A Cultura oficial perante A Doutrina Secreta

Para as gentes da cultura oficial, incluindo a grande parte dos “académicos”, A Doutrina Secreta de Helena P. Blavatsky é geralmente desconhecida, porque as pessoas estão viciadamente formatadas quanto ao que devem procurar ou não. Quando chega a ser conhecida, representa quase sempre um incómodo. Implica(ria) um estudo que não tem o apoio dos interesses do mundo nem serve os objectivos de promoção e brilho externo. Depois, o seu conteúdo é-lhes basicamente incompreensível. Habituadas que estão à mesquinhez de interesses e aos voos rasteiros das concepções correntes, a grandiosidade do seu sistema, como ciência-sabedoria de tudo, escapa-se-lhes por inteiro. 

E para aqueles “investigadores solenes das coisas fúteis”, a grandeza de A Doutrina Secreta é reduzida à limitação da sua capacidade mental. Debalde tentam esquartejá-la para tentar que caiba nas categorias mentais e sistemas interpretativos vulgares – e simplistas. Quando muito, pegam em aspectos laterais e acessórios, mesmo assim mal entendidos, e ignoram o que é essencial e a existência de um sistema completo e coerente. Seguem o hábito de – no que devia ser uma busca inteiramente autêntica sobre a(s) verdade(s) – tratar os temas como quem pega e mordisca de vez em quando uns frutos secos, juntamente com uns tragos de cerveja. Assim como quem passa o tempo, descomprometidamente…

A perspectiva cosmogónica é algo de que não têm nenhuma noção e para que carecem totalmente de instrumentos de compreensão. O mesmo acontece ao se depararem com a Antropogénese e a Psicologia apresentadas na obra, porquanto aos servidores da cultura oficial falta subtileza e amplitude, tanto mental como intuitiva, e lhes convém a triste “normalidade” humana própria de apenas uma época e de apenas um modelo de pensamento. A completa mudança de paradigma proposta – tanto explícita quanto implícita – apavora e afugenta o homem moldado e conformado ao interesseirismo imediato.

Ver o universo e a existência “de cima para baixo” e “do geral para o particular”, do topo das montanhas para os vales circundantes, e reajustar por completo a noção do que é real ou não, implica uma tão profunda revolução de consciência, que, sem coragem para a levar a cabo, muitos preferem considerar tais possibilidades como uma quimera ou uma loucura.

Tal conduz a que uma atitude muito habitual seja a de rebuscar a todo o custo (e/ou com a maior ligeireza e atitude preconceituosa) motivos para repudiar A Doutrina Secreta, mesmo que, em grande parte dos casos, com base numa frase isolada lida fora do contexto – às vezes uma frase que expressa uma opinião alheia que a seguir a autora contesta – ou, muito frequentemente, com base no “ouvi dizer”. Muitos dos opinadores da cultura vigente desconhecem o que efetivamente foi e o que não foi por ela afirmado. É hoje assim, como há décadas e séculos atrás. Quando A Doutrina Secreta de Helena Blavatsky foi publicada, em 1888, houve um conceituado jornal americano que fez uma crítica – obviamente negativa – antes mesmo do livro ser lançado. Que dizer?…

É simples, muito simples afinal. Tanto o livro A Doutrina Secreta, como a Doutrina Secreta enquanto sabedoria universal de todas as idades, representam uma verdadeira contracultura face aos paradigmas mentais e comportamentais prevalecentes.

É muito diferente, totalmente diferente, buscar com toda a exigência interior a(s) verdade(s) – melhor, a sua parcela que a relatividade do nosso entendimento permite abarcar – ou comodamente falar sobre a (impossibilidade) da verdade, como meros jogos florais, de entretimento ou de carreirismo.

Há, todavia, quem tenha coragem para empreender o seu estudo sério, amplo e consequente. Quando tal acontece – e o motivo é justo, altruísta –, abrem-se incontáveis pistas de investigação, tem-se acesso a um novo e integral sentido e a uma compreensão relativamente a tudo: religiões, correntes filosóficas, tradições espirituais, ciência e psicologia, dor e criatividade, a essencial unidade de tudo quanto é, o caminho a seguir… Concomitantemente, gera-se a substância de um contentamento permanente e de uma forte vontade de bem-fazer, com um estímulo anímico que não cessa.

O que ficou escrito aplica-se naturalmente também aos muitos outros escritos de Helena Blavatsky, às Cartas dos Mahatmas e a outra literatura estreitamente coligada e com semelhante alcance.

José Manuel Anacleto

Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

 

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