta obra escrita sobre magia cerimonial. Robert Wentworth Little (Magus, como pseudónimo) funda a Societas Rosicruciana in Anglia (SRIA), que só admitia no seu seio mestres maçons. Da SRIA surgiu em 1888 a Golden Dawn (Aurora Dourada), que teve como mestre McGregor Mathers, e pela qual passaram personagens como Aleister Crowley, o poeta irlandés William Butler Yeats, ou Bram Stocker (autor da novela Drácula).20 Para todas estas sociedades, foi determinante a busca do oculto e da sabedoria arcana na sua forma de magia cerimonial.

Também, neste mesmo século, França é palco daquilo que foi chamado “guerra das rosas” entre os eruditos personagens e suas respectivas ordens rosacruzes: Stanislas de Guaïta, fundador da Ordem Kabalística da Rosacruz, e Joséphin Péladan, um artista e místico católico que fundou a Ordem da Rosa Cruz Católica e Estética, muito conhecida por ter sido a promotora dos famosos Salões Rosacruzes, que em 1893 expunham obras de diversos pintores, entre os quais Delacroix. O movimento estético rosacruz de Péladan, inspirou também os Concertos Rosacruz de Eric Satie21.

 

A herança ocultista e cerimonial do século XIX passará ao século seguinte, principalmente através da Ordem Rosacruz AMORC (Antiga e Mística Ordem Rosacruz), fundada em 1909 nos Estado Unidos por Harvey Spencer Lewis por incumbência de um movimento rosacruz de Toulouse e inspirada na herança egípcia de 1350 a.C. O simbolismo da Rosa e da Cruz é explicado na AMORC, na sua iniciação ao primeiro grau, do seguinte modo: “A vida é representada pela Luz; o anelo é representado pela Rosa e Cruz; e a morte pelas trevas. Disto podemos aprender que o anelo – o anelo por actuar, servir, realizar, dominar e, por fim, alcançar – é possível pelo karma (cruz) que devemos sofrer e pela evolução (rosa) que realizamos através dele” 22.

Spencer Lewis procurou também demonstrar princípios universais de harmonização verificáveis através de instrumentos e aparelhos de sons e cores que ele próprio criou para o efeito. Harmonização com o Cósmico é uma das linhas fundamentais do ensinamento de Lewis.

 

Não há religião superior à Verdade

No período do final do século XIX e início do século XX, é perceptível uma intensificação da actividade espiritual de busca da verdade universal. Neste panorama destaca-se o nome de Helena Petrovna Blavatsky. Por inspiração dos “mestres” escreve importantes obras como Ísis Sem Véu e A Doutrina Secreta. Foi Blavatsky quem introduziu os mistérios de iniciação orientais no mundo ocidental e mostrou com isso que os ensinamentos de sabedoria do oriente e do ocidente contêm as mesmas ideias universais23. Em 1875, H.P.B. funda, com Henry Olcott e William Judge, a Sociedade Teosófica. Pouco tempo antes, Blavatsky faz uma anotação importante que esclarece o transfundo sobre o qual é fundada a Sociedade Teosófica: “M:. [=Mestre Moria] dá ordens para que se funde uma sociedade, uma associação secreta, como a loja dos rosacruzes. Ele prometeu ajudar-me nisso”. E três semanas antes da sua morte, em 1891, explicou, numa carta dirigida a uma convenção de teósofos, a sua devoção à Fraternidade: “se cada membro da Sociedade se contentasse em servir a uma força impessoal, indiferente a elogios ou críticas, enquanto servisse os fins da Fraternidade, os avanços alcançados assombrariam o mundo”.

 

A Ciência Espiritual: Filosofia da liberdade e Antroposofia

E é precisamente no seio da Sociedade Teosófica onde aparece uma nova linha de pensadores rosacruzes, que tem como primeira figura Rudolf Steiner, fundador da Sociedade Antroposófica. A monumental obra de Steiner está cheia de referências rosicrucianas. Através da sua Escola Superior de Ciências Espirituais, da tripartição social, da renovação da agricultura, da pedagogia e da medicina, e com os impulsos que deu à música, à linguagem e à dança, Steiner insere-se na tradição reformista dos rosacruzes, caracterizada por se basear na visão espiritual directa. Insere-se também nesta tradição o impulso que deu para uma renovação religiosa no seu Quinto Evangelho24 e nos cursos que dá aos sacerdotes da Comunidade de Cristãos.

No Congresso de 1907 da Sociedade Teosófica em Munique, Steiner desenvolve numa série de conferências a sua Theosophie de Rosenkreuzers (a Teosofia dos Rosacruzes). Com isso pretende estabelecer uma união entre a filosofia e a mística oriental, por um lado, e a teosofia cristã dos rosacruzes, por outro. Recolhe a herança da rosacruz clássica e actualiza-a numa ciência espiritual adaptada à consciência moderna. Nesse congresso são exibidos também os sete selos desenhados por Steiner para reflexão e meditação. O sétimo selo traz o axioma rosacruz enunciado no início deste artigo (originário da Fama Fraternitatis), que Steiner denomina “a oração original da humanidade”, e que explica do seguinte modo:

De Deus Nascemos, é a antiga sabedoria que o vidente obtinha através da revelação. Cristo, que abandonou os mundos espirituais, une a sabedoria com o amor. Desde então, só aquela parte da sabedoria que está penetrada pelo amor é de valor para o mundo. Perseguir o amor abnegado é o Em Jesus Morremos. A perfeição espiritual e o amor devem circular fortemente na humanidade e despertar o espírito que se encontra encerrado na matéria: Pelo Espírito Santo Renascemos 25.

Vale a pena assinalar que, para Rudolf Steiner, Cristão Rosacruz representa o impulso que no século XIII se deu no nível esotérico, e no século XIV no plano exotérico, primeiro pela radiação da loja dos sábios, e mais tarde pelas lições de Cristão Rosacruz nas suas viagens pelo mundo26. Com isso, segundo Steiner, Cristão Rosacruz, enquanto protótipo, converteu-se no centro de uma futura religião que um dia abarcará todas as religiões antigas e actuais. Uma religião de carácter exclusivamente interior, baseada numa cooperação consciente do plano divino, e orientada para a aplicação consciente da sabedoria na prática da vida. O que acabará por levar à ressurreição consciente do homem no campo de vida divino27.

 

Unificar cabeça e coração:

Mente Pura, Coração nobre e corpo São”

Em 1909 Max Heindel (verdadeiro nome Louis Fredrik Grasshof, nascido em 1896 na Dinamarca) funda em Seatle, Estados Unidos, a Rosicrucian Fellowship (Fraternidade Rosacruz). Emigrado em 1896 para os Estados Unidos e tendo-se tornado membro da Sociedade Teosófica em 1904, conhece Rudolf Steiner, então presidente da secção alemã da ST, em 1907, através de uma amiga comum, Alma von Brandis. Depois de frequentar as conferências de Rudolf Steiner, diferenças de ponto de vista afastam-no de Steiner, o que provoca uma rotura entre Alma von Brandis e Heindel e, mais tarde, com o próprio Steiner. Na primeira edição da magistral síntese do cristianismo esotérico, O Conceito Rosacruz do Cosmos (Rosicrucian Cosmo-conception), Max Heindel abre com uma dedicatória de gratidão e amizade a Rudolf Steiner. Posteriormente esta dedicatória é retirada das posteriores edições.

Na sua declaração Porque sou um Rosacruz28, Heindel escreve: “O ensinamento dos rosacruzes dá uma explicação clara e lógica do mundo e da humanidade. Desperta a atitude de questionar em vez de condenar, de modo que o buscador da verdade espiritual encontrará uma satisfação racional plena. As suas explicações são tão puramente científicas como altamente religiosas […]. Por isso seguimos mais o ensinamento dos rosacruzes do que o de outros sistemas, pois a sua filosofia lógica dá satisfação à alma, e por isso convidamos a investigá-la todos os que queiram receber as suas bênçãos29”. No Conceito Rosacruz do Cosmos, Heindel escreve sobre Cristão Rosacruz: “O seu nome só por si já é uma personificação da maneira e dos meios necessários para transformar o homem actual no super-homem divino. Este símbolo – Cristão Rosacruz, Rosacruz Cristã – mostra-nos a meta final da evolução humana, o caminho que temos de percorrer e os meios com que se alcança esta meta” 30.

Procurando tornar mais perceptível a verdade profundamente oculta no ser humano, Max Heindel declara ainda que “Não se podem desvelar os segredos da verdadeira iniciação. Não é nenhuma cerimónia exterior, mas sim uma experiência interior” 31.

 

A Escola Rosacruz: uma oficina alquímica

A busca espiritual de Jan van Rijckenborgh (pseudónimo de Jan Leene 1896-1968) leva-o em 1924 a juntar-se à Rosicrucian Fellowship de Max Heindel. Na secção holandesa – da qual assumirá a liderança – dedica-se ao estudo aprofundado das obras de H. P. Blavatsky, Max Heindel e Rudolf Steiner. Investiga, traduz e comenta os Manifestos R.C., as obras de Comenius, Paracelso e Jacob Böhme – referências espirituais do seu futuro desenvolvimento –, afirmando que “o que liberta não é a Filosofia, mas sim o Acto”. Em 1930 integra a colaboração de Catharose de Petri (pseudónimo de Henriette Stok-Uizer) e a partir de 1935 a secção holandesa da Rosicrucian Fellowship segue o seu próprio percurso tornando-se no Lectorium Rosicrucianum – Escola Internacional da Rosacruz Áurea, na tradição das “Escolas dos Mistérios”. Durante a 2ª Guerra Mundial, a Escola Rosacruz é proibida e encerrada pelas forças alemãs de ocupação nos Países Baixos. Mas um pequeno grupo continua o trabalho na clandestinidade, submergindo-se no estudo do Corpus Hermeticum e nos ensinamentos de Hermes Trismegistos, nos escritos maniqueus e de outros grupos gnósticos, e na História dos Cátaros. Neste período, van Rijckenborgh escreve o livro “Dei Gloria Intacta”, onde expressa as bases para o ensinamento gnóstico do século XXI e, no pós-Guerra, a Escola Rosacruz ressurge – agora com tónica assente na convicção de que a humanidade inteira, cada ser humano, irá viver, mais tarde ou mais cedo, “o confronto com a vocação divina que traz no seu interior”.

Van Rijckenborgh e Catharose de Petri publicam dezenas de livros onde procuram tornar claro o ensinamento da “Transfiguração”. Parte das obras são alocuções destinadas aos alunos da Escola nos anos 50 e 60, contendo marcas de oralidade e da época e circunstâncias em que foram lidas, mas onde perpassa o apelo à reunificação com o Espírito sem intermediários pessoais32, realizada através da auto-iniciação.

Num esforço de síntese da tradição esotérica universal, ressuma das suas obras o objectivo de libertação de toda a humanidade, sem excepção. O ensino da transfiguração, proveniente da alquimia dos rosacruzes clássicos, adquire também significado actual. Ela implica a criação de uma escola enquanto oficina alquímica, fundamentada na constatação de que: “No coração de cada ser humano existe um núcleo espiritual em estado latente. Quando este desperta para a actividade, torna-se possível empreender o caminho de renascimento espiritual”. Na página web da Escola Rosacruz podemos ler: “Porque o Fogo do Espírito está presente na sua esfera de acção, a Escola Rosacruz propicia o renascimento espiritual disponibilizando o seu campo de força onde pode dar-se o nascimento e desenvolvimento do ser espiritual. Por outro lado, faculta o ensino da adequada utilização das possibilidades despertadas por este Fogo: o ensino da Transfiguração” 33.

 

Um Campo de busca e de investigação

Em 1957, Joost Ritman funda em Amsterdão a Bibliotheca Philosophica Hermetica. Nas décadas seguintes, esta biblioteca pública tornar-se-á o repositório com o maior acervo do mundo em obras de hermetismo e de rosacruz, com originais dos manifestos rosacruzes, de Paracelso, de Jacob Böhme, entre muitos outros. Durante esse período juntar-se-á ao projecto Carlos Gilly, professor da Universidade de Basileia e investigador de renome mundial, que aceita dirigir todo o trabalho de classificação e organização e também o trabalho de edição de fac-símiles e traduções, assim como o de pesquisa, em colaboração com a Universidade de Amsterdão e diversos institutos de investigação. Esta Biblioteca, também conhecida como “Ritman’s Library” em referência ao seu fundador, conta ainda hoje com o apoio de investigadores em todo o mundo, entre os quais ressalta o nome de Umberto Eco.

O exemplo estava lançado e em centros de investigação universitários começa a surgir a noção da importância do estudo do hermetismo em geral e do hermetismo cristão em particular, para a compreensão da História ocidental. A rejeição preconceituosa por um lado, e a abordagem apologética e indutiva por outro, tinham aberto um vazio nos estudos hermetistas. Neste contexto, na viragem do século XX para o XXI surgem em Espanha, em Portugal e na Alemanha, fundações que de um modo neutro procuram investigar e a divulgar as fontes históricas antigas e modernas relativas ao hermetismo e à Rosacruz. É disso exemplo, em Portugal, a Fundação Rosacruz, que se constitui em 2007 como um fórum aberto, em colaboração estreita com as instituições académicas, sociais e artísticas, onde volta a estar presente o “espírito de Fez” de que fala Cristão Rosacruz, um espírito que impulsiona os homens e reunir-se e a compartilhar os mútuos conhecimentos descobertos, para assim melhorar a sociedade em que vivem.

 

Rui Limolino de Freitas

Licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Investiga na área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona. Delegado em Portugal da Fundação Rosacruz

 

 

1 E onde foi lançada a edição de um álbum, com artigos de investigação e imagens (Sabedoria do Silêncio – Hermetismo e Rosacruz no Pensamento Humanista Ocidental, Lisboa, 2012, Fundação Rosacruz)

 

2 Francisco Casanueva Freijo. Sabedoria do Silêncio – Hermetismo e Rosacruz no Pensamento Humanista Ocidental, Lisboa, 2012, Fundação Rosacruz

 

3 Idem

 

4 Frans Smit, La LLamada de la Rosacruz – Cuatro siglos de Tradición Viva, Fundación Rosacruz

 

5 Frances Yates, O Iluminismo Rosacruz; ed. Cultrix

 

6 Frans Smit, La LLamada de la Rosacruz: Cuatro siglos de Tradición Viva, Fundación Rosacruz.

 

7 Idem.

 

8 Ibidem.

 

9 Ibidem.

 

10 Frances A. Yates (1899-1981), O Iluminismo Rosacruz

 

11 Rui Lomelino de Freitas. Sabedoria do Silêncio – Hermetismo e Rosacruz no Pensamento Humanista Ocidental, Lisboa, 2012, Fundação Rosacruz.

 

12 Idem.

 

13 Rui Lomelino de Freitas. Sabedoria do Silêncio – Hermetismo e Rosacruz no Pensamento Humanista Ocidental, Lisboa, 2012, Fundação Rosacruz

 

14 No pavimento da Catedral de Siena encontra-se a imagem de duas figuras em que uma entrega as tábuas da Lei à outra, com a seguinte legenda “Hermes Mercurius Trismegistus contemporâneo de Moisés”.

 

15 Eduard Berga. O Catarismo na Tradição Espiritual do Ocidente. Lisboa, 2012, Fundação Rosacruz.

 

16 Adv. Haer. I.25,1. In Slavenburg, Jacob. A Herança Perdida de Jesus, Lisboa 2012, Marcador.

 

17 Filip. 55. In Slavenburg, Jacob. A Herança Perdida de Jesus, Lisboa 2012, Marcador.

 

18 Frans Smit, La LLamada de la Rosacruz: Cuatro siglos de Tradición Viva, Fundación Rosacruz.

 

19 Frans Smit, La LLamada de la Rosacruz: Cuatro siglos de Tradición Viva, Fundación Rosacruz.

 

20 Idem.

 

21 Ibidem.

 

22 Frans Smit, La LLamada de la Rosacruz: Cuatro siglos de Tradición Viva, Fundación Rosacruz

 

23 Idem.

 

24 Rudolf Steiner, O Quinto Evangelho, editorial Antroposófica.

 

25 Frans Smit, La LLamada de la Rosacruz: Cuatro siglos de Tradición Viva, Fundación Rosacruz.

 

26 Frans Smit, Idem.

 

27 Frans Smit, Ibidem.

 

28 Heindel, Max [Carl Louis Fredrik Grassoff], Waarom ik een Rozekruiser ben (Porque sou um Rosacruz?), Zeist, sem data, Amsterdão, Bibliotheca Philosophica Hermetica.

 

29 Frans Smit, La LLamada de la Rosacruz: Cuatro siglos de Tradición Viva, Fundación Rosacruz.

 

30 Heindel, Max. Conceito Rosacruz do Cosmos, Lisboa, Fraternidade Rosacruz de Portugal.

 

31 Frans Smit, La LLamada de la Rosacruz: Cuatro siglos de Tradición Viva, Fundación Rosacruz.

 

32 In http://www.goldenrosycross.org/

 

33 Idem.

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