Aforismos

 * Temos a obrigação de agir segundo aquilo que entendamos ser o nosso dever, o qual, em cada momento, precisa de ser: universal, importante, útil, verdadeiro, desinteressado, vocacionado para o bem.

Com efeito nada que seja bom pode omitir qualquer das cinco características apontadas. Não é bom aquilo que se destina a apenas um ou alguns em detrimento dos outros; não é bom aquilo que sacrifica o importante ao secundário; não é bom aquilo que é, em dada situação, inútil ou pouco útil; não é bom aquilo que se reconhece não ser verdade – porque se os meios não são legítimos, os objectivos, por melhores que se apresentem, são maléficos a médio ou longo prazo; não é bom aquilo que é sectário, ou aquilo que sendo um particularismo qualquer ou um epifenómeno, é tomado por universal e essencial.

* Os Mestres de Sabedoria e Compaixão, de que falam a Teosofia, não são padres; são cientistas perfeitos.

* Não basta transmitir umas curiosidades espirituais dispersas a uma humanidade à beira do precipício. É preciso saber por que está a acontecer e as concepções que levaram ao pré-cataclismo. Se não contribuirmos para mudar as concepções erróneas sobre a Vida que todos comungamos, não estamos a bem-fazer no interesse de ajuda aos outros, estamos a perder tempo com “rodriguinhos” que, pelo menos para mim, são destituídos de mérito.

* Nenhum livro de Ciência Espiritual ganhou um prémio Nobel, que eu saiba. Um best seller é raro ser verdadeiro. Se fosse espiritualmente verídico não era lido por muitos, tal é a distorção da mente humana. Voltaire, quando era muito aplaudido, perguntava: o que disse eu errado para ser tão popular?

 

* O verdadeiro místico é seguro e confiante, e tem uma alegria interior inexpugnável e eterna, em qualquer circunstância. Não pode ser confundido com qualquer falso religioso, sádico ou masoquista.

 

* A Evolução de Darwin apresentada como nova, e restrita ao físico, é um conhecimento velhíssimo. No entanto, a nova apresentação tem alguns erros que o original não continha.

* Não é tanto a concentração sobre um assunto que cansa mas sim a incapacidade de concentração.

* A existência é Una; não é uma colecção de coisas + consciências + vidas.

A existência é o Ser Uno Indivisível, em si mesmo, porém manifestado sob a forma ilusiva do dividido, repartido. Logo, cada forma diferenciada, cada vida pessoal, cada consciência individual é potencialmente expressão de todo o Ser.

* É necessário ter presente que a existência de polaridades não implica obrigatoriamente duas coisas diferentes. Numa bateria, o pólo positivo opõe-se ao negativo por uma diferença de cargas, que origina um fluxo de um para o outro pólo. Não são duas coisas: é uma unidade revestindo a forma de uma bipolaridade. Uma vez mais fica demonstrado: sempre que se estabelece uma bipolaridade, por separação ou criação de níveis, aparece uma força tendente ao restabelecimento da unidade. Quando se permite a passagem do fluxo de um para outro lado, há um fluxo eléctrico.

* Num primeiro estágio, o homem é unitário com a Natureza à periferia – é uma das manifestações periféricas do Todo.

Num segundo estágio, é como se se encontrasse isolado entre a periferia e o centro; e só indirectamente, através do que lhe chega da periferia ou do centro, tem acesso a todo o círculo – à unidade, ao colectivo. Ficamos com a ideia de que este segundo estágio é transitório por definição, um intermédio, uma ponte de passagem. A mudança não se faz sem grande sofrimento. Enquanto está na fase de transição, o homem é sujeito à pior das suas experiências: o viver separado. Por isso o problema crucial da Humanidade, no segundo estágio, é o Amor. Apenas os místicos podem ficar sós porque na realidade vivem no mundo mais habitado de todos – o interior, onde são tudo e todos.

Num terceiro estágio, o homem é unitário com a Natureza no centro. Deixa de ser um fragmento da manifestação periódica e é cada vez mais toda a Manifestação.

Humberto Álvares da Costa

Licenciado em Medicina. Investigador e Escritor. Antigo Secretário-Geral da Sociedade Teosófica de Portugal

 

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