O FENÓMENO DAS GUERRAS – Uma Doença Coletiva da Humanidade

Ensina a Ciência esotérica que, subjacente a este Universo físico, existe um oceano de vida psicológica/mental (podemos assim dizer), em que cada unidade existencial tem representação, no qual se nutre, nele age, e dele depende. É algo como um imenso caudal plasmático onde toda a vida interna do planeta navega, com o qual os seres comunicam osmoticamente, em permanência, e entre si intercambiam energias, estímulos e influências.

Uma imagem alegórica para esta simbiose poderia adequadamente ser a de miríades de corpos globulares, partícipes desse oceano coletivo, nele sobrenadando e dele se individualizando mediante subtilíssimos e vibráteis pedúnculos. Através destes, à semelhança de cordões umbilicais permutando com o útero materno, dele recebe(ria)m influxos indutores e modeladores, produto a cada passo do estádio comum do coletivo; e simultaneamente, para ele – o oceano coletivo –, participa(ria)m com o produto da sua própria pequena experiência e propensões individuais. O mundo físico, e as suas manifestações externas, tê-lo-iam (têm-no) como substrato.

A designação “o Homem” querendo significar “a Humanidade” é uma assunção sugestiva, universalmente partilhada na generalidade das línguas, da noção de “Um Ser identitário coletivo”, uma “Unidade Coletiva”, o “Homem Universal”.

Estamos à beira de um novo “surto psicótico”?

Periodicamente, o “inconsciente coletivo” da Humanidade parece acometido da modernamente chamada “doença bipolar”. É como se o manancial desse “plasma de consciência e sensitividade global” sofresse ciclicamente de um aumento de tensão, de um acúmulo e saturação emocional proveniente da multitude de tensões individuais. Ordinariamente no decurso da história, tais crises, na sua manifestação objetiva, correspondem ao desencadear de grandes guerras, tumultos ou epidemias, que ceifam as vidas de milhões de seres. É qual um fogo que se vai ateando, para finalmente irromper e consumir a si mesmo por meio do combustível humano, aliviando-se então a tensão na atmosfera coletiva, à semelhança da bonança que advém depois de cada tempestade.

Após cada fase de relativa acalmia, a humanidade no seu todo (com a participação dos elementos do reino Animal), vai outra vez urdindo novas correntes energéticas dissonantes, pouco a pouco contaminando o “plasma emocional planetário”… As ondas de violência física e psicológica, o stress, a ansiedade, os medos cumulativos, são venenos poderosos que enxameiam e ateiam novos fogos letais, nos múltiplos extratos desse oceano psicológico comum.

De alguma maneira, todos somos ativamente corresponsáveis pelos fenómenos cíclicos de “loucura coletiva” nos quais invariavelmente o norte da razão e da sensatez nos abandonam abrindo impensáveis caminhos à crueldade e bestialidade. Depois das últimas duas grandes guerras tendíamos a pensar “a Humanidade aprendeu duramente e não mais repetirá estes horrores…”, porém, novas e hediondas formas de guerra e violência vão surgindo sempre – ódios, extremismos religiosos e políticos, ausência / manipulação de verdade, jogos de poder, avareza, dominação…

No seio do Grande Oceano Psíquico planetário, todos e cada um de nós somos construtores de Egrégoras, algumas poderosas – umas benévolas e construtivas, outras destrutivas e contra-correntes –, com as nossas atividades, preferências, polarizações, afinidades … As Egrégoras da Guerra constroem-se e nutrem-se de todos os ódios, vícios, ambições e de todas as demais emoções desregradas de cada ser humano…

Todas as tremendas guerras que opuseram nação contra nação foram somente a extensão, no mundo físico, das verdadeiras guerras entre grandes Egrégoras. São estas os autênticos Senhores da Guerra, que em todas as eras se confrontaram e que personificaram as míticas “Guerras dos Céus”.1 Os seres humanos, que coletivamente lhes emprestaram a sua força pessoal, sem o suspeitarem, são apenas como que marionetas por elas atuadas. As legiões de homens são a sua “carne” e substância, e perecem sob o impacto das energias que radicam originariamente no palco dos “mundos internos”. É aí que se desenrola o real cenário de Guerra, e por inverosímil que nos possa parecer, o nosso é o mundo reflexo. Não esqueçamos que a sede dos nossos pensamentos, emoções e volições se processa nos mundos internos (radicando nos nossos próprios veículos que pertencem a cada um desses mesmos Planos2)3 – este é um pressuposto comum a todos os estudantes de Teosofia e Ocultismo em Geral. Os nossos corpos físicos são como que os terminais de um integrado computador que atua em sinergia e simultaneidade em diferentes Planos, embora o enfoque da nossa consciência objetiva, no decurso da vida física, se situe no Mundo ou Plano Físico.

1 Falámos desenvolvidamente acerca disso no nosso livro Logos, Devas e Elementais (Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 2002).

2 O resultado desses impulsos são as correspondentes ações, que têm lugar no mundo físico.

3 Uma delimitação na sequenciação dos Planos (no Grande Setenário) é de certo modo uma convenção humana, porquanto na verdade os mundos e os nossos diferentes corpos, que lhes correspondem, não são estanques, não têm divisórias; constituem ou representam antes uma progressiva interiorização de atividades e características típicas da substância, de crescente velocidade vibratória.

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Na atualidade, as replicações do fenómeno do terrorismo, em múltiplos quadrantes do mundo, apresentam semelhanças com as comuns “propagações virais”. É a Egrégora (o “eu coletivo psicológico”) de um específico grupo, com as suas características peculiares 4, que abriga e no seio da qual se propaga esse “pseudo-vírus” (pandemia essa que, no presente caso, se revela como uma desordem de natureza psicótica). Tomemos a seguinte imagem: um grupo no planeta, não necessariamente vivendo em comum, que partilha entre si idênticas convicções (nomeadamente religiosas, de legitimação/defesa de honra, de orgulho étnico ou nacional…) e sentimentos exacerbados (de humilhação, de frustração e revolta, de indignação, de ódios fervilhados…), determina e afina como que uma nota-chave, um diapasão, que o distingue e autonomiza dos demais. Passa a ser uma entidade ou unidade coletiva autónoma – a Egrégora – cuja vida endógena emite e dissemina as pulsões de destruição com efeito e projeção nas esferas e ações individuais. As ideologias, os recalques, os ódios espontâneos primariamente nascidos em cada indivíduo são então imensamente estimulados (pela força maior da Egrégora) dando lugar a uma militância praticamente cega e obsedada. 5

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4 … com uma identidade comum, com afinidades e ideologias comuns.

5 Se bem que de forma distinta, e isenta de conotação negativa, encontramos este tipo de vivência e subordinação do individual ao coletivo, bem como as ações plurais concertadas, em certos grupos do reino animal, por exemplo as abelhas e formigas. No caso, o todo (o ser coletivo) determina e molda holograficamente a parte (o indivíduo).

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Se pudéssemos apenas visualizar as movimentações e a progressão dos padrões energéticos que caracterizam os comportamentos humanos (padrões de tipo biorrítmico, algo semelhantes a registos meteorológicos, com as sua zonas de altas e baixas pressões, de formação de remoinhos energéticos, de ventos e tempestades…) e avaliar as suas inevitáveis consequências no equilíbrio e segurança coletivos, ficaríamos devidamente esclarecidos… e, muitas vezes, estarrecidos! Toda a atividade humana, em função da sua natureza qualitativa, exibe uma coloração, uma temperatura, uma propensão sinergética, um código (por assim dizer), e gera e integra ondas maiores afins, contribuindo para a crescente tenacidade e poderio das respetivas Egrégoras.

O presente estágio do já longo percurso evolutivo da Humanidade é, ainda assim, caracteristicamente “imaturo”, como se de um adolescente impulsivo e irreverente se tratasse. Ser-nos-ia útil, pois, termos presente que em boa parte dos casos as nossas ações irrefletidas e tantas vezes à flor da pele podem ter consequências desastrosas. Se observarmos que os nossos pequenos impulsos, as nossas leviandades, as nossas deambulações sem rumo – frequentemente centrados num qualquer foco ou motivação egoística – tenderão a integrar e corporificar comportamentos sociais de definido impacto no nosso futuro, talvez sejamos mais determinados na ponderação da qualidade de cada um dos nossos passos e ações.

Como se previnem as vagas coletivas de distúrbio psicótico, de cujas manifestações a Humanidade periodicamente parece ser acometida? O que é possível fazer para obstar a um tal crescendo da tensão global? Existirão psicólogos da Mente coletiva que a possam serenar e educar? Como evitar, por exemplo, a loucura que grassa na progressão de ataques massivos levados a efeito por bombistas suicidas, como estratégias do terror, em nome de antagonismos de raça ou religião, ou de supostas retaliações? Apontarão estes ataques, que passam pela própria “autodestruição” de quem os opera, para um sintoma maior, mais vasto porque matricial – radicado na Unidade-Coletiva humana –, de uma depressão de cariz suicida, cuja extensão e reflexo se manifestam nos pequenos elos individuais da corrente que vibram no mesmo diapasão?

Com efeito, no processo de criação e consolidação das Egrégoras, ao adquirirem elas substância, coesão, “vida-própria”, poder… torna-se verdadeiramente difícil retirar-se, dissipar-se-lhes a força, e travar-lhes o caminho. O somatório das energias que para elas, consciente ou inconscientemente, canalizamos – através dos nossos desejos e atos –, e que lhes conferem identidade e autonomia, volve-se exponencialmente maior e mais potente do que a pura soma de cada uma das pequenas partes individuais. Podemos comumente observar este fenómeno na força indómita que por vezes se pressente por detrás de grandes clubes de futebol, quando toda a sorte do mundo parece bafejá-los para lá do racional… É precisamente a sinergia gerada pelos ímpetos, pelo querer coletivo dos clubistas, que produz uma tal força praticamente invencível. A coesão é um poderoso dínamo! E esta coesão erige e fortalece as Egrégoras.

Para uma Cultura de Inofensividade

Os surtos de tensão, miséria e criminalidade – que culminam frequentemente nas guerras – só poderão ser combatidos por meio da prevenção. E essa prevenção apenas se poderá consagrar na instituição universalmente pensada e assumida de uma nova abordagem da educação da infância e juventude, tendo como pilares a formação cívica, moral e verdadeiramente humanista dos indivíduos. Todavia, um tal paradigma deverá necessariamente ser laico, livre das constrições e condicionalismos dogmáticos das religiões.6

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6 Isto não significa que no seio familiar, por opção, se não possa aduzir uma educação religiosa de qualquer índole. Por outro lado, religião e espiritualidade não coincidem necessariamente.

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Na vertigem das pressões sócio-económicas do mundo atual, temos vindo a ser ultrapassados e engolidos pelas determinações já incontroláveis do próprio sistema. A sua engrenagem vem-nos escravizando e, quase sem nos darmos conta, vem-nos despojando do sentido axial de “família”, bem como da valoração do verdadeiro indivíduo (-não individualista), ou seja, da natural dignificação do “ser” sobrepondo-se ao “ter” (e ao “produzir” e “consumir”). Na esfera familiar, nomeadamente, pouco a pouco veio impor a necessidade de ambos os progenitores trabalharem fora de casa em horário integral. Sob um tal sistema, tornado universal, delega-se displicentemente o acompanhamento e a formação das crianças quase em exclusivo aos jardins de infância, seguindo-se as demais e progressivas graduações de ensino nas escolas e universidades. Não obstante, em nenhuma destas fases se abona, com a devida atenção e seriedade, o aspeto de edificação ética e cívica do indivíduo em formação. A instrução provida nestas instituições incide e aplica-se estritamente na administração de competências que visem a habilitação no mercado de trabalho. A ênfase centra-se obstinadamente nas profissões, não no indivíduo em si mesmo; no seu préstimo e valor “mercantil”, não no ser interior.

Ora, é sabido que é precisamente durante as fases do crescimento – assim, na infância e juventude – que é possível educar e influir com eficácia na formação da personalidade e na edificação do caráter, desejavelmente assentes na inofensividade, na cooperação e no respeito por todos os seres.

Na medida em que a Humanidade avança, e devido aos meios tecnológicos sempre em progressão, as guerras que ainda nos esperam serão com muita probabilidade mais violentas e destrutivas. De novo sustentamos que o único meio de as evitar, a única via para um trajeto planetário seguro, de tolerância, de sã convivência e livre do flagelo das guerras, será por uma cultura da “não-violência”. Uma cultura civilizacional com enfoque estrutural na educação, que contemple todas as componentes da formação e nobilização do caráter de cada criança – futuro homem ou mulher –, para lá das suas naturais diferenças étnicas, políticas, religiosas ou quaisquer outras.

O mundo precisa ingentemente de uma tal cultura, com novos horizontes que assegurem radicais reformas na política e na educação dos seres humanos e dos povos. Precisamos de desenvolver mecanismos e programas que assegurem que os novos professores, para bem educar, tenham antes eles mesmos dado provas respeitantes à sua formação ética e cívica, a par da restante formação vocacional e académica. Em consonância com este objetivo e como pré-requisito, necessário se fará a criação de novas vertentes disciplinares nas escolas de formação de professores. Aí se deverão adquirir as competências para verdadeiramente educar. E bem assim, nelas terão lugar o estudo e elaboração dos programas cívico-educativos a implementar nas escolas, escalonando-os, ajustando-os e integrando-os nos diferentes anos letivos, de acordo com a recetividade progressiva das crianças e jovens segundo as idades.

No tocante à Política e Economia mundiais, são precisos novos e bem mais exigentes códigos de conduta dos políticos, dirigentes das nações, e cruciais decisores financeiros. A sua honorabilidade de atos e intenções não poderá, em nenhuma circunstância, ser duvidosa 7 ou manchada por corrupção – na esfera do seu próprio país, como no seu trato e relações internacionais. O “respeito pelo próximo” será uma máxima consagrada – no relacionamento com os indivíduos (sejam eles nacionais ou estrangeiros) e no relacionamento com os povos e nações.

Isabel Nunes Governo

Vice-Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

7 Não nos referimos aqui, é claro, a moralismos ou ao inescrupuloso culto do “escândalo” na imprensa sensacionalista.

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