AGOSTINHO DA SILVA E A LIBERDADE RADICAL

Sendo algo de muito sério e importante, a questão da liberdade, a nosso ver, raramente tem sido tratada de modo amplo e até à sua profunda raiz.

 

Existe o pressuposto generalizado de que somos livres, ao menos nos países em que estão legalmente garantidas as chamadas liberdade de expressão e de participação política e outros direitos coligados. Tal pressuposição é basicamente acrítica, não somente porque à liberdade de expressão não costuma corresponder a igualdade de exposição mediática de ideias, que seria fundamental para dar efectividade à referida liberdade, mas, também, por ignorar todas as outras dimensões da questão.

 

Certamente, há quem tenha problematizado o grau de liberdade de que dispomos, sustentando, por exemplo, que o indivíduo tem uma carga hereditária que não pôde escolher e que o condiciona significativamente; que, desde a infância, desde o primeiro momento, nos sujeitamos a influências familiares, culturais, sociais, para as quais estamos indefesos e desprevenidos, que absorvemos passivamente, e que nos vão moldando. De igual modo, vários estudos abordaram a relevante temática de indagar se existe ou não um determinismo nos fenómenos físicos e sobre a relação destes com os sujeitos de percepção, e vice-versa.

 

E há mesmo até quem negue teoricamente a existência de um livre-arbítrio, só que de uma forma que consideramos parcial, redutora e de superfície, e sem de tal retirar consequências práticas coerentes.

 

O que, contudo, se mostra como raríssimo é colocar-se até ao limite a questão da liberdade, reconhecer-se que, por norma, ela existe escassamente, e encontrar e percorrer o exigente caminho para a alcançar e utilizar devidamente, mais além de uma perspectiva individualista e/ou imediatista. Foi, entretanto, o que fez o Professor Agostinho da Silva.

 

Habitualmente, consideramos que o mundo nos é dado como algo de exterior e alheio, que tentamos dominar ou controlar materialmente, porém que em si mesmo independe de nós. Contrariamente, Agostinho da Silva intuiu a ultrapassagem livre e criativa da cisão sujeito-objecto ou eu-natureza, e proclamou, tão sintética como eloquentemente:

 

Nada peças nem perguntes, / Inventa o mundo” 1

 

E nesta liberdade sublimada – divina, quase diríamos – renunciou ele à mera queixa reivindicativa (tantas vezes histérico-demagógica2) face a circunstâncias alheias, e assumiu a plena autonomia criadora. “A nossa mente”, escrevia George Agostinho, “vê o eterno / e o faz tempo” 3. E assim, o mundo fenomenal se lhe apresentava como um produto da Consciência, como o produto que a nossa Consciência quer, ou porventura deseja, ou deixa de querer, ou deixa de desejar.

 

Tal implica não só a postura crítica de um realismo, ou talvez melhor, de um objectivismo relativamente ingénuo, como também a noção vívida, tão comum a grandes luzes da espiritualidade ou de elevado misticismo, de que o mundo é mais propriamente um sonho, um filme, uma ficção, talvez uma ilusão ou uma alucinação, em todo o caso uma opção de consciência, individual ou colectiva, a opção de um querer primordial ou sustentado no devir.

 

Implica igualmente a diluição do ego, da persona-máscara, que nos separa de nós mesmos, de tudo e de todos, ao nos relativizar e circunscrever no espaço limitado – por contraposição ao espaço ilimitado e incondicionado –, no espaço limitado, dizíamos, de uma particular gama de experiências e circunstâncias. Tais experiências e circunstâncias concretas, particulares, por estreito caminho nos vão conduzindo e ao mesmo tempo nos servem de palas, que dessa forma nos sonegam a liberdade.

 

Negando-se a si próprio, como o fez Agostinho da Silva, ele de si mesmo, do aprisionamento numa máscara, numa pseudo-identidade fixa e delimitada, se libertou e se fez à imagem e semelhança da Deidade, conforme as suas afirmações: “O mundo é só o poema / em que Deus se transformou / Ele existe e não existe / tal a pessoa que sou”, ou, ainda sobre Deus, aludindo-o como aquilo “que é não ser” e “que é e que não é4.

 

 

Nestas afirmações, o Professor Agostinho da Silva aproximava-se, assim, não só de um Panteísmo fundamental, como, também, de uma teologia negativa, como a de Mestre Eckhart ou Nicolau de Cusa e, anteriormente, do Pseudo-Aeropagita, no Cristianismo (se é que o Pseudo-Dionísio era exactamente Cristão…); como a da Cabala, com o seu Ain Soph, o Nada ou Não Ser ilimitado; como a da vacuidade primeva e derradeira do Tao que não pode ser nominado ou de, ao menos, algumas das principais tradições Budistas; como a do Brahman Nirguna, o Brahman sem atributos ou Parabrahman, que, sendo o Uno, é também um zero, como alguns já fizeram notar 5 e, em geral, do princípio deífico impessoal e indeterminado das correntes mais irredutivelmente monistas da Vedanta; como, terminando a exemplificação, a do mazdeísta Zeroane-Akerne, o tempo-espaço ilimitado, esse tempo-espaço ilimitado onde tudo é possível, onde a liberdade radical existe, onde os mundos se inventam, se criam, se desvanecem e re-criam, onde a poesia está verdadeiramente à solta.

 

 

No exercício desta liberdade radical, o nosso homenageado tudo constrói, questiona e reconstrói, confrontando, conciliando e superando tese e antítese: “Do que é certo desconfia / do duvidar te enamora6 e “Não sou do ortodoxo nem do heterodoxo; Cada um deles só exprime metade da vida; Sou do paradoxo que a contém no total” 7, 8, escrevia ele. E na sua demanda espiritual e do divino, elevava essa dúvida construtiva sobre a definição que circunscreve e delimita, até à exigência de ser ou viver, em lugar de crer ou dogmatizar: “é bom não saber de Deus / quem de dentro a Deus adora9 e “Crente é pouco sê-te Deus / e para o nada que é tudo / inventa caminhos teus” 10 11. Mais ainda afirmou: “Ser verdadeiramente livre seria [ser] Deus porquanto nenhuma determinação poderia provir senão d’Ele próprio”.

 

Consequentemente, terá sido nesse “ser Deus”, que assume e em que se transmuda, terá sido nesse espaço meta-ontológico ilimitado e incondicionado, simultaneamente vazio e pleno de si-mesmo, nada-que-é-tudo, que aquele que conhecemos como Agostinho da Silva, segundo o seu Caderno de Lembranças 12, pôde livremente escolher onde e quando nasceu – ou renasceu.

 

Na realidade, essa escolha e esse nascimento ou renascimento, poderá ter sido apenas a réplica de uma escolha e de um nascimento ou renascimento muito, muito anterior e prototípico. Lembremos outra afirmação sua, verdadeiramente notável: “Nós nunca sabemos quando é a partida. Consideramos que a partida é o momento em que nascemos, mas pode ser que a partida seja uma eternidade atrás. E que nessa eternidade atrás, no ponto de arranque de tudo quanto está no mundo, tenham coincidido a liberdade e o destino” 13. E então, acrescentamos nós, talvez o mundo seja não só o resultado de uma vontade primordial colectiva mas seja também afinal inteiramente justo, porque foi o que, em plena liberdade, quisémos, ficcionando – e assim ficcionando ou imaginando, gerámos o destino. Então, ainda, seriam exactas, para todos, as definições do nosso pensador, constantes do seu espólio: “Chamo liberdade à minha ignorância do destino; e destino ao meu ignorar da liberdade”…

 

 

Adiante. A liberdade que propunha o Professor Agostinho da Silva é sem dúvida exigente. Vai muito para além da liberdade – liberdadezinha, se me é permitida a expressão – (liberdadezinha) pessoal de fazer, deter e reivindicar coisas – coisinhas, direi identicamente – (coisinhas) restritas a uma satisfação própria e imediatista. É muito mais uma liberdade de se edificar, de dar, e de se doar, do que de tomar, protestar ou exigir. É a sublimada e essencial “liberdade de se ser, plenamente, aquilo que se é”, conforme – tão bem! – se expressou 14. É uma liberdade de raiz – por isso lhe chamámos radical –, plena, cósmica, não exclusiva, que se quer de todos, com todos, para todos. Escrevia Agostinho: “[…] uma boa definição de homem, para além de suas limitações físicas, seria a de que é um ser de embrionária liberdade, cujo dever, cujo destino e cuja justificação é o da liberdade plena; plena para ele, plena para os outros, plena para os animais, plena para ervas, plena talvez até para seixo e montanha” 15.

 

É ainda uma liberdade exigente porque unicamente se pode vivenciá-la quando, de um nível mais profundo de Consciência, se observa o próprio pensamento e as próprias emoções, eximindo-se aos seus condicionamentos, preconceitos, caprichos e devaneios; quando, deste modo, se logra uma acção de consciência e não, meramente, uma reacção a estímulos materiais ou passionais.

Na realidade, a simples reacção nunca é livre, porque é aquilo a que reagimos que nos determina e nos conduz. A construção de uma identidade (ou pseudo-identidade) com base num encadeado de pensamentos e emoções em resposta a determinados estímulos provenientes do meio envolvente, sem que observemos, detenhamos e reorientemos tal sucessão, diminui-nos, se é que não nos veda completamente, a liberdade. Efectivamente, que dose de liberdade temos quando, a partir do momento em que nascemos, sem nos darmos conta, se vai desenrolando uma cadeia de pensamentos, desdobrados uns dos outros, que não previmos, e que na sua maioria não são mais do que meras reacções a estímulos externos que poderiam ser os que foram… ou outros totalmente diferentes? Que dose de liberdade temos, sem que da nossa parte exista um auto-governo – a que corresponde, numa das suas acepções, o conceito involucrado no termo sânscrito Svaraj, ou seja, o domínio do Actor pela Testemunha, do ilusório pelo real 16?

 

É também uma liberdade exigente porque feita de desapego, de despojamento, de frugalidade, de renúncia a ‘carreirismos’, riquezas, honrarias e até a seguidores 17, de afastamento da “rede das mil coisas inúteis que o mundo vai sempre tecendo, julgando-as importantes, porque não sabe fazer coisa melhor 18. “A verdadeira criatividade, essa flor rara do género humano, dificilmente desponta no solo árido e ressequido da banalidade das (pre)ocupações comuns19. Agostinho da Silva elogiou a prática de Spinoza e, ao seu modo, a repetiu justificando, pelo menos em grande medida, as palavras de ouro escritas, alguns séculos antes, pelo Padre Manuel Bernardes: “A pura, perfeita, e absoluta liberdade consiste em não necessitar de coisa alguma: e esta é própria dos bem-aventurados” 20.

 

Ao mesmo tempo, contudo, essa é uma liberdade criadora, derivada de um plano ou campo de consciência onde há um entendimento muito mais amplo, vasto e profundo; onde uma visão panorâmica compreende relações que escapam a um pensamento superficial, onde uma visão panorâmica realiza a interligação de tudo, penetra no fundo das coisas, das situações e dos seres, não se detém em especializações separatistas ou em sectarismos de um só livro. É uma liberdade entusiasmante, na acepção etimológica de “ter divindade dentro de si”. É uma liberdade que gera e distribui alegria, vida, inspiração. É uma liberdade que se recusa a entrar no “paraíso de loucos” (usando uma velha expressão dos Gnósticos) que é a presente civilização do crescimento económico ilimitado, da alienação do trabalho, da produção e do consumo, conducente a uma “sociedade de cansaço” 21, de exaustão e de esterilidade; é uma liberdade que gera uma ventura que não cessa, resiste à morte e a todas as contingências, e levanta um voo perene e universal.

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1 Cortina 1 [inédito].

2 Nesta esteira, vejamos as afirmações agostinianas em Sobre as Escolhas: “Se estamos todos muito bem preparados para reclamar liberdade para nós próprios, menos dispostos parecemos para reclamar sobretudo liberdade para os outros ou para lhes conceder a liberdade que está em nosso próprio poder; se conhecêssemos melhor a máquina do mundo, talvez descobríssemos que muita tirania se estabelece fora de nós como se fosse a projecção ou como sendo realmente a projecção das linhas autocráticas que temos dentro de nós; primeiro oprimimos, depois nos oprimem; no fundo, quase sempre nos queixamos dos ditadores que nós mesmos somos para os outros; e até para nós próprios, reprimindo todas as tendências que nos parecem pouco sociais ou pouco lucrativas, desejando muito que os outros nos vejam como simples, bem ajustados, facilmente etiquetáveis”.

3 Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, organização e estudo introdutório de Paulo A. E. Borges, Lisboa, Âncora, 1999, Âncora Editora, Lisboa; p. 154.

 

4 Quadras Inéditas, Ulmeiro, 1990, pp. 42 e 130-131, respectivamente.

5 Por exemplo, Alain Daniélou. Cfr. Dioses y Mitos de la Índia, Atalanta, Girona, 2009, pp. 41-2.

6 Quadras Inéditas, p. 35.

7 “Pensamento à solta”, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 145.

8 Notar-se-á aqui alguma aproximação à lógica indiana – é; não é; é e não é; não é nem não é – e ao seu desenvolvimento em Nagarjuna (se não no próprio Siddhārtha Gautama), acrescentando a negação dessas proposições, conduzindo assim a śūnyatā ou vacuidade. Também traz à lembrança a carta VII de Platão, onde este sustenta não haver ou poder haver algum resumo das suas doutrinas. Por outro lado ainda, as afirmações paradoxais de Agostinho, particularmente nas suas Quadras, assemelham-se em muito à linguagem do Tao Te King.

9 Quadras Inéditas, p. 35.

10 Uns Poemas de Agostinho, Ulmeiro, Lisboa, 2ª ed., 1990; p. 22.

11 Vale aqui a pena lembrar as palavras de Fernando Pessoa: “O indivíduo do escol pode, por exemplo, aceitar inteiramente uma doutrina alheia; aceita-a, porém criticamente, e, quando a defende, defende-a com argumentos seus – os que o levaram a aceitá-la” (In O Caso Mental Português, Lisboa, 1932).

12 Zéfiro, Lisboa, 2006.

13 Em entrevista ao jornalista Adelino Gomes, no programa Conversas Vadias da RTP 1, em 1990.

14 Dispersos, Introdução de Fernando Cristóvão, Apresentação e Organização de Paulo Alexandre Esteves Borges, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Lisboa, 1988, p. 137.

15 “Nota a Cinco Fascículos”, in Textos e Ensaios Filosóficos II, pp. 262-263.

 

16 “Auto-governo significa governar o inferior desde o superior; não se trata de governar terras e pessoas externamente mas de nos tornarmos mestres no reino vasto e rico que se encontra no interior. O mais elevado é puro, bom, nobre e sublime; e com gentil delicadeza, com razão compassiva, com verdadeira simpatia, com ampla experiência, governa o mais baixo. Aprendei isto e cessai de falar sobre orientar os outros enquanto não possuirdes compaixão e experiência. Aquele que se conquistou a si mesmo é senhor dos mundos”. B. P. Wadia, Svadesh and Svaraj, Adyar Plampleths, nº 120, Theosophical Publishing House, Adyar, 1920, p. 8.

 

17 Meu caro Amigo: do que você precisa, acima de tudo, é de se não lembrar do que eu lhe disse; nunca pense por mim, pense sempre por você; fique certo de que mais valem todos os erros, se forem cometidos segundo o que pensou e decidiu, do que todos os acertos, se eles forem meus, não seus. (…) São meus discípulos, se alguns tenho, os que estão contra mim; porque esses guardaram no fundo da alma a força que verdadeiramente me anima e que mais desejaria transmitir-lhes: a de não se conformarem”. Agostinho da Silva, Sete Cartas a um Jovem Filósofo Seguidas de Outros Documentos para o Estudo de José Kertchy Navarro, Ulmeiro, Lisboa, 1990.

18 Pietro Ubaldi, O Sistema, São Vicente, Grupo Editorial Monismo, pp. 406-7.

19 José Manuel Anacleto, Transcendência e Imanência de Deus, Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 2001; p. 130.

20 In Luz e Calor.

 

21 Conforme o título e o conteúdo do livro de Byung-Chul Han. 

 

 

José Manuel Anacleto

Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

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