O Som do Silêncio

Nas igrejas, para que se escute a palavra de Deus, pede-se silêncio. A construção destes lugares foi pensada para que esse silêncio fosse o maior possível, a estética estava repleta de dedicação e simbologia para que aquele espaço físico nos fizesse recordar a grandiosidade escondida no nosso interior. Infelizmente, a juventude hiperativa e tendencialmente orgulhosa da sua irreligiosidade, tem aversão a palavras como igreja, templo, oração e, penso que não por acaso, silêncio.

Não sei se sempre foi assim, mas a ausência de palavras tem o costume de criar uma certa ansiedade. Os silêncios são muitas vezes vistos como desconfortáveis, e uns ouvidos sem música penetrante facilmente se aborrecem. No entanto, a minha opinião é de que quanto mais nos enchemos de vibrações externas, menos espaço damos às nossas células para que falem a sua língua, para que cantem a sua melodia, que é a mesma das árvores, dos rios, das pedras e de todos os animais saudáveis.

Somos todos canção e somos todos ouvidos. Considero um objetivo muito legítimo, embora um pouco abstrato, tirar a poeira e a ferrugem desse instrumento musical que somos e limpar também a cera dos nossos ouvidos. Penso que estas são causas que dificultam a comunicação interna e externa. Essa ferrugem e essa cera deixam-nos insensíveis. Vezes a mais, tudo se apresenta como paisagem muda. Falo por mim.

Os artifícios vão poluindo. É preciso limpar os filtros que nos compõem para que possamos ver, ouvir e sentir com mais nitidez. Desconfio que o mundo seja tão mais belo (e aterrorizante) do que consigo notar agora pelas lentes embaciadas. Quero ver e ouvir claramente, quero sentir essa música e esse filme com todos os infinitos ouvidos e olhos que existem em mim.

Quanto mais se pratica o silêncio mais nítidas ficam as sinfonias que nos atravessam. Pequenos sons como a mão a passar no papel, sons constantes como os carros da estrada, outros inesperados como o cantar dos pássaros no meio de Lisboa. Estes e inúmeros mais ganham espaço para serem contemplados como as dádivas que são. Quantas bênçãos são desprezadas pela nossa insensibilidade? Quantas vozes de amor, quantas músicas escondidas não ignoramos nos nossos caminhos? O silêncio, arrisco dizer, parece-se com uma nudez de alma. Contudo, ao pensar em nudez penso igualmente num grito: de chamada de atenção, de protesto, de anseio por liberdade. Ações para as quais o silêncio também pode ser resposta.

Exigimos que os outros, que a rádio, que a televisão ou até que os livros disfarcem este silêncio profundo. Penso que fugimos do que nos salva. Se nos deixarmos abraçar pelo silêncio vemos o efémero e o eterno das coisas, o subtil e o impermanente. Vemos mais cores e ouvimos mais sons. Sentimos mais texturas. O sabor das coisas fica mais intenso. As riquezas passam a ser interiores e assim a preocupação diminui.

Digo tudo isto mas o hábito de fazer e de agir está muito vincado naquilo que, na maior parte do meu dia-a-dia, ainda acredito ser: a minha personalidade. Tenho sentido o silêncio como um caminho muito positivo. Um silêncio sensorial, que permite notar mais claramente os ruídos que a mente produz e tentar voltar a um estado de união com a harmonia da vida, com a melodia do amor e com o ritmo da respiração.

Sofia FrutuosoVieira

Mestre em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores. Autora da dissertação de mestrado: “Bases epistemológicas da engenharia para uma inovação curricular”. 

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