Da Mundividência da Ciência

Vivemos num mundo extremamente complexo, onde múltiplas causas geram múltiplos efeitos, e onde a nossa capacidade de acção, potenciada pela tecnologia alentada pela ciência, se vai tornando cada vez mais impactante. No entanto, continuamos a agir como se as ondas de propagação dos nossos actos se dissipassem ali mesmo, à nossa frente; como se não tivessem qualquer contribuição para os perigos que cegamente enfrentamos

: depleção avassaladora dos recursos naturais, extinção acelerada de espécies, poluição desmesurada, alterações climáticas com efeitos devastadores, e a massiva instrumentalização e sacrifício da vida de todos os seres, humanos incluídos! Insistimos em visões fragmentadas e de curto prazo, ignorando os potenciais efeitos globais que já a médio prazo nos afectarão. Mas infelizmente esta é a mundividência do actual paradigma economicista/financeiro, político, cultural, científico e social. E aqui, o papel da ciência tem, como aliás sempre teve, um papel determinante, pois a mundividência da ciência, o modo como ela “vê” o mundo, modela a compreensão do próprio mundo e naturalmente, qual o nosso papel nele, acabando assim por modelar o nosso comportamento.

A Ciência física, independentemente das conclusões erradas e/ou precipitadas – naturais e susceptíveis de serem corrigidas, de acordo aliás com os seus princípios metodológicos –, é um esforço digno e respeitável. Representa, somente, uma parte da verdade – a sua camada mais externa, na maioria dos casos – mas… é um caminho! Se, em muitos aspectos, pode contentar-se em descrever um universo árido e sem “porquê nem para quê” – pois, na verdade, apenas pretende responder ao como; e se, em muitos aspectos, pôde abafar alguns dos mais nobres anseios do ser humano, tem trazido em contrapartida bens inestimáveis à Humanidade-como-um-todo: a exigência de seriedade e de (tentativa de) demonstração de qualquer afirmação, o desmantelamento de muitas superstições, receios e crendices, o impulso ao desenvolvimento de um funcionamento mental capaz de compreender correcta e objectivamente, sem as desvirtuações dos subjectivismos pessoais e ilusórios”1.

Sobre o papel da ciência, diz-se frequentemente que a Ciência é amoral, os homens é que podem utilizá-la bem ou mal – para propósitos egoístas ou para o bem comum de tudo e todos. Mas porque a ciência é uma função humana, não a podemos divorciar de um propósito, do seu propósito. Porque são os homens que fazem ciência, não poderemos mais continuar nessa espécie de esquizofrenia, em que o conhecimento é produzido e depois entregue cegamente a quem dele se quiser servir, literalmente, a seu belo prazer! E sabemos que sem um desígnio Maior, o prazer humano não passa de auto-centramento, auto-satisfação segundo as vias de menor resistência que conduzem à busca de reconhecimento, fama, riqueza material, poder. Estamos, porém, convictos de que as nossas aspirações profundas se dirigem para um propósito mais elevado: a descoberta da nossa-de-tudo-e-todos Natureza Primordial, esse assombroso desvelar da Verdade última, a libertação da natureza ilusória do mundo. E sobre o assombro, sobre esse assombro, não resistimos a recordar aqui uma afirmação lindíssima de Nisargadatta Maharaj. Dizia ele em Asi Tat Twam – “Eu Sou Aquilo”, conversações com Sri Nisargadatta Maharaj: o assombro é o amanhecer da Sabedoria.

Com o intuito de enriquecer esta reflexão a que nos propusemos, incluímos em seguida pequenos excertos de um texto mais alargado de Boaventura de Sousa Santos2, os quais consideramos extremamente relevantes: “O nosso tempo é um tempo paradoxal! É, por um lado, um tempo de grandes avanços e de transformações dramáticas, dramaticamente designadas por revolução da comunicação, revolução electrónica, revolução da genética e da biotecnologia. Mas é, por outro lado, um tempo de inquietantes regressões, do regresso de males sociais que pareciam superados ou em vias de o ser: o regresso da escravatura e do trabalho servil; o regresso da alta vulnerabilidade a doenças antigas que pareceriam erradicadas, o regresso das repugnantes desigualdades sociais que deram nome à questão social no final do Séc. XIX; enfim, o regresso do espectro da guerra, talvez agora mais mundial que nunca e com uma temperatura (quente? Fria?), por agora, ainda indefinível. O paradoxo está em que, se, por um lado, parecem hoje, mais do que nunca, reunidas as condições técnicas para se cumprirem as promessas da modernidade ocidental, como a promessa da liberdade, da igualdade, da solidariedade e da paz, por outro lado é cada vez mais evidente que tais promessas nunca estiveram tão longe de ser cumpridas como hoje. (…) É possível caracterizar o nosso tempo como um tempo de problemas modernos (as promessas por cumprir da modernidade ocidental) para os quais não há soluções modernas. (…) a ciência moderna foi muito mais eficaz em ampliar a capacidade da acção humana do que em ampliar a capacidade de controlar as consequências da acção humana. Por essa razão, as consequências da acção científica tendem a ser menos científicas que as acções que as causaram. À medida que os nexos de causalidade se volatilizam, o mundo enche-se paradoxalmente de consequências indesejadas de acções desejadas.”

Boaventura de Sousa Santos fala desassombradamente destes paradoxos. E não sem assombro, não sem alguma estupefacção, outras vozes têm feito o reparo de que afinal o paradigma actual da utilização da ciência… está desfasado da própria ciência! Pois não está ele desfasado da mundividência da Física moderna, onde se fala em entrelaçamento quântico, da não localidade dos fenómenos, da interligação entre o observador e o objecto observado, da existência de partículas virtuais que momentaneamente aparecem e desaparecem da existência apenas com o único propósito de mediar interacções, etc., etc.?

Parece-nos pois urgente que a ciência se liberte de uma filosofia em que já não se pode, sequer, rever e se permita o mergulho profundo no assombro que já antevê, assim podendo insuflar em nós o gosto por questões mais amplas, mais profundas, isentas de auto-centramento – assim nos instigando a aspirar pelo tal assombro libertador, aurora da Sabedoria. É neste sentido que em seguida se propõem, à laia de manifesto, algumas reflexões que julgamos pertinentes. Felizmente não são originais, no sentido de se basearem em ideias nunca antes divulgadas, sendo antes o reflexo de um novo paradigma de pensamento já em plena emergência. São, contudo, reflexões-reflexos que muito gostaríamos de ver debatidas extensa e abertamente em círculos cada vez mais vastos. Com elas fica aqui o voto de que em breve possam fazer parte das linhas orientadoras de uma nova ciência abraçada globalmente – uma ciência desperta para o bem de tudo e de todos!

Que Ciência?

Ciência do conhecimento ou Ciência Sábia? Qual desejar? A ciência que acumula conhecimento após conhecimento, em busca da verdade relativa/convencional ou a Ciência Sábia – a Ciência que lucidamente reconhece no desenvolvimento tecnológico desordenado uma fonte de sofrimento incomensurável, porque agente de devastação dos recursos naturais e de degradação do meio ambiente? Inequivocamente, há que dar voz à Ciência, que, não negando a sua quota-parte na responsabilização do presente estado do planeta, reconhece ainda que não basta melhorar as coisas, antes se impondo urgentemente uma mudança para um novo paradigma mental, ético, e civilizacional. Temos em vista um novo modelo, de abrangência tão vasta quanto o necessário para que nele brilhem e se reflictam todos os restantes re-ajustes focais – o da ciência inclusive – necessários à alteração profunda que se impõe. Há assim que dar permissão e força a uma Entre-SerCiência, para que oriente uma tecnologia ao serviço do bem comum e não do produtivismo e consumismo que se reforçam e exponenciam num crescente círculo infernal que vai devastando e absorvendo tudo ao seu redor. Mas para isso há que re-pensar os valores com que somos pensados, valores esses dos quais não nos damos conta por neles nos encontramos mergulhados e também porque exploram as nossas vias de menor resistência. Há pois que abandonar as acções negligentes, motivadas por um auto-centramento que preguiçosamente se recusa a considerar a esfera mais alargada onde são percepcionáveis as infindáveis interacções com tudo e todos os que nos rodeiam. Há que despertar para um novo paradigma, mais exigente, certamente, mas onde as acções orientadas para o bem comum – dos humanos e não-humanos, e do meio ambiente de cuja harmonia ecológica todos dependem – produzirão o fruto de uma humanidade mais integrada, sabedora e realizada. Há que ver para além dos muros da família, do clã dos amigos, do grupo de conhecidos. É necessário dar espaço ao afã da cooperação, à febre benéfica da solidariedade tendente a eliminar os vírus da pobreza, da opressão e da exclusão – opressão e exclusão de raça, género e espécie. Assim, urge fazer escolhas conscientes e urge dar lugar a uma Ciência cujas raízes, alimentando-se do par intuição-razão, assegurem o desenvolvimento de acções que constituam estruturas fortes e adequadas ao florescimento de uma vida sustentável, a Vida.

Que ferramentas?

A razão concreta, “na maioria das vezes desapoiada da componente abnegação, amor e altruísmo, num sentido amplo e universalista”3, opera dentro de um estreito limite circunscrito pelas representações habituais nas quais estamos mergulhados e servem como ambiente de referência. Deve então haver algum outro instrumento que justifique os voos inspirados dos pensadores arrojados que, numa visão mais abrangente e penetrante do que a que caracterizava a época em que viveram, os levou bem mais longe, muito para além da estreiteza das paisagens conceptuais reguladas pelos poderes então instalados. A esta ferramenta chama-se intuição-inspiração 4. Mas essa ferramenta é assaz peculiar, pois por maior que seja o empenhamento devotado à sua procura, enquanto esta for empreendida no exterior, todos os esforços para que seja encontrada, serão gorados. De facto, ela reside no âmago original, perfeito e puro do homem – nessas «profundezas do ser universal, anterior e posterior a toda a determinação e representação histórico-cultural»5 – e a sua descoberta apenas poderá ser realizada numa busca orientada para a prática da virtude e desenvolvimento de sabedoria, num total esquecimento de si, para uma completa entrega à esfera dessa fraternidade universal, de tudo e todos englobante. Daí a necessidade de reconquistar valores como a preocupação com a vida em todas as suas formas, a preocupação com a verdade, o sentido de justiça, a responsabilidade, o dever de solidariedade, enfim, de toda uma expansão de consciência no sentido da realização do Bem universal que é, afinal, equânime. Assim, que os opostos razão/imaginação, como é da sua natureza, coincidam, mas de preferência, «além do arcanjo de espada flamejante da razão dualista»6. Que a intuição derramada sobre a razão possa, pois, ser a ferramenta privilegiada da Ciência.

Então, almejemos um País das Maravilhas7 e, tal como Alice, ousemos passar para o outro lado do espelho das nossas representações saturadas de pré-conceitos redutores, alienantes, desactualizados, desviantes. Demos asas à imaginação e procuremos esse lado onde reine a predisposição para servir lúcida, equilibrada e desinteressadamente ao bem comum. Esse reino onde a separatividade característica da inteligência concreta é superado pelo pensamento abrangente da razão pura-abstracta iluminada pela luz vivificadora da intuição-amor-sabedoria-compaixão. Esse reino onde o conhecimento é não-dual e naturalmente se coloca ao serviço da Vida, numa postura livre de toda a mesquinhez e utilitarismo imediatista. Será uma utopia?… Ou algo urgentemente inadiável?

Assim, pugnemos por uma Ciência de conhecimento não dualista, apto a explorar para além das distinções razão/imaginação, tecnologia/natureza, humano/animal, vivo/inanimado, sujeito/objecto… por uma Ciência Holística, por uma Entre-SerCiência que conheça por dentro, por intuição. “A intuição é a faculdade que permite aceder a uma sabedoria íntima, real e essencial, adveniente do contacto directo com o âmago, com a realidade, com a natureza íntima dos seres e dos fenómenos. Tal só pode ser concomitante com a vivência de um Amor inegoísta, forte, lúcido e que não se confina à própria pessoa e ao que lhe está próximo; de um Amor transpessoal, vigoroso, desinteressado, e dirigido ao Todo em cada uma das suas partes” 8.

Que características?

Visemos uma Ciência de fronteiras abertas, assim permitindo o livre fluxo de informações, pensares e reflexões; uma Ciência dialogante que não se circunscreva a uma metodologia fraccionadora, que feche a porta a outros saberes e se negue a possibilidade de recorrer a essas outras fontes.

Visemos uma Ciência que não feche a porta ao âmago original, raiz perfeita e pura do/no homem – plano da plena potência ontológica. Trata-se afinal de não circunscrever a vida e acção ao nível do ex-istir, ignorando ou rejeitando a questão de que é precisamente a partir do, e simultaneamente no seio do in-, que o ex-istir assume o seu pleno significado e potencialidade. Aí, reside o não-lugar de todas as possibilidades, afinal, única fonte de todas as acções meritórias, porque não-acções – aquelas que não visam fruto algum para benefício próprio.

Que objectivos?

Almejemos uma Ciência colocada ao serviço da Vida, esse Todo em movimento, que não segrega o homem, isolando-o da natureza, como se de esferas diferentes se tratassem, como se entre eles não houvesse afinidade interactiva. Assim, que se possa ver a importância de recusar uma existência confinada à irrealidade das acções impostas pelo desejo monolítico do poder económico posto ao serviço do produtivismo e do consumismo – um poder económico que sujeita a Ciência à tecnologia, o Ser ao ter, a reflexão à verborreia, a cooperação à competição, o usar consciente ao consumismo devastador, a estética ao culto obsessivo da imagem, o estudo à exacerbação do prazer. Assim, dizemos não a uma ciência mandatada e manietada pelo lucro, e dizemos sim a uma ciência regeneradora que contribua para libertar o homem das amarras do hedonismo. Dizemos sim a uma Ciência que liberte o homem para uma vida salutar-santa-salus-saudável, harmoniosa e feliz – que liberte o Homem do homem (alienado).

Se a Ciência possibilitar o aprofundar do nosso (da humanidade) auto-conhecimento, estará na senda correcta para nos aliviar da doença, da fome, da escravidão de um trabalho pesado-forçado, dos malefícios decorrentes de um meio-ambiente devastado, enfim, das condições adversas que impeçam o livre curso do desenvolvimento das nossas potencialidades como seres completos, além de permitir o correcto desabrochar dos outros reinos de vida.

Assim, pugnemos por uma Ciência integral que utilize a tecnologia como um bisturi nas suas mãos hábeis, guiadas pela motivação nobre de sanar as feridas abertas no planeta. Que realize uma operação responsável e fraterna, que vise o cuidar e reforçar da malha inter-relacional, inter-dependente, em que “vivemos, nos movemos e temos a nossa existência” 9. Já poucas dúvidas restam sobre o estado de saúde do meio ambiente, sobre o diagnóstico cada vez mais reservado que lhe é feito. Então, há que apelar e dar força à ciência-terapeuta, à ciência-sabedoria, compassiva e fraterna, visando o bem de tudo e de todos. Para que no seio dessa matriz-suporte-inter-relacional se possa realizar a re-integração harmoniosa do Homem consigo mesmo, com a Natureza e com o meio ambiente.

Conclusão

Saibamos utilizar com discernimento o fogo da razão. Utilizemo-lo como ferramenta para a obtenção de uma vida plena, fraterna, ao serviço de tudo e de todos, para que, como verdadeiros sábios, possamos saborear directamente a alegria-luminosidade-paz de uma Vida permeada pelos ideais duradouros da Vontade incondicional de bem-fazer, do Amor-Compaixão-Sabedoria todo-abrangentes e da Inteligência diligente de essência espiritual.

Ângela Santos

Doutorada em Química-Física pela

Universidade de Lisboa, onde é docente;

Curso “O Universo e o Plano Divino” pelo

Centro Lusitano de Unificação Cultural;

Curso de Especialização “Filosofia e

Estudos Orientais” pela Faculdade de

Letras da Universidade de Lisboa

Notas:

1 José Manuel Anacleto, “Esoterismo de A a Z”, Centro Lusitano de Unificação Cultural, 2015, Lisboa, p. 343.

2 Boaventura de Sousa Santos (org.) “Democratizar a democracia: os caminhos da democracia participativa”, Edições Afrontamento, 2003, Porto.

3 Isabel Nunes Governo, “Logos, Devas e Elementais”, Centro Lusitano de Unificação Cultural, 2002, Lisboa, pp. 149-150.

4 Acerca da Intuição e da Inspiração, cf. José Manuel Anacleto, “Esoterismo de A a Z”, op. cit., pp. 29-30.

5 Cf. Paulo Borges, “Uma Visão Armilar do Mundo”, Verbo, Edição Babel, 2010, Lisboa, pp. 206 e 213.

6 Idem, p. 213.

7 Idem, p. 216.

8 José Manuel Anacleto, “Biosofia”, nº 13, Centro Lusitano de Unificação Cultural, 2002, Lisboa.

9 Actos dos Apóstolos, XVII, 28.

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