Teixeira de Pascoaes

Pretendemos, neste artigo, somente fazer referência a algumas das ideias de Teixeira de Pascoaes, no intuito de, por um lado, facilitar uma leitura que, marcada pela espontaneidade nem sempre é de fácil conclusão para o leitor, e por outro, suscitar a vontade de conhecer melhor este autor. Pascoaes, ao lado de nomes como Leonardo de Coimbra, Fernando Pessoa, Raul Leal, José Marinho, Agostinho da Silva, e a partir da chamada Geração de 70, com Antero de Quental, Oliveira Martins, Cunha Seixas, Guerra Junqueiro, Sampaio Bruno, entre outros,1 configura no nosso País o desenvolvimento de uma singular vertente de pensamento onde a Metafísica e a Ética constituem a base a partir da qual se especula um futuro alternativo à tendência antropocêntrica da nossa vivência humana.

Teixeira de Pascoaes – pseudónimo de Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos – nasce em Amarante em 1877 e em 1896 tira em Coimbra o curso de Direito, findo o qual abre no Porto um escritório de advocacia. É nesta mesma cidade que em 1912 colabora na fundação do movimento cultural e literário a “Renascença Portuguesa”, em cujo órgão de divulgação, a revista A Águia, faz a apologia da Religião/Filosofia da Saudade ou o Saudosismo. Dado que é sobretudo por este momento que fica conhecido para a posteridade e, a partir daí, injustamente associado a um nacionalismo redutor, faremos de seguida uma breve referência às principais ideias que veicula neste período.

Assim, nos vários artigos que então escreve, oferece-nos uma reflexão sobre o que designa como a História Espiritual de Portugal 2, ou seja, além da história como simples relato cronológico dos factos, o autor releva nestes uma outra perspetiva, segundo a qual todos os acontecimentos estão interligados e a eles subjaz uma razão de ser oculta para além do aparente acaso. A sua prioridade é a de despertar a sociedade em geral para este facto, numa altura em que o materialismo científico e tecnológico emergentes na restante Europa, lhe pareciam pôr em causa essa tomada de consciência coletiva. Assumindo-se como um dos arautos dessa missão, evoca então uma Renascença Lusitana, que permitisse “reintegrar a alma da nossa Raça na sua pureza essencial, revelar o que ela é na sua intimidade e natureza originária, para que tome conta de si própria e se torne ativa e criadora, e realize enfim, o seu destino civilizador”; explica ele que, “quem surpreender a alma portuguesa, nas suas manifestações mais íntimas e delicadas, vê que existe nela, embora de uma forma difusa, a matéria de uma nova religião, tomando-se a palavra religião como querendo significar a ansiedade poética das almas para a perfeição moral, para a beleza eterna, para o mistério da Vida (…).3

E isto no sentido de que para o nosso autor, cada Nação é também uma Alma coletiva ou Raça 4, cuja expressão singular a torna um contributo para a evolução e harmonia planetárias. Nesta ordem de ideias, a Pátria Portuguesa tem a Saudade como a suprema criação sentimental, sendo nesta palavra que sintetiza as qualidades primordiais que estão na origem da Nação Portuguesa e que eleva muito além da sua História ou territorialidade. A Saudade, vista na sua essência religiosa e não no seu aspeto superficial e anedótico de simples gosto amargo de infelizes.”5

Esta ideia é reforçada e brilhantemente explicada por Fernando Pessoa 6 na própria revista A Águia, mas conhece também dentro dela a mais feroz oposição liderada por António Sérgio, que o acusa de delírio inventivo capaz de deturpar os factos históricos, e de ressuscitar um Saudosismo sinónimo de saudades do passado, num incentivo ao imobilismo contrário ao restante progressismo Europeu.

António Sérgio, que augurava nas ciências económicas e tecnológicas a esperança da resolução dos problemas morais da Humanidade, passa então a representar num certo sentido o pensamento tecnocrata padrão, contribuindo deste modo para aumentar os equívocos e as animosidades contra o nosso autor. Na sequência destas clivagens, Pascoaes abandona em 1916 a direção literária d’ A Águia e abstém-se a partir daí de fazer referência ao Saudosismo como movimento. Inicia um novo período literário em que se propõe esclarecer tudo o que escreveu anteriormente, materializando, entre outras, as obras: São Paulo, S. Jerónimo e a Trovoada, O Homem Universal, Napoleão, O Penitente, Santo Agostinho. Curiosamente, estes títulos pouco conhecidos entre nós encontram-se traduzidos para além das primeiras edições em países como a Alemanha, Holanda, Hungria, etc..

Passemos então e de seguida à exposição, tal como a interpretamos, de algumas dessas mesmas ideias.

Sobre a Ciência…

Que será mais útil ou verdadeiro?

Encontrar alívio no sofrimento

ou ouvir os sinos de Londres ou Lisboa? 7

Na obra O Homem Universal, de 1937, situada já dentro deste período, traz uma renovada reflexão das temáticas anteriores no intuito de reforçar a sua principal preocupação, que é a de construir uma ponte entre o que escreve e os paradigmas científicos e filosóficos da sua época e de relevar a importância de se investigar o lado espiritual do universo na busca de um sentido para a Existência. Prevenindo o leitor de que só a simpatia é condição de compreensão, começa por lamentar a polémica gerada à volta dos seus escritos por não agradarem nem a crentes nem a descrentes, mas ao que não pode fugir uma vez que são fruto da sua sinceridade, e embora admita que se aventura num terreno que não é o seu, propõe-se contudo fazê-lo, como um contributo “para a descoberta da verdade e da realidade” 8.

O debate com os meios científicos da sua época começa a ganhar relevo já nos artigos que escreve para A Águia, principalmente no artigo O Génio Português, onde esclarece que não se dirige “à verdadeira Ciência mas sim à ciência militante e política, ao clericalismo científico” 9. A sua recusa de que somente o método científico é sinónimo absoluto e único de rigor e objetividade, justifica-a com o facto de a tal método escapar “o fundo imenso, de que o mundo tal como o percecionamos, é um mero reflexo, em forma de paradoxo e absurdo” 10.

Uma vez que concebe na Existência universal três momentos – Existente, Vivente e Espiritual, conforme é mineral ou inorgânico, biológico e imaterial ou espiritual –, considera que uma ciência completa deve incluir na sua metodologia estes três momentos em simultâneo. Para tal torna-se necessário incluir nesta última o conceito de intuição ou “lembrança acordada”, presente em todas as formas edificadoras de criatividade humana e capaz de se sobrepor ao intelecto na aquisição de um conhecimento, que este não alcança.

 

Como, segundo o autor, o intelecto se trata “de uma forma lapidar de sensibilidade que é informadora do sensível, [que] serve para apreender os fenómenos próximos dos sentidos mas não os espirituais”, defende ele que “as respetivas funções de cada nível de conhecimento (razão, intuição) devem ser informativas uma da outra, tendo em conta que “o sábio analisa, decompõe; o filósofo generaliza, dá o conjunto; o poeta dá o significado anímico das coisas, a sua própria natureza” 11. A inteligência, além de dedutiva e indutiva (científica), é também intuitiva e, enquanto tal, compreende as duas “faces da mesma moeda”, que, neste caso, são o mundo simultaneamente formal e substancial, transitório e intransitório. Pascoaes liga a intuição à simpatia como a ligação natural entre as coisas, permitindo deste modo a real comunicação, e destaca por isso mesmo a poesia e os verdadeiros poetas 12 como os privilegiados da intuição, capazes de alcançar esse lado ainda não apreendido pela ciência e, deste modo, antecipá-la ou mesmo sugerir-lhe campos de pesquisa.

À Ciência oficial, diz o autor, falta este lado comunicativo e afim, o que a impede de percecionar as verdadeiras causas dos fenómenos; e o materialismo científico, ao apresentar o mundo como um zumbido atómico ou focos de insetos turbilhantes, sem a “harmonia das esferas” platónica, conduz ao ceticismo, na crença de que o universo é em última análise uma simples e casual reunião atómica. A tese de Darwin é, para o autor, muito parcial, por não ser capaz de explicar o aparecimento de um ente capaz de arte ou religiosidade; e como é que “indo além de si próprio, o réptil ganhou asas e o velho orango se humanizou fugindo da origem das espécies para a Bíblia”13, além de que a hipótese científica do “acaso” tira a coerência ao encadeamento do mundo fenoménico.

Intui, assim. que à natureza subjaz necessariamente um Princípio Organizador Inteligente subjacente ao mundo visível, pois “como admitir um organismo, essa lógica animada, ciência ou verbo encarnado, sem um Princípio Organizador Inteligente? Princípio imanente, entranhado em cada célula e transcendente ou abrangendo-as num todo definido”.14

Enquanto a ciência oficial não captar este lado oculto da Existência, torna-se “um esquema artificial do cosmos, de resultados práticos, mas inexpressivo da realidade”, e uma vez que, as sociedades humanas mudam constantemente quanto à interpretação dos fenómenos de acordo com o percurso do espírito (naturalmente definidor do ente humano) à procura de si mesmo, o autor prevê outras futuras formas de apreender a realidade.

A negação por parte do homem de algo que o transcende, diz Pascoais, é normal no percurso evolutivo e na passagem por um processo de individualização em que o ser humano começa por “fazer uma ideia de si próprio, concebendo-se como um princípio ativo inconfundível, um cogito ergo sum”, antes de se transfigurar em Homem Universal: “considerado no seu valor existencial – o valor das suas qualidades sentimentais e intelectuais, vistas à luz de um novo critério, liberto de preconceitos clássicos ou estritamente mecanicistas”15.

Sobre Religião e Ética

Este Homem Universal configura, num dos livros da sua última maturidade – Santo Agostinho 16 , a apologia de uma religião-ética que expressa como Ateoteísmo.

Dado que tal vocábulo, ao juntar dois termos antagónicos, Ateísmo e Teísmo, lhe valeu de imediato a antipatia da religião oficial, Pascoaes, sempre com o objetivo de se tornar compreendido, vai nesta obra, e numa fluidez recreativa, retomar os seus velhos temas. Cingindo-nos a ela, começamos por dizer que, para se entender a coerência desta sua tese, é necessária uma breve referência à Dinâmica Existencial, tal como a interpreta.

Deste modo o autor, ao recuar, no exercício da sua abstração, até ao momento em que o Nada-mesmo (Deus transcendente ou Princípio primordial) se converte em Tudo-outros (Deus manifestando-se), traz a ideia de um Deus a-teu, ou, um Deus que transgride a sua condição absoluta, e que, num ato recreativo da sua própria identidade, gera a vida cósmica dando origem ao Universo. Esse ato Divino inicial passa a repetir-se sucessivamente em toda a manifestação através de três princípios articulados, que são para o autor os dinamizadores do processo existencial 17, e por isso Pascoaes define a manifestação, também, como um percurso de Coexistência.

Se nos artigos iniciais de A Águia, Pascoaes deixa a ideia de um Cosmos como uma sucessão de matéria em vários estados diferenciados em que Deus é uma criação humana de uma idealidade suprema e “o espírito é matéria evoluída”18, já em outras obras, nomeadamente neste livro, introduz uma outra amplitude explicativa quando se refere ao Princípio Primordial anterior aos seres e entes. É para ele a Primeira Origem ou “uma espécie de Origem das origens onde se desdobra uma segunda Origem que se manifesta como dualidade positiva e negativa (…) se a primeira Origem é una, simples, absoluta, não o é na sua atividade, considerada também como originária, ou como revelação cognoscível do incognoscível ou zero a ganhar valor quantitativo, por um processo místico matemático, que se perdem no infinitamente pequeno e no infinitamente grande.”19

A segunda Origem é, para o autor, o início do ato da criação divina, que carateriza, como um ponto de máxima condensação marcando a passagem do imaterial para o material, mas em que o “imaterial já não é imaterial e não é ainda material mas uma confusão dos dois elementos, o ingrávido e o grávido, é a luta pela conquista da existência no seu instante mais incerto.”20 O Cosmos só é real na sua interconexão com o Princípio primordial e não em si mesmo, só tem verdadeiro ser dentro desta relação.

Assim, do macro ao microcosmo, o autor descreve o processo existencial como uma teia envolvente de necessidade e reequilíbrio num processo rítmico e em trânsito entre uma Origem e um Fim. Tal processo, a partir de um imaterial inicial ou subnatural, inicia-se com uma progressiva materialização para, a certa altura, se inverter numa progressiva espiritualização, culminando numa fase última espiritual ou sobrenatural. As fórmulas metafóricas que usa para elucidar esta perspetiva são profusas e constantemente recriadas, com a intenção de relevar a mudança permanente que em tudo observa. A dor e sacrifício são os motores do transformismo evolutivo, e a memória Saudosa, um aliado importante: “A memória é o jardim do Éden, a origem das cousas. Daí o nosso culto da Saudade; não desta ou daquela saudade, mas da saudade no infinito ou do infinito (…) a transcendência da sua intimidade idêntica à nossa, pois há um ponto em que tudo é o mesmo ser”.21

O Homem traduz na sua complexidade esse momento divino inicial, e daí que ele próprio se negue ou se afirme como divino, ou melhor, negue e afirme o divino, numa busca dinâmica da sua identidade. O ser humano, individual ou grupalmente, não é simplesmente ateu ou teísta mas em trânsito entre esses dois momentos. Para o autor, de acordo com esta sua especulação, ser dogmático é como que contranatura. Daí a sua crítica à conversão de Santo Agostinho ao dogma católico, considerando que o santo, ao tomar tal atitude, abdicou do seu inconformismo criativo e poético para se amoldar ao conforto da teologia tradicional e ao seu velho Deus.

A harmonização da ideia de Deus deve reformular-se de modo a acompanhar os novos conceitos acerca do universo, pois, diz Pascoaes, “a ciência divina não pode ficar atrás da humana.”22 O novo Deus, mais de acordo com a substância íntima do ser Universal, implica a necessidade de vivificá-lo com uma atitude criativa e atenta ao mundo em renovadas formas de expressão (artística, religiosa, filosófica ou científica) e também na contemplação individual. Assim o autor releva o valor mitológico da ideia de Deus (idealização) e interpreta o mito, não como o fruto da incapacidade humana explicar o desconhecido, mas como um testemunho simbólico portador de uma verdade que necessita de ser valorizada dentro do contexto contemporâneo. Nas suas palavras “a sobrevivência de Deus passa por essa operação trans-mitificadora ou em busca da trans-significância do mítico – que é ao mesmo tempo uma busca do seu verdadeiro rosto e uma ação purificadora da ideia em que a tradição cultural primeiro o fez viver, para com o desgaste do tempo o fazer perecer”23.

Isto permite dizer que Pascoaes vê na Grécia antiga a concretização do ideal estético, e no Cristianismo o aperfeiçoamento ético, sendo o passo seguinte na civilização humana a união reformulada desses momentos como futura religião que marca a recuperação da consciência do supranatural e da mitologia. Trata-se do que chama de Supra-teologia, na medida em que inclui todos os seres e não somente os humanos, porque, onde estiver o ser humano estão todos os seres, pois o homem sintetiza em si todo um percurso evolutivo anterior. São Francisco de Assis e o filósofo alemão Schopenhauer exemplificam o inegoísmo humano ao incluírem esta mensagem, antecipando desta maneira a futura Supra-teologia

Um dos símbolos mais expressivos de que o pensador amarantino se serve neste livro, é o boi que aquece o menino no presépio, sem o qual “morreria de frio o Cristianismo recém-nascido: “Da sua boca sai o Evangelho de Cristo, num Mugido. Este mugido, posto em linguagem articulada, fecharia todos os açougues”.24 Por outro lado, fazendo a ponte entre o sagrado e o profano, o boi Ápis é também símbolo da condição humana: “Míseros deuses à semelhança do boi Ápis. Inconsciente da sua própria divindade, o boi suja-se na sua própria bosta.”25

Pascoaes, nesta sua reflexão, não se detém no humano tal como o conhecemos, ele conduz-nos ao supra-humano ou Homem Adâmico 26, precisamente aquele que na sequência da natural evolução chega a uma consciência abrangente e menos dependente do determinismo mecânico das leis biológicas, e embora se referira a um futuro ainda em maturação dentro das sociedades, explica que sempre emergiram pessoas excecionais que configuram este tipo humano futuro, como é o caso dos génios impulsionadores da evolução.27 Mas por enquanto, diz o poeta, “quem governa não é o nosso eu” mas, sim, “a plebe sentimental, dirigida por dois chefes, o ódio e o amor, e vários subchefes, a vaidade, a cobiça, a inveja, a modéstia, o interesse”28, e apela por isso ao esforço necessário em cada um para que “transitemos do homem carnal, foco darwínico de instintos grosseiros e cruéis, para o homem Adâmico”29.

O seu Ateoteísmo inscreve-se num registo ético sem concessões. A tal respeito, contornaremos aqui toda a formulação à volta da noção de Mal e Bem Agostiniana, que Pascoaes, de acordo com a sua Dinâmica Existencial, não subscreve, e avançaremos para as suas consequências mais gerais.

Assim, prevê o autor que, à medida da evolução das nossas sociedades, alargar-se-á progressivamente o número daqueles capazes de compreender o impacto que tem no todo, social e natural, a direção das suas próprias atitudes, e a responsabilidade da sua atuação no contexto geral da existência. Quando isso acontecer, afirma o pensador, influenciará a própria estrutura orgânica, uma vez que “se a consciência intervém na direção das nossas tendências, que podem ser várias ou uma em vários sentidos, para contrariar as más e auxiliar as boas, tal intervenção já se revela celularmente, no construir de órgãos purificadores dos elementos nocivos ou contrariantes do seu intuito que é viver”30. A inteligência deve ter como aliada a ideia moral.

O ideal religioso-ético de Pascoaes é São Francisco de Assis: “a humildade cristã, em São Francisco de Assis, dilatou-se em amor universal. E o Cristo franciscano aparece-nos para além do pauliniano, como o Redentor infinito, porque onde estiver o ser humano, estão os outros seres (…) Cristo humanizou-se até ao último dos escravos e universalizou-se em S. Francisco até à derradeira criatura”31.

A redenção da humanidade passa pela redenção de cada ser: “uma injustiça ou mil injustiças, na balança do arcanjo, tem o mesmo peso. O rugido bovino e o grito humano significam a mesma dor. Deus não os distingue (…)”32. Todavia, há que diferenciar piedade e pietismo. Se o primeiro é ser fraterno ou irmão, já o segundo significa “ter pena dos outros, como quem olha de cima para baixo, ou do alto da sua alegria se compadece dum triste caminhante”33.

Cabe ao homem despertar em toda a natureza esse lado ascensional e instaurar progressiva e efetivamente a fraternidade universal. O próprio Pascoaes afirma não ter “qualquer prosápia antropológica” e não admite a Humanidade “como aristocracia ou burguesia, nem os outros seres como plebe ou multidão de escravos”, pelo contrário, considera-os “muito franciscanamente irmãos”34. Nesta ordem de ideias, a par de uma transfiguração ideológica, prevê também uma transfiguração linguística. A linguagem futura terá uma diferente e adequada simbologia para expressar um pensamento, também ele mais sofisticado: “Quando falaremos a linguagem verdadeira? Talvez não seja falta de vocábulos, seres grosseiros e carnais carregados de heranças hieroglíficas ou do tempo das cavernas, mas de puros signos abstratos ou de uma qualidade transcendental (…)”35.

Em jeito de conclusão, e porque muito há a descobrir nos seus livros por leitura própria, podemos acrescentar que Pascoaes é um autor de referência dentro da literatura / Filosofia edificadora. Deixou-nos como legado a esperança, e não aquela outra ideia, a de um passadismo tolhedor, como muitas vezes querem fazer crer aqueles que nunca o procuraram entender ou ler.

Clara Tavares

Licenciada em Filosofia

1 No contexto deste artigo, cabe dizer que nos parece tal período representar no nosso país uma época onde uma abordagem desassombrada e corajosa das temáticas Mundo, Absoluto e Divino, feita sob a égide de uma genuína busca e rigor intelectual, antecedeu e acompanhou os movimentos espiritualistas emergentes no resto do mundo, sendo deste modo um incontornável contributo para uma renovada e esclarecida reflexão dessas mesmas temáticas.

2 Teixeira de Pascoaes, “O Génio Português na sua Expressão Filosófica, Poética e Religiosa”. In: A Saudade e o Saudosismo, p. 94.

3 Teixeira de Pascoaes, “Ao Povo Português, A Renascença Lusitana”. In: A Saudade e o Saudosismo, op. cit., p.32.

4 Tal como se pode ler num outro artigo sobre Pascoaes (no nº 8 da BIOSOFIA) de José Flórido, esta palavra não é utilizada por Pascoaes no sentido separatista. Por outro lado, parece-nos possível confluir esta ideia com o que é ensinado no Centro Lusitano acerca dos sete raios e que se aplica também às nações.

5 O nosso autor não se cansa de esclarecer que Saudade não diz respeito somente a um atributo nacional, mas significa sobretudo a lembrança presente no íntimo de tudo quanto existe do Princípio Originário de onde emana a Existência, e que esta palavra, alude sobretudo, à memória de uma proveniência comum que, a ser consciencializada por cada um em particular e pela humanidade em geral, permite uma outra visão do mundo levando a uma consequente atitude não antropocêntrica e a um novo paradigma ético, cuja base define uma igual preocupação e respeito (compaixão) por todas as formas de vida. Idem, p. 36.

6 Reproduzido em Fernando Pessoa, Textos de Crítica e Intervenção, Lisboa, 1980, pp. 21, 22.

7 Teixeira de Pascoaes, Homem Universal, compilação e notas de Pinharanda Gomes, Assírio & Alvim, Lisboa, 1993.

8 Idem p.19

9 Teixeira de Pascoaes, Génio Português, op. cit. p. 90

10 Idem p. 48

11 Idem, p. 19.

12 Parece-nos evidente que, a ênfase dada por Pascoaes aos poetas não se refere somente a quem faz versos mas sobretudo àqueles que descodificam a realidade através da forma de conhecimento intuitiva ou de síntese, ultrapassando a forma, muitas vezes labiríntica e sinusoidal da ciência.

13 Teixeira de Pascoaes, Santo Agostinho, op. cit. p.99.

14 Teixeira de Pascoaes, Homem Universal, op. cit. p.77.

15 Idem, p. 3. Diz ainda “Creio bem que o animal racional é de origem patológica (…) o homem atual é também um novo doente ou o início de um outro ser.” Idem, p. 50.

16 Teixeira de Pascoaes, Santo Agostinho, notas de Pinharanda Gomes, Assírio & Alvim, Lisboa, 1995.

17 Jorge Coutinho apresenta estes princípios como: Princípio da Incerteza; Princípio da Excedência (vontade de ir mais além); Princípio da Contradição (Jorge Coutinho, O Pensamento de Teixeira de Pascoes, Braga 1995). Mas Paulo Borges, tendo em conta que Pascoaes traduz a ideia “de um Uno que se plurimorfiza sem perder a unidade”, classifica-os como: Princípio de Identidade Incerta; Princípio de Identidade e Contradição complementares. (Paulo Borges, Princípio e Manifestação; Metafísica e Teologia da Origem em Teixeira de Pascoaes, Lisboa, 2008.)

18 Teixeira de Pascoaes, O Génio Português na sua Expressão Filosófica, Poética e Religiosa, op. cit. p. 87.

19 Teixeira de Pascoaes, Santo Agostinho, op. cit., p. 123.

20 Idem, p. 62.

21 Idem, p. 281.

22 O conceito de divindade já não cabe no seu arcaísmo, é preciso o homem libertar-se dele, apesar da dificuldade da tarefa: “Como custa libertar Deus de Deus, de Jeová, de Júpiter, de Alá! Lidar com velhos temas que já nada exprimem, galvanizar múmias é a tragédia dos poetas.” Idem, p. 178.

23 Idem, Ibidem.

24 Idem, p. 326.

25 Idem, p. 325.

26 Homem Adâmico, que interpretamos como o verdadeiro descendente de Adão, ou o antropos depois do antropóide, segundo Pascoaes.

27 Cervantes e uma longa lista de poetas são os exemplos que dá …

28 Idem. p. 73.

29 Idem, p.48.

30 Idem, p.189.

31 Idem, p. 330.

32 Idem, p. 275.

33 Idem, p. 105.

34 Idem, p. 317.

35 Idem, p. 48.

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