Pai Nosso

Pai Nosso, que estais no céu

Essência-natureza-fonte primordial de tudo, que não estás em lugar algum e enches todos os lugares como o espaço ilimitado onde tudo se manifesta, processa e flui. Não estás no céu por seres céu, espaço luminoso, espaço-consciência-amor infinito, ausência de forma de todas as formas, imo de todos os seres e fenómenos, potencialidade ilimitada na constante, instantânea e interdependente metamorfose de todos os seres e coisas.

Não és Pai nem Mãe porque és tudo, Pai-Mãe-Filho e aquém-além disso em tudo que em ti geras e regeneras e te gera e regenera a cada instante,

santificado seja o Vosso Nome

possamos nós reconhecer o teu nome como livre de todo o nome, conceito e imagem, de toda a identificação, afirmação e negação, de toda a entidade, identidade e diferença, mesmidade e alteridade, ser e não ser, existir e não existir, presença e ausência,

possamos nós reconhecer-te no silêncio e no jejum das palavras, das interpretações e dos juízos e manter-te livre de todas as apropriações e instrumentalizações, sejam em nome de uma espécie, uma religião, uma cultura, uma ideologia, uma nação, uma etnia, uma classe, um partido ou qualquer grupo ou indivíduo,

possamos nós reconhecer-te livre de todas as línguas, gramáticas e linguagens e omnipresente no verbo silencioso, sinfónico e cósmico de tudo quanto vem a ser,

venha a nós o Vosso Reino

possamos nós reconhecer que o teu reino és tu, eternamente presente-ausente e a cada instante adveniente na sempre nova e imprevisível miríade de tudo o que se manifesta e de tudo o que permanece latente, no íntimo de toda a experiência e percepção, no âmago comum de todo o sujeito e de todo o objecto, no mais fundo sem fundo de nós e do universo, de nós-universo,

possamos nós reconhecer-te no reino sem rei de todo o real inseparável de todo o possível, na potência sem domínio da vida nua, ilimitada e universal e nesta mesma experiência de haver aqui-agora este prodigioso e portentoso não sei quê consciente, sensível e vivo,

possamos nós, inseparáveis de ti, reconhecer-nos rei e reino e reinar, como as crianças, livres de ganhar ou perder, no exuberante e glorioso jogo e dança de todas as coisas,

seja feita a Vossa vontade assim na terra como no céu.

possamos nós reconhecer que a tua vontade és igualmente tu, o espaço luminoso e aberto, a essência-natureza-fonte de todo o real-possível, a liberdade, espontaneidade e criatividade que há no íntimo de tudo e que a cada instante e em todo o lugar desde sempre plenamente se cumpre, livre de fins, propósitos e planos, projectos, objectivos e estratégias, parcialidades, preferências e exclusões, criação, redenção e juízo, providência, revelação e transfiguração, queda, cisão e reintegração, manifestação, evolução e involução, ignorância, despertar e libertação, salvação, iluminação e danação, renascimento, reincarnação e ressurreição,

possamos nós reconhecer que todos estes conceitos, por mais sentido que transitoriamente para muitos possam fazer e por mais pedagógicos que para muitos num dado momento possam ser, são ainda fruto das perspectivas relativas e limitadas das consciências que ainda não te reconheceram plenamente.

O pão nosso de cada dia nos dai hoje

Possamos nós reconhecer e experimentar que desde sempre, agora e a cada instante nos é incondicional e gratuitamente oferecido, no mais íntimo de nós mesmos e de tudo, sem que tenhamos de o pedir, o mais precioso, deleitoso e superabundante alimento, o sermos naturalmente inseparáveis de ti e de tudo de que és inseparável, todo o universo, todos os seres e fenómenos,

possamos nós comungar-te, ó tu que nada és senão liberdade, sabedoria e amor, em nós mesmos e em todas as coisas, em nós-mesmos-todas as coisas,

possamos nós ser sempre saciados, famintos e sedentos de te comungar mais e mais e de te dar a comungar (pelas vias mais adequadas a cada um) a quem não reconhece que é de ti, ou seja, de si, a fome, sede e saudade que sente de todas as coisas,

E perdoai-nos as nossas ofensas como também nós perdoamos a quem nos tem ofendido.

E possamos nós compreender que causar dano, por acções mentais, verbais e físicas e suas omissões, a qualquer ser que seja, humano ou não humano, bem como à Terra e à biosfera das quais somos todos inseparáveis, é lesar não a ti, mas a nossa experiência-consciência de ti, gerando sofrimento e obscurecendo a comunhão da tua presença em tudo quanto existe, vive, sente e é consciente, seja em que nível e forma for.

Que as tuas-nossas liberdade, sabedoria e amor nos perdoem, ou seja, nos livrem de julgarmos e perdoarmos e de não vermos que só experimentamos ofensas por também ofendermos e que o simples facto de pensar que alguém nos ofende sem que também ofendamos, ou que há realmente ofensores e ofendidos distintos e separados, é já uma ofensa à consciência da interconexão e interdependência de tudo.

Que as tuas-nossas liberdade, sabedoria e amor nos perdoem, ou seja, nos livrem de pensar que algum ser se reduz às suas acções ou que permanece idêntico a si mesmo um único instante, sendo agora o mesmo que no passado e sendo no futuro o mesmo que no presente. Possamos nós reconhecer e experimentar que a tua presença em nós é um imenso potencial de transformação, que não nos deixa presos em identidades fixas e aos efeitos das “nossas” acções passadas, se bem que tenhamos de experienciar, pela interdependência, os resultados dos processos dos quais somos todos criadores e responsáveis, mas que por isso mesmo podemos alterar a cada momento, tanto mais quanto mais a cada momento nos transformarmos.

Não nos deixeis cair em tentação,

Que a experiência-consciência da tua presença em nós e em tudo não nos deixe cair na tentação de te julgarmos outro, distinto e separado da nossa natureza profunda, bem como na tentação de vermos tudo quanto existe, vive, sente e é consciente, seja em que nível e forma for, como distinto e separado da tua-nossa natureza profunda,

Que o aprofundar da tua experiência-consciência em nós-todas as coisas nos leve a ver que o sentimento/imaginação de seres outro, distinto e separado, a negação ou dúvida da tua evidência ou a suspensão do juízo acerca ela, são apenas o sentimento/imaginação da falsa distância entre nós e a nossa natureza profunda, a negação ou dúvida dela ou a suspensão do juízo ante ela e que tudo isso são formas naturais da sua experiência-consciência, pois a tua-nossa natureza profunda experiencia-se e consciencializa-se como irredutível a todas as formas de experiência e consciência onde surja um objecto distinto de um sujeito,

Que o aprofundar da tua experiência-consciência em nós-todas as coisas nos livre da tentação de te imaginarmos transcendente, sobrenatural, distante e inacessível, ou como o vértice de uma pirâmide hierárquica (estática ou dinâmica) de seres e níveis de consciência, ou como o centro de uma espiral evolutiva de seres e níveis de consciência, ou de acesso reservado apenas a mestres e iniciados em tradições, linhagens, confrarias, doutrinas, práticas e/ou ritos herméticos e esotéricos, ou somente acessível após longas e complexas práticas e vias ascéticas, éticas, filosóficas e/ou espirituais, ou de acesso imediato por via da fé cega, da crença dogmática, da adesão doutrinal ou da compreensão intelectual, por mais sentido que para muitos transitoriamente tudo isso possa fazer e por mais pedagógico que para muitos num dado momento possa ser, em função das perspectivas relativas e limitadas das consciências que ainda não te reconheceram plenamente,

Que o aprofundar da tua experiência-consciência em nós-todas as coisas nos livre da tentação de te imaginarmos apenas acessível aos mestres, sábios e santos e não desde sempre igualmente presente em tudo e todas as coisas, pois mestres, sábios e santos são as consciências que mais te reconhecem igualmente presente em tudo e todas as coisas e todas as consciências podem assim chegar a ser mestres, sábios e santos,

Que este mesmo aprofundamento nos leve a descobrir-te como o mais comum, próximo e íntimo, como o que repousa e fulgura no âmago de todo o ser e fenómeno e de toda a forma de experiência e consciência, espiritual, intelectual, mental, emocional ou sensível (sem quaisquer conceitos e juízos de superioridade e inferioridade entre elas), sempre que vivida na espontaneidade anterior à aparente e ilusória separação entre sujeito que percepciona e objecto percepcionado,

Que a ti-nós-todas as coisas possamos desvelar no incessante aprofundar de toda a aparência como aparição do inaparente, de toda a superfície como fundo sem fundo, de todo o finito como finitização do infinito e de todo o infinito como infinitização do finito, de toda a forma como vazio e de todo o vazio como forma,

Que a ti-nós-todas as coisas, que a inefável glória e prodígio do infinito-universo possamos desvelar em cada grão de pó, em cada pedrinha da terra ou da calçada, em cada rebento de erva, em cada trinado de ave, em cada rasto de verme, em cada voo de insecto, em cada gemido de presa e salto de predador, em cada declaração de amor e em cada condenação à morte, em cada astro e em cada nuvem, em cada brisa suave ou vento ciclónico, em cada aurora gloriosa ou terramoto devastador, em cada sirene de ambulância ou sino de igreja, em cada míssil e em cada oração, em cada vítima e em cada agressor, em cada nascimento e em cada funeral, em cada paisagem natural ou imagem virtual, em cada letra impressa e em cada espaço em branco, em cada ruído de motor e em cada marulhar de águas frescas, em cada programa de televisão, em cada revista mundana, em cada conversa de café e em cada palavra dos mestres, sábios e santos, nos grandes acontecimentos da história mundial e no tempo parado em que nada acontece, em cada presidente, rei, ladrão, polícia ou vagabundo, em cada excremento, escarro ou botão de rosa,

Que o pleno reconhecimento e experiência da natureza infinita de tudo nos livre da obsessiva tentação de imaginar que há um centro, princípio ou fundamento do real e do possível, seja sob a forma teocêntrica, antropocêntrica, cosmocêntrica, biocêntrica, zoocêntrica ou outro modo de conceber um ponto de apoio à consciência ego/autocêntrica para que não perca pé e se funde sem que se afunde no sem fundo infinito,

Que o pleno reconhecimento e experiência da natureza infinita de tudo nos livre da tentação de imaginar seres algo ou alguém, à imagem e semelhança do algo ou alguém que imaginamos ser, enquanto não reconhecermos a ausência de forma da matriz aberta e infinita de tudo,

Que a libertação da tentação de te imaginarmos outro, distinto e separado não nos leve a cair na tentação de te privarmos do irredutível não sei quê e a objectivar-te na nossa percepção limitada, movida pela vontade de poder (camuflada de vontade de conhecer) e pela desconexão e medo que lhe são intrínsecos,

Mas livrai-nos do mal.

Que tu, ou seja, esta natureza profunda tua-nossa-de tudo, este espaço-consciência-amor infinito, nos livre do supremo mal de a ignorarmos e assim vermos o mundo, os acontecimentos e os seres divididos em bem e mal, bons e maus, puros e impuros, superiores e inferiores, nós e outros, isto e aquilo. Que isto nos livre do mal de nos vermos a nós e àqueles de quem gostamos e com quem nos identificamos como os “bons” e aos outros como os “maus” ou indiferentes. Que isto nos livre do mal de te não reconhecermos em tudo o que acontece, pareça ser bom, mau ou neutro para nós ou para aqueles com quem nos identificamos. Que isto nos livre do mal de nos identificarmos com alguém, nós ou um grupo de seres, e não contigo, a essência infinita e por isso sem-essência de todos os seres e coisas. Que isto nos livre do mal de pensarmos que algo nos acontece ou acontece a alguém em vez de simplesmente acontecer, pois na verdade tudo – real-possível, vida, existência - é um imenso acontecimento que acontece e não acontece simultaneamente a todo o mundo-ninguém.

Que a experiência-consciência da tua-nossa natureza profunda nos leve a descobrir plenamente quem desde sempre nós-todas as coisas somos, a descobrir que te somos e que nos és e que não és senão tu quem agora mesmo e a cada instante em nós em silêncio oras, que não és senão tu quem agora mesmo e a cada instante proferes, ecoando o teu silêncio nas nossas línguas limitadas, balbuciantes e gagas, estas palavras e aspirações no mais fundo sem fundo de nós mesmos-todos os seres-todas as coisas e que não és senão tu quem agora mesmo e a cada instante habitas os intervalos e pausas entre elas. Que tudo isto nos leve a descobrir que o nosso descobrir-te é a nossa e a tua eterna e bem-aventurada autodescoberta, a eterna e bem-aventurada auto-transparência de tudo em tudo.

Que esta experiência-reconhecimento da tua gloriosa e plena presença em nós-todas as coisas nos liberte do imenso mal de não vivermos constantemente, sem esforço e sem pensar uma única vez nisso, na liberdade, na sabedoria e no amor, na gratidão, alegria, maravilhamento e espanto contínuos perante tudo, na comunhão e generosa partilha com tudo e todos, e por enquanto ainda morrermos vivos na escravidão, confusão, egoísmo, tristeza, insatisfação, carência, ansiedade, avidez, consumo, conflito, tédio, aborrecimento e sentimento de uma vida sem sentido, seja presa nas preocupações com o presente, nostálgica do passado ou adiada e projectada para o futuro, sem vermos que tudo isso são desde sempre e ainda manifestações distorcidas do imenso potencial de liberdade, sabedoria e amor que é o fundo sem fundo nosso e de todas as coisas.

Que esta experiência-reconhecimento da tua gloriosa e plena presença em nós-todas as coisas nos liberte de si e de nós-ti-todas as coisas. Que nos liberte do mal e da escravidão de imaginarmos que há quem liberte, quem seja liberto e libertação.

Assim é.

Paulo Borges

Professor de Filosofia e Meditação, Pensamento Oriental e Filosofia da Religião no Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.. Ex-presidente e membro da Direcção da Associação Agostinho da Silva. Sócio-fundador e ex-presidente da União Budista Portuguesa. Sócio-fundador e presidente do Círculo do Entre-Ser. Escritor.

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