Breves

Ninguém, nenhum de nós, é mau ou néscio. Simplesmente, estamos, ou podemos estar, estúpidos, maus, quezilentos, etc. Isso, portanto, pode sempre ser mudado.

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Densas nuvens mentais e tempestades de emoções obscurecem repetida, assiduamente o “nosso” céu. No entanto, podemos dispersá-las com a nossa vontade livre de apegos, com o alinhamento perfeito do nosso alento. Muitas vezes não o fazemos por masoquismo, preguiça ou convicção infundada de que é essa uma condição natural e inevitável.

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A loucura produtiva e consumista da nossa civilização não diz respeito só a bens materiais e serviços. Revela-se também na maluqueira das facturas, dos recibos, das guias, das certidões, dos comprovativos e declarações, nas montanhas de papelada e ficheiros, na febre legislativa e regulamentar, na fiscalização de todos por todos – tudo é inspeccionado e auditado, sendo os sujeitos dessa acção objectos e alvos de outros inspectores, fiscalizadores e polícias, e por aí fora, sucessivamente….

São sinais graves de doença: quanto maior a enfermidade, mais necessidade de medicamentos. Mas, como Hipócrates, bem caberia lembrar que a prevenção (evitar os desequilíbrios que provocam a doença) é o melhor de tudo.

A continuar-se assim, haverá um colapso mental colectivo…

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O insulto ainda é habitual: “Vai trabalhar, malandro!” Insultar não é bom; em todo o caso, seria preferível: “Vai pensar, [malandro]!”; melhor ainda, “vai meditar, [malandro!]”; ou talvez ainda melhor: “vai contemplar, [malandro]!”. E por que não: “vai compor uma música [malandro]!”; vai escrever um livro [malandro]!; “vai conceber um quadro [malandro]!”? E mais: “vai viver autenticamente, [malandro]!”; “vai ser plenamente, [malandro]!”; “Desiste de chatear os outros [malandro]!”; “Deixa de ser insensível ([malandro]!”; “pára de produzir e consumir [malandro], [não sabes fazer mais nada?]”.

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Sentir fortemente não é critério de bondade. Os grandes fanáticos e sanguinários, bem como os milhões de pessoas que apoiaram delirantemente as experiências mais hediondas (veja-se a Inquisição; os regimes políticos totalitários e de terror; as duas Guerras Mundiais do século XX, etc, etc…), frequentemente “sentiam muito”. Reparemos bem no que deu esse “sentir muito”. Amor é uma coisa; emoções, são outra.

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O dharma próprio (svadharma) da rã é ser rã. Quando se quer inchar para parecer vaca, tal desígnio está fora da lei, e cria um problema para o próprio e para os outros – v.g., para as outras rãs, que passa a tratar com sobranceria e distância, e para as vacas, a quem serve de empecilho. Acontece com triste abundância. Mas o egotismo não deixa perceber o próprio ridículo.

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A verdadeira autoridade pode, em muitos aspectos, exercer-se com a suavidade semelhante às da água ou da brisa gentil, porque se impõe por si mesma. É como a vida que está no âmago de todas as coisas, que faz pulsar e de que dependem todas as coisas, e que, todavia, não se vê, não se pode tocar, nem jamais clamou a sua importância íntima e suprema. Os que se encontram no topo da hierarquia natural são simples como o ponto que é o vértice de uma pirâmide; despidos de artifícios, de ostentações vaidosas ou de manifestações de arrogância e prepotência, confiam na Sabedoria e na Justiça verdadeiras, e exercem uma contínua influência benéfica. Quando, num futuro ainda distante, a hierarquia natural, assente no mérito, puder enfim ser reconhecida, sem sofismas nem convenientes relativismos, teremos uma forma superior de democracia: o governo dos mais aptos reconhecidos unanimemente.

 

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Há muitas coisas que não são consideradas “espirituais” e são obras notáveis de Espiritualidade.

E há muitas coisas ditas de Espiritualidade que são anti-espirituais.

 

José Manuel Anacleto

Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

 

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