MIGRANTES DA ATLÂNTIDA

No último período glaciar, entre aproximadamente 110 000 a 11 000 atrás, a vida humana na Terra centrava-se maioritariamente num perímetro em torno do Trópico de Câncer, estendendo-se em menor escala às regiões subequatoriais. Nesse tempo longínquo, uma pujante civilização teve como morada principal um vasto continente e algumas ilhas situados no meio do que é hoje o Oceano Atlântico. Platão chamou-lhes Atlântida – “terra de Atlán”.

A Europa jazia então coberta de um insondável manto de gelos e neve. No auge desta glaciação, apenas as zonas mediterrâneas logravam acolher alguma vida humana. A Ásia meridional, a África e as Américas do sul e central, igualmente eram povoadas.

No decurso da civilização Atlante, contudo, num passado bem mais remoto, a configuração de quaisquer destes continentes foi diversa da atualidade, em especial a do continente africano, que se dividia em duas metades, duas grandes ilhas principais. Onde hoje se situa o deserto do Saara, existiu outrora um vasto mar, pontuado por algumas ilhas menores, que ligava as águas do Atlântico ao Índico, desde o atual Cabo Bojador até à Etiópia, onde se fundia com o Nilo. A norte deste mar erguia-se, imponente, uma das duas ilhas principais, com as suas metrópoles. Chamava-se Atlas 1, e corresponde na atualidade à grande cordilheira que herdou esse mesmo nome.

Nas margens ao sul, a terra era verdejante e nela floresciam prósperas colónias do grande Império. As trajetórias marítimas que o ligavam a essas e as demais colónias, incluindo as mais longínquas, na Índia ou no Egito 2, far-se-iam por esse mar.

Resquícios da Atlântida chegados aos nossos dias?

Com efeito, atesta a Doutrina Secreta que a Humanidade, na 4ª Idade do seu percurso evolutivo, habitou outrora um vasto continente situado onde é hoje o Oceano Atlântico. A essa civilização se designou como a 4ª Raça-raiz humana e a sua fundação ter-se-á iniciado há cerca de 9 milhões de anos 3.

No decurso deste longo período, ocorreram diversos cataclismos que foram alterando significativamente a face do planeta e as suas condições de vida. Uma grande hecatombe deu-se no final do Meoceno, afundando a grande maioria da massa continental atlante, com ela perecendo uma larguíssima parte da sua população. Este enorme dilúvio, com repercussões planetárias, terá ficado na memória coletiva dos povos, vindo a dar origem aos mitos alusivos, presentes nas diferentes religiões do mundo.

O último desses grandes e avassaladores terramotos sucedeu há 850 000 anos. Segundo lemos em A Doutrina Secreta 4, de Helena Blavatsky, nessa época a geografia da Europa era bem diferente da atual. Estava unida ao norte de África por um istmo onde se situa hoje o Estreito de Gibraltar, o norte de África constituindo assim uma espécie de extensão da Península Ibérica, enquanto que em África, mais a sul corria um grande mar onde é hoje a grande bacia saariana.

Do antigo continente atlanteano – a Grande Atlântida – quase nada já sobrara, excepto duas grandes ilhas, Ruta (a maior) e Daitya (a menor), e arquipélagos dispersos de menor expressão e dimensão. Daitya afundou há 270 000 anos e Ruta, ou parte dela, há 80 000 anos, quando se registaram as principais e mais significativas migrações para as terras do Egito e da Índia 5. E o último e derradeiro cataclismo deu-se no final do último período glaciar, há cerca de 11 500 anos, submergindo a ilha de Poseidon 6, que pertencera em tempos recuados ao tronco principal de Ruta.

Os relatos (praticamente alusões fragmentadas e incompletas…) de Platão 7 sobre o afundamento da “Atlântida” bem como dos episódios da oposição entre as duas grandes Confederações – a Atlante e a Ateniense –, parecem referir-se somente a Poseidon e, assim, à última das suas sub-raças; contudo, quando são descritas a sua “fundação divina” e o modelo de organização política e social instituído, o qual foi igualmente observado pelas numerosas gerações dos seus descendentes, parece-nos óbvio que incidem sobre a Grande Atlântida inicial.

Testemunho para a Posteridade

Embora a História da Atlântida seja normalmente atribuída a Platão (c. 428-347 a.C.), o cerne da sua narrativa deveria, talvez, ser creditado a Sólon (c. 630-560 a.C.). Este, numa viagem ao Egito, e já idoso, alegadamente tê-la-ia ouvido contar dos grã-sacerdotes de Saís e Heliópolis (cfr. Crítias, 108, 110 e 112).8 Retornado à pátria, Sólon veio a confiá-a ao seu íntimo amigo Dropides, bisavô de Crítias, o qual, na infância deste, lha transmitiu por sua vez. Foi este inédito conteúdo e as suas cuidadosas anotações que teriam providenciado a base para o trabalho de Platão (em Timeu e Crítias ou A Atlântida). Relembremos, sucintamente, as extraordinárias revelações contidas nessa obra, relativas ao passado comum da Humanidade:

Poseidon, a capital Atlante, com o nome do seu fundador, fora uma cidade esplendorosa, definida numa singular arquitetura de forma circular. Era rodeada por uma série de muralhas seguida de zonas térreas alternadas por canais aquíferos navegáveis, que abrangiam toda a ilha e a recortavam em anéis distintos e concêntricos. A ilha fora dividida em dez lotes ou províncias, e o seu governo atribuído a cinco pares masculinos de gémeos, filhos de Poseidon – dez reis no total 9. O mais velho (Atlas) superintendia sobre os restantes, e os dez constituíam um Colégio de Justiça que regulava e administrava os assuntos e leis do império. Os seus descendentes governaram sob este modelo.

A Atlântida referida por Platão foi descrita como uma terra paradisíaca, de clima suave, com maravilhosas paisagens e extensas e férteis planícies, cruzadas por rios, lagos e florestas luxuriantes… era detentora de uma prodigiosa engenharia e arquitetura de palácios, templos, torres, pontes, diques e profundos canais.

Por muitos e muitos milénios, a grande Ilha terá abrigado uma brilhante civilização que governou o mundo. Porém, há cerca de 11 500 anos atrás (um pouco mais…), nela se abateu um pavoroso cataclismo, tendo-se afundando para todo o sempre, nas águas do oceano, o último bastião atlante.

A Anatomia Atlante

A Raça Atlante, e toda a diversidade das sete Sub-raças que a compuseram, foram no seu conjunto fisicamente muito diferentes da atual 5ª Raça (igualmente com as suas marcadas Sub-raças). Os Atlantes eram homens e mulheres de grande e potente envergadura, com uma anatomia caracteristicamente diversa (ficaram conhecidos como os Titãs, Cíclopes, e outros…)10, e decerto geneticamente distintos do homem moderno.

Na última fase da sua civilização, as migrações, maioritariamente para África, vieram a constituir a semente e raiz de novos e modificados troncos humanos. Curiosamente, a antropologia moderna reitera hoje, em alguns pontos, estas afirmações:

Os humanos anatomicamente modernos têm seu primeiro registro fóssil na África, há cerca de 195 000 anos, e os estudos de biologia molecular dão provas de que o tempo aproximado da divergência ancestral comum de todas as populações humanas modernas é de 200 000 anos atrás. O amplo estudo sobre a diversidade genética Africana chefiado pela Dra. Sarah Tishkoff encontrou no povo San a maior expressão de diversidade genética entre as 113 populações distintas da amostra, tornando-os um de 14 “grupos ancestrais da população”. A pesquisa também localizou a origem das migrações humanas modernas no sudoeste da África, perto da orla costeira da Namíbia e de Angola. A raça humana teria colonizado a Eurásia e a Oceania há 40 000 anos; e as Américas apenas há cerca de 10 000 anos”.11

A “Cidade-Ilha” do Benim

E curiosamente, em África, nos dias de hoje, na região sul do território da Nigéria, no que foi o antigo império do Benim 12, podem ainda ver-se alguns restos de muralhas de umas assombrosas ruínas 13, que parecem ter uma história para contar. Eram elas o reduto de umas gigantescas fortificações, em perfeito redondel, excedendo em dimensão a própria muralha da China – os seus muros periféricos, alicerces e múltiplas estruturas reticuladas compreendiam uma área de 6500 km, dos quais 4000 constituíam a área central e concêntrica, habitada pelas comunidades. Estas ruínas sobreviveram até ao século XIX, quando foram dizimadas pelos britânicos, sobrando hoje apenas alguns escombros dispersos, que vêm sendo reutilizados pelas populações locais em novas construções.

Muitos milénios antes, a geografia desse mesmo local deveria inserir-se na orla meridional do que foi o mar saariano. E, muito curiosamente, dizem algumas tradições locais que os contrafortes, fossos e canais 14 que ainda restam da cidade fortificada haviam sido decalcados e construídos repetidamente sobre outros ainda mais antigos, os primeiros dos quais pertencentes a uma cidade cuja origem se perde na noite dos tempos.

Arriscamos supor que a mais remota destas cidades sobrepostas pudesse corresponder a uma das colónias atlantes – que as havia nessas regiões –, replicando o traçado, talvez simbólico, e como num tributo à metrópole mãe…

Evidências da Existência de um Antigo Mar Saariano

Pesquisas arqueológicas recentes revelaram que há cerca de 150-200 milhões de anos, durante o Jurássico, o deserto do Saara era um mar, que em algumas zonas atingia 5000 metros de profundidade. Desse mar, numerosos fósseis têm vindo a ser descobertos, como os de amonites, uma espécie de lula com concha; a maior soma alguma vez encontrada de numulites, animais unicelulares que habitaram os mares do paleoceno e eoceno há 40 a 65 milhões de anos; de peixes hoje extintos, muitos deles raiando o metro de comprimento; de gigantescos répteis marinhos; e de grande número de dorudons, uma espécie hoje extinta de baleias.

Com efeito, o número e importância de achados destes últimos cetáceos tem vindo a surpreender os cientistas. A maioria deles tem incidido em Wadi Al-Hitan – Vale das Baleias (recentemente assim chamado) –, lugar paleontológico situado a cerca de 150 km a sudoeste do Cairo. Foi designado pela UNESCO Património Cultural da Humanidade. Aqui igualmente têm sido achados fósseis de tubarões, crocodilos, peixes-serra, tartarugas e raias…

Ainda hoje, no subsolo do deserto, a 800 metros de profundidade, subsiste um mar subterrâneo de água doce fóssil abrangendo uma área de 620 000 quilómetros cúbicos, sobre uma superfície de 6,5 milhões de quilómetros quadrados. Foram igualmente encontrados elevados níveis de sílica, sal-gema e mercúrio nas areias, típicos em águas marinhas.

O Olho do Saara

No presente contexto, não queremos deixar de falar sobre um evento perturbador que, malgrado a descoberta, de caráter geomorfológico a que se refere, ter-se registado em 1965, a mesma permanece ainda sem interpretação satisfatória por parte da comunidade científica.

Durante uma missão espacial norte-americana, levada a efeito pela Gemini IV, os astronautas Ed Branco e Jim McDivit avistaram do espaço uma surpreendente formação geológica centrada no deserto do Saara, próxima de Ouadane, no território da Mauritânia. Tratava-se de um imenso complexo em forma de disco, permeado de anéis, nele perfeitamente inscritos e concêntricos. Semi-velada pelas areias do deserto, a estranha formação revelou ter um diâmetro de cerca de 55 km, uma orografia dos anéis com oscilações entre os 300 a 400 metros, e unicamente pode ser percebida se vista do espaço. Foi batizada como “O Olho do Saara” ou “Estrutura de Richat” e as imagens falam por si.

Tão pouco nós temos resposta para o enigma. No entanto, situando-se esta singular estrutura bem no centro das areias do Saara, e na convicção de que estas vieram substituir-se às águas de um antigo Mar, e o mesmo seria como um prolongamento do próprio grande Oceano Atlântico, fica-nos a questão:

Seria possível que a ilha descrita por Platão – ou outra das múltiplas ilhas atlanteanas vitimadas pelas diferentes hecatombes –, tivesse submergido não na única região oceânica – hoje e à data daqueles relatos – oponível ao Mediterrâneo, para lá das Colunas de Hércules, mas, em alternativa (e tendo como referência esse mesmo marco dos Pilares de Hércules), na direção sul 15, onde o mesmo Oceano se prolongava no amplo e extenso Mar Saariano?

Dependendo da época a que se referem aquelas narrativas – se em um dos primeiros cataclismos, ou se à derradeira hecatombe ocorrida há 11 500 anos –, fará uma enorme diferença… No decurso de nove milhões de anos a morfologia do que é hoje o continente africano alterou-se drasticamente, e o Mar atlântico-saariano poderá, ele mesmo, ter albergado uma ou mais ilhas… A mencionada por Platão, quiçá, poderia ter sido uma delas?

A Terra abriga no seu ventre segredos imemoriais, e o nosso passado está escrito nas suas entranhas… ou não fosse ela a Grande Deusa, a nossa Grande Mãe…

Isabel Nunes Governo

Vice-Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

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NOTAS

1 Atlas teria sido o nome do primogénito dos dez filhos de Poseidon, que reinou na Atlântida ao tempo da sua fundação.

2 Após o declínio da civilização atlante, parece indubitável que ambos estes países foram o berço de uma nova civilização, herdeiros da sua cultura e saber, numa passagem de testemunho. Assim o titula a Tradição Esotérica – reiterada, por exemplo, nas obras Ísis Sem Véu e A Doutrina Secreta, de Helena Blavatsky.

A Atlântida terá tido igualmente colónias que se estendiam à Ásia oriental e insular, passando pelas regiões europeias mediterrâneas, como a Grécia ancestral e a península itálica. Para ocidente, estabeleceu colónias nas Américas, das quais os antecessores dos Toltecas haviam constituído uma das suas sub-raças.

3 Cfr. A Doutrina Secreta, Vol. IV, de Helena P. Blavatsky, Editora Pensamento, São Paulo, 1973, pp. 280; e também o nosso artigo “A Sabedoria dos Números Cronologia Sagrada”, publicado no nº 10 da Biosofia, Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 2001, pp. 26 a 31.

4 Op. Cit., Volume III, p. 22 e Vol. IV, pp. 309-10, entre outras passagens.

5 Tais migrações ocorreram antes do cataclismo porquanto, deste, já haviam sinais precursores. Foi assim possível uma programada e organizada transferência da sua herança civilizacional.

6 Outros a chamaram de Ogygia (a ilha de Ogyges). Ogyges foi um antigo rei nas lendas da Beócia e da Ática, e um filho de Poseidon, cujo reino fora tragado nas águas de um enorme dilúvio. Tais lendas descreviam a história da última das destruições atlantes e da migração, que as precedeu, de muitos dos seus habitantes para a Grécia. Nesta conformidade, Ogygia poderia não ter sido senão outro nome para a ilha de Poseidon descrita por Platão. A apoiar esta hipótese, está o facto de o Egito ter sido fundado por emigrantes de Poseidon – ou Ogygia –, porquanto o seu próprio e mais antigo nome conhecido foi Ogygia.

A ilha de Ogygia foi cantada por Homero na Odisseia, Livro V, como o repouso da ninfa Calipso, uma das filhas do Titã Atlas.

7 … Platão que, provavelmente, estava inibido de falar de tudo quanto aprendera nos Mistérios acerca deste e de muitos outros temas.

8 Teopompo (c. 378 a.C.-323 a.C.), no seu Philippica (cujo conteúdo, apenas fragmentado, nos chegou até hoje através das citações e recompilações de Cláudio Eliano, feitas um século depois) fala de uma lendária e antiquíssima ilha de enormes dimensões, a que chamou Meropis, identicamente engolida nas águas de um dilúvio. Segundo a lenda, a sua história teria sido narrada ao rei frígio Midas por um Ipotano (ou Centauro). A ilha englobava dois grandes países (que Teopompo refere por cidades) – Machimos e Eusebes –, o primeiro habitado por uma raça de guerreiros, e o segundo por uma raça piedosa e meditativa. A cidade piedosa era continuadamente visitada pelos deuses; a beligerante foi habitada por uma classe de seres invulneráveis ao ferro, apenas suscetíveis de serem mortalmente feridos pela pedra e madeira…

9 … ou melhor, um rei e nove príncipes, porquanto os nove, e seus descendentes, prestavam “vassalagem” ao rei, e sua linhagem. Deste modo, nasceu de Atlas toda uma raça numerosa – designada pelo Ocultismo como a Quarta na história da Humanidade. E de Atlas nasceu o nome dessa mesma raça – Raça-Raiz Atlante – bem como o do grande Oceano onde a sua civilização floresceu.

10 “… Eles [os Atlantes] erigiram formidáveis imagens, de nove yatis de altura [correspondendo a 8,23 metros], o tamanho dos seus corpos.  Os fogos internos tinham destruído a terra de seus pais. A água ameaçou a quarta Livro de Dzyan, Estância XI.

A última raça de gigantes atlanteanos extinguiu-se há cerca de 850 000 anos. Cfr. Helena Blavatsky, a Doutrina Secreta, op. cit, Vol. III, p. 451.

11 https://pt.wikipedia.org/wiki/Homo_sapiens

12 … ou, anteriormente ainda, Igodomigodo.

13 O investigador Patrick Darling sustenta que as mais antigas partes, ainda existentes, da estrutura das muralhas datariam do ano 800, enquanto que outras, nomeadamente muitos dos fossos e canais, teriam sido construídos cerca do séc. XV. Historical Archaeology in Nigeria, Africa World Press, Inc., Ed. Kit W. Wesler.

14 Segundo algumas descrições do século XVII, o Palácio real, verdadeira cidade dentro da cidade, era igualmente impressionante, com incontáveis praças e pátios interiores, e inumeráveis portas e passagens, todos ricamente decorados. As muralhas (no século XV, algumas ainda testemunhadas atingiam 20 metros de altura…) tinham nove grandes portões, que eram fechados à noite.

15 … ou oés-sudoeste, para um observador situado na Grécia.

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